Nascida camponesa, na terra de Arc, sem outra fortuna além de si própria. Teve a força e a genica necessária para reunir os franceses e quase quase vencer a guerra contra os ingleses. Uma daquelas guerras antigas e longas. Uma guerra de cem anos.
Quando a Joana falava soprava vento e quando levantava a espada sentia—se o furacão do seu querer. Corações e cabeças tombaram de paixão e desejo pela Joana.
A Joana quase—menina, virou a Joana quase—mulher. Mulher, jovem, bonita, carismática e inteligente, combinação perfeita para lhe estragar a vida!
Meio caminho andado para a fogueira dos donos do mundo. O resto do caminho fez a galope no seu cavalo.
Julgaram—na por bruxa. Não se sabe se era, se não era. Dizem que as há. Depressa a condenaram. Mais depressa executaram a sentença. O fogo que a matou aqueceu uma multidão de basbaques e satisfaz o perverso desejo de morte de nobres e padres. Foram os mesmos de sempre que acenderam a chama que lá em Ruão.
Ainda lá está o túmulo para confirmar que o que conto não é mentira.
Em cima das suas cinzas frias, os mesmos de sempre, acumulando opressão com humilhação fizeram da Joana Santa.
Sim, Santa. Santa católica para rezar nas missas e pedir milagres.
Não contentes, sempre os mesmos donos do mundo, trataram de amassar as suas cinzas com o cuspo que lhes sobra nos cantos da boca dos seus discursos e fizeram do que sobrou um Símbolo Nacional.
O patriarcado compensou a impotência de séculos com estandartes em seu nome.
Sempre que arde uma igreja, não resisto a imaginar a Joana, descida do seu cavalo e de túnica arregaçada, a brincar com fósforos para ajustar contas antigas.
Que me perdoem os mais católicos.
