quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Catherine Dior

 Quando a Catherine,  entrou na loja para comprar um rádio em 1941, sentiu uma vertigem. Não ligou, tinha 24 anos e a certeza absoluta que não estava grávida. 

Foi a roda da fortuna a girar sobre o seu eixo que deixou tonta a jovem mulher , mas a Catherine estava longe de perceber o que lhe ia acontecer.

Há momentos assim.

Foi nessa loja de eletrodomésticos que conheceu o Hervé. Casado, pai de três filhos. Ficaram amigos. Conheceu a mulher do Hervé, a Lucie que recebeu Catherine de braços abertos. 

Mas a roda da fortuna tinha girado e a Catherine e o Hervé perceberam na loja que acontecesse o que acontecesse, o caminho dos dois seria juntos. O amor tinha sido sintonizado numa estação que era só dos dois e a transmissão durou para sempre.   

O Hervé era responsável por grupo que se dedicava a recolher informações, organizar, documentar e fotografar movimentos das tropas alemãs para depois entregar tudo aos aliados. 

A Catherine entrou de cabeça na resistência e adotou o psudonimo de Caro.

Em 6 de julho de 1944, três anos depois da Catherine ter decidido comprar o rádio, já os alemães estavam a perder a guerra. Caro marcou um encontro com um companheiro de luta para lhe entregar documentos. Um encontro em Paris que tudo se previa vir a ser em breve libertada. 

O contacto da resistência não veio mas apareceu a Gestapo. 

Levaram-na para o número 180 da Rue de la Pompe no 16º arrondissement. Uma casa bonita oferecida por colaboradores franceses aos nazis.

Tortura-na um bocado .

Não falou.

A Catherine nasceu 27 anos antes de ser presa na Normandia em 1917, doze anos mais nova que seu irmão Christian. 

Vieram ao mundo ricos e viveram a infância de forma confortável.  Em 29 com a crise da bolsa o pai da Catherine foi a falência. A mãe que cultivava rosas e jasmim, passou a produzir legumes e hortaliças que davam para a sopa.

E 1931, quando a mãe morreu, os filhos herdaram o amor da mãe pelas flores.

Enquanto Christian foi para Paris para trabalhar como alfaiate a Catherine ficou na Provença a criar vegetais para sobreviver e sonhar com as flores da mãe.

Então veio a guerra.

Em 1941 a Catherine com a ajuda do irmão, lá conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar o tal rádio que precisava para ouvir as notícias da guerra.

E quando foi comprar o rádio, tau. Veio tudo de uma vez.

O tal dia de mudança.

Depois do rádio, foram 3 anos de amor intenso, perigos e ansiedade, esperança, vitórias e dores. Prazeres fugazes em lugares improváveis.

A 15 de agosto de 1944, apenas dez dias antes da libertação de Paris, já a Catherine estava presa há mais de um mês na Gestapo de Paris quando a puseram num comboio. O bilhete era só de ida para o campo de concentração de Ravensbrück. Chegou uma semana depois a 22 de agosto. Tatuaram-lhe no antebraço o número 57813.

Catherine chegou a Ravensbrück já lá estavam mais  40000 mulheres numa instalação que tinha sido preparada para recer um máximo de 5000 prisioneiras. 

Por esses dias, a Alemanha nazi está a desmoronarar-se com o avanço do Exército Vermelho. A Catherine e outras prisioneiras foram sendo transferidas de campo para campo. O desesperado esforço de guerra dos nazis também vivia de trabalho escravo dos prisioneiros. 

A Catherine nesses meses, trabalhou a fazer explosivos numa mina e a fazer peças para a bmw, entre outras coisas.  

Em abril de 1945, foi resgatada por tropas aliadas perto de Dresden. Passou um mês no hospital e voltou a Paris em 28 de maio de 1945. Parece que final de maio, é uma boa altura para voltar a Paris. 

Em junho, foi o reencontro com o Hervé. Deixaram-se de espionagens e abriam uma florista.  

O estado frances homenageou a Catherine com condecorações. Medalha disto, cruz daquilo, grandes honras que não lhe aliviaram as dores. Fizeram dela heroína nacional. 

O irmão da Catherine, o Christian que de alfaiate passou a costureiro e cuja marca se estava a afirmar no pós-guera, deu a um perfume que viria ser muito famoso o nome da mana.

Uma oferta sentida e perfumada. A Catherine gostava de flores e apreciou o perfume.

Talvez seja por isso que quando se abre o frasquinho da Catherine, do Christian Dior, cheira flores, sedução, resistência, traição, dor, amores proibidos e liberdade.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Madame Satã

salve a malandragem 

Dos anos que viveu , ao todo, passou 28 anos dentro do sistema penitenciário. Eu sei, não é uma boa referência, para uma diva.  
A diva que nasceu João e cuja mãe o trocou por uma mula, apesar de muito referenciado nunca foi propriamente uma referência em vida. 
Foi mais do que isso. Muito mais do que isso. Foi quem quis ser.
Terá nascido filho de escravizados lá bem no interior empobrecido e seco de Pernambuco. Por volta de 1900. Quando a mãe ficou viúva vendeu o João que tinha sete anos em troca de uma mula. A mula fazia-lhe muito mais falta. Até porque tinha mais filhos e nenhuma mula.
O senhor Laureano, foi quem comprou o menino. Prometeu fartura de comida e educação. Na prática foi trabalho escravo para os braços de criança obrigada a tratar dos outros animais do proprietário da fazenda.  
Na Paraíba, para onde foi com o Laureano numa viagem de trabalho escravo, o João menino, conheceu a Dona Felicidade. 
Voltaram os três para a fazenda. Teria a criança uns oito anos, a Felicidade passado uns meses, levou-o. Foram fugidos da fazenda do Laureano, o menino foi como penhora para cobrar uma divida de serviços prestados e não pagos ou como indemnização de um contrato cujo Laureano não cumpriu. Não sabemos, foram tratos entre o Laureano e a Felicidade.
Porque as estradas no hemisfério sul correm para baixo, mesmo em terra de seca, desaguaram os dois no Rio, o de Janeiro. 
A Felicidade que tinha de fazer vida e não se deu bem no interior, montou uma pensão. Chamou Hotel Itabaiano ao estabelecimento. Funcionava vendendo felicidade de cama quente com recheio de meninas e raparigas pobres para outros pobres temporariamente ricos, para remediados pobres de afecto e para ricos suvinas que na pobreza das moças compravam satisfação. 
Depois da abertura da pensão o menino que era esperto e ganhava corpo continuou o seu trabalho escravizado para a a Felicidade. Entre ser escravo a tratar do gado do Laureano e ser escravo no empreendimento da Felicidade, convenhamos que o menino estava mais confortável nas camas da pensão.
Foi na casa da Felicidade que o João conheceu a luxúria do corpo. Aos doze treze anos, a Felicidade organizava festas de pessoas que interagiam nuas. Com meninas, mulheres e homens que pagassem. A presença da criança começou a ser requisitada porque aumentava o valor a receber pelo evento. João passou a ser animação de homens e mulheres. 
De menino escravo de puta a puta por conta própria foi o salto dos 13 para os 14. Deixou definitivamente a infância infeliz e a Felicidade no bordel. Como já vimos que não era parvo, foi viver para as ruas da Lapa onde a alegria se deita com a miséria. 
(Eu sei que é raro mas às vezes acontece. A miséria de vez em quando farta-se da monotonia de ter de dormir com a tristeza e vai meter os cornos à chorona aquecendo os pés e o resto na cama da alegria)
Quando perguntavam ao malandro Joãozinho do que gostava mais, se de homens ou de mulheres, ele despudorodamnete sorria aquele sorriso lindo e aberto e dizia que gostava “mais de ser bicha”. Por isso era bicha.
Mas de bicha a diva ainda vai uma distância grande. 
A aprendizagem da sua grandeza fê-la com os malandros da Lapa dos anos vinte do século vinte. Boa e reputada escola de Malandragem. Ao nível do do Cais de Sodré dos anos 70 em Lisboa e do Roque Santeiro dos anos 90 em Luanda.   
Foi na Lapa, no Rio de Janeiro a dos anos 20 que a bicha Joãozinho aprendeu a defender-se. Juntou a sábia arte da capoeira aprendida com os Mestres que acrescentou à sua espontânea forma de lutar com a raiva dos desesperados. Tornou-se lendário nas brigas. Fez-se respeitar com a ginga das suas esquivas e os cortantes golpes da sua navalha. Aconteceram-lhe as primeiras prisões. 
Aconteceu o também o amor. 
O amor quando acontece a uma pessoa, é uma coisa muito séria e muda a realidade. A realidade da pessoa e do mundo inteiro. Foi o que se passou.
O amor na bicha João fez nascer a diva. 
Tudo porque se apaixonou pelo Malandro Brancura.
O Malandro Brancura que tinha a alcunha por ter a pele branca num universo de negros e mulatos. Louro e de olhos claros, fazia passar-se por alemão. Na realidade nasceu em Arcozelo e veio para o Brasil miúdo, neto de um francês que chegou a Portugal como invasor e que por cá ficou a fazer filhos e a beber verde tinto até morrer no Minho que é um sítio tão bom como outro qualquer. 
Especialista no jogo de dados, hábil com a navalha e proxeneta de profissão, também o Brancura se encantou pelo sorriso aberto da bichinha e pelas proezas que ela fazia na cama. 
Viveram juntos e felizes para sempre durante quase dois anos.
Depois o brancura encontrou outro amor. Apaixonou-se por uma polaca que nao tinha nada a ver com a Polónia porque tinha nascido numa família judia da Eslovénia...mas isso não interessa à história.
A bichinha na raiva virou João e disse que matava os dois. Era homem para isso. Só não o fez porque o Brancura fugiu para longe com a sua polaca neta do Abraão.
A dor misturada com a saudade dá um combustível do caraças... A inveja de mamas da diva em gestação fez parir uma linda mulher. Estava a inventar-se o transformismo e o riso e gargalhada fácil, o gingado e capacidade de adaptação, com maquilhagem e ousadia que não lhe faltavam fizeram o resto.
A consagração total de Diva, aconteceu-lhe no Carnaval de 1938. A Bicha João, vestida de mulher morcego, isto antes de terem inventado a mulher morcego. Ganhou um importante concurso de mascaras. Depois na festança que se seguiu ao desfile, foi preso com mais amigas e amigos. Putas, travestis, artistas e proxenetas. Foi no palco da delegacia que terá estendido a mão negra de palma branca enluvada em veludo preto e respondido quando lhe pediram para se identificar: 
-- Madame Sata , rainha da noite ao seu dispor delegado.
Até a vénia que fez veio no jornal.
Ficou conhecido e reconhecido.
Vestido de mulher linda que se fez por seu próprio esforço, brilhou nas noites quentes do Rio de Janeiro. Namorou com artistas, criticos e pessoas influentes. Tornou-se ela também artista de variedades. Fez carreira enquanto não lhe acontecia ser ou estar preso.
O resto é história. 
Entre palcos e presídios foi vivendo e sendo quem quis ser. Sem complexos nem concessões. Resolvia o que tinha a resolver entre beijos e facadas. Amou e matou de amores e com tiros.
Morreu velhinha de cancro no pulmão. 
Apartir dos cinquenta acalmou as noitadas mas não deu reforma a loucura. 
Por fim, ganhava a vida como cozinheira, babá e fazendo arranjos de costura. 
Hoje é celebrada em giras de esquerda entre Exus e Pombagiras. Há terreiros onde desce para dar consultas, fazer trabalhos e beber. 
O seu nome é uma bandeira para a comunidade trans... Fizeram um filme sobre ela e continua a ser citada na letra de muitos sambas.
Madame Sata, a diva que nasceu menino, foi aquele malandro que não se contentou em ser bicha, se construiu mulher e se fez coroar como rainha. 
Tomem e embrulhem. Para que fiquem todos a saber que algumas divas também têm testículos.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Rita do Lumiar

 Filho de um empreendedor genovês e de uma senhora espanhola, foi por isso e que o Chico nasceu Paco em Cádiz  andaluz em 1853. 

Aos dezassete anos, um tio direito, irmão da mãe, faz-lhe um convite irrecusável e o Chiquinho foi para São Tomé ajudar a explorar uma roça de cacau.O termo explorar adapta-se bem ao de facto acontecia. 

Chamava-se Santa Margarida esta primeira roça que teve com o tio. Depois associou-se ao outros empreendedores locais noutras duas: a Roça Monte Macaco e a Roça Mainço. Mais tarde, já sem sócios, que isto de meias é bom é para os pés, fundou a Roça da Esperança e a Roça Infante Dom Henrique. 

O tempo foi passando entre tanto e tão esforçado trabalho que quando o Chico deu por si já estava quase nos trinta e cinco anos e ainda não tinha esposa nem descendência. Porque era um rapaz bem educado nos valores da família e porque tinha uma boa visão para o negocio, casou-se com a prima direita, filha do tio que o iniciaria no nobre negocio do cacau. Desta abençoada e católica união nasceram pelo menos treze crianças. Das suas escravas e empregadas terão nascido outras tantas mas dessas crianças a história não tem registos.  Com quarenta e picos foi convidado pelo Banco Nacional Ultramarino para gerir a grande roça Água-Izé. 

O empreendedorismo agrícola do Francisco não cabia no pequeno arquipélago de São Tomé... por isso o empresário alargou o seu engenho de iniciativa para outros lugares: em Angola criou a Companhia de Cabinda e a Companhia do Cazengo, em Moçambique criou os Prazos de Lugela e mais longe ainda, fundou a Companhia de Timor. 

Quando chegou aos sessenta, farto de Áfricas, decidiu vir viver para Lisboa que é um sitio bom para se viver com o dinheiro. Por volta de 1915, criou uma holding a que chamou companhia comercial que continuou a multiplicar a sua fortuna no conforto do seu gabinete metropolitano. Quando chegou, ainda comprou uma casita ali para a Lapa, mas como a Lapa era um sitio demasiado apertado para o Dom Francisco viver, decidiu-se por comprar umas quintas  afastado do centro, no Lumiar. Fez as obras necessárias  à altura do seu empreendedorismo. Construiu um lago artificial com duas ilhas no meio, em homenagem à Ilha de São Tomé e à Ilha do Príncipe e importou árvores tropicais para florestar os extensos jardins. Nos anos dourados da reforma, com outros senhores importantes fundou a sociedade portuguesa de geografia e financiou orfanatos. 

A sua opulenta quinta, às portas de Lisboa, era local de referencia e deferência nos primeiros vinte e cinco anos do século XX. Os vastos jardins, as obras de arte que comprava, as festas a que apenas os mais altos destinatários tinham acesso, tudo contribuiu para fazer crescer a fama do homem, do palácio e dos jardins. 

Mas uma pessoa nunca sabe quando está bem... foi então que uma das suas empregadas, uma daquelas moças que tinha trazido de São Tomé a quem não pagava salário mas dava alojamento e comida,uma dessas desvalidas que lhe devia a própria vida, uma das suas negras da casa, teve a ousadia de emprenhar do Dom Francisco...

Ainda por cima, só se deu pela coisa já em cima do momento do parto...não havia nada mais a fazer do que deixa-la parir. 

À esposa, caiu-lhe mal a maldade da negra de se engravidar assim do seu marido. 

O D. Francisco, mandou de volta a negra para são Tomé, dois dias depois de parir, seguiu no primeiro navio... no entanto, a sua prima e ditosa esposa, não deixou seguir a criança, quis ficar com a menina para a criar lá em casa. Decidiu chamar-lhe. Assim ficou. Mas o gene da desgraça, já estava plantado. Acontece que a Rita estava fadada para dar problemas e se os problemas começaram ainda antes dela nascer, parece que cresceram durante a vida nem a morte estancou os roucos gritos de pranto nem o rio das lágrimas da Rita. 

Seja por causas genéticas, seja pelo ambiente em que vivia afastada da mãe com um pai que tinha idade para ser avô e agia como dono, a Rita começou desenvolver algumas patologias de comportamento. 

Ora o Senhor Chico, não esteve com meias de medidas, homem de aço, empreendedor, e habituado a "educar africanos", decidiu construir uma jaula onde metia a Rita sempre que as crises de choro e gritos aconteciam. E aconteciam muito. Com a adolescência a coisa piorou, as tarefas de cinto e os castigos de privação de comida não conseguiam acalma  e a Rita, já mulherzinha, passou a viver sempre enjaulada. O Senhor Francisco não dava autorização que a menina saísse da jaula. Um problema. Um problema grave que durou até à morte do D. Francisco em 1928. 

Após a morte do D.Francisco, a família reunida em concelho de administração decidiu afastar a Rita bastarda para um clínica de alienados onde acabou por se suicidar numa facilitada eutanásia da janela do quarto andar dum prédio discreto nas Avenidas Novas que nos anos trinta do século XIX ainda eram novas .

A esposa amada e prima do D. Francisco, mudou-se ela também para o centro de Lisboa onde viveu até morrer. A quinta foi esvaziando como um balão esquecido numa garagem onde aconteceu um aniversário. Os jardins menos descuidados foram-se tornado mata.

Os vizinhos diziam que à noite se ouviam vozes e gritos. Que aconteciam coisas inexplicáveis nos edifícios e nos jardins. 

A Tobis, A Tobis - Tonbild-Syndikat– companhia de propaganda e lavagem de dinheiro nazi- chegou Portugal pela mão salazarenta do Antonio Ferro e veio instalar no jardim, um estúdio de cinema. Inclusive, foi feito ali o filme A Canção de Lisboa. Depressa deixaram de utilizar o estúdio, porque as coisas lá nunca corriam bem. 

No Lumiar todos diziam que a quinta estava assombrada. A prima e esposa do D. Francisco, fecha os olhos já nos anos cinquenta. Os herdeiros do D. Francisco, pessoas de princípios e bem instalados na vida, não gostavam dos murmúrios sobre assombrações e sobre a memória esclavagista de tão ilustre pai e avô. 

Alguns dos herdeiros, ligados à alta-finança, outros ligados ao governo do Dr. Salazar. Todos eles portugueses, brancos, católicos e ricos. Num dos encontros que  ocasionalmente tinham, em Cascais, decidiram desfazer-se da Quita e enterrar definitivamente o passado. 

Falaram com quem tinham que falar e por volta de 1966, a câmara de Lisboa comprou-lhes a quinta. 

Não há registo de valor em dinheiro na escritura de transferência da propriedade, mas três anos depois a autarquia atribuiu a uma rua, o nome do empreendedor que levou o desenvolvimento para São Tomé. 

O Jardim da Quinta das Conchas e dos Lilases foi "reinaugurado" e aberto ao público a 12 de Maio de 2005. Sob a tutela do presidente da edilidade lisboeta à data, o doutor Pedro Santana Lopes. Estas obras de requalificação do espaço receberam o Prémio Valmor e o prêmio Municipal de Arquitectura em 2005. 

Para os mais sensíveis às energias de vivos e mortos, a quinta e os jardins continuam assombrados pela mulata Rita. A Rita bastarda enlouquecida de dor da partida da mãe e enjaulada pelo pai. 

Como se a memória branqueada do colonialismo escravocrata é já em si mesma não fosse assombração que cheguasse.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Carla e Adelaide as divas da secção de crédito

Trabalhavam as duas na secção de recuperação de crédito. Tinham a mesma idade com diferença de 3 dias, a Carla nascida a 5 a Adelaide a 8 de Fevereiro. 

Começaram novinhas no banco mais ou menos ao mesmo tempo. A vida fê-las colegas e elas tronaram-se amigas. Depois, porque foram educadas para isso, casaram-se. A Carla com um rapaz que trabalhava nas finanças, e a Adelaide um ano depois casou-se com um moço que era sargento da marinha em permanência no Alfeite.  

A Carla era católica quase quase praticante, tinha sido catequista e tudo. A Adelaide, menos praticante, mas igualmente frente, também veio de uma familiar conservadora: filha de um gnr e de uma senhora testemunha de jeová. 

Ambas escolherem maridos do tipo bom moço e trabalhador. Os maridos, moderadamente ciumentos e luso-machistas sem excessos. Os maridos tornaram-se também eles grandes amigos. Por alem das esposas trabalharem no mesmo sitio, os rapazes tinham em comum um grande amor: o sporting club de portugal. Ambos sócios encartonados com cotas em dia. 

Assíduos nos jogos a puxarem um pelo outro assim como puxavam pela equipa. 

Naturalmente chegaram as crianças: dois meninos gémeos da Adelaide com a trombinha do sargento e uma menina que se parecia à Carla e que a alegria do gajo das finanças, logo a seguir aos golos do Sporting, naturalmente. 

As gravidezes quase simultâneas aproximaram ainda mais as duas amigas. Os dois casais começaram a passar ainda mais tempo juntos. Juntavam-se todos os fins de semana. Quando o sporting joga em Alvalade jantam no sábado e no domingo eles vão os dois à bola e elas ficam juntas em casa, porque nem a Carla nem a Adelaide  são mulheres de sair de casa. Quando o sporting joga fora, eles vão no sábado e elas ficam com as crianças alternadamente na casa de uma da outra. Um domingo em Alvalade, o outro domingo em viagem por este imenso pais de futebóis. Os homens chegam ao final do domingo, eufóricos ou lamentando arbitro, a equipa o presidente... Depois eles ficam a ver os comentários na televisão e elas arrumam a cozinha. 

Moram todos a dois quarteirões de distancia no Cacém. No segunda-feira voltam a encontrar-se as duas na copa, para beber café e arrumar no frigorifico pequenino, as caixas de plástico com o almoço que partilhavam. 

Eu sei porque trabalham comigo no banco.

A coisa é assim há mais de quinze anos. Até que um dia, uma quinta-feira de manha, estava eu na garagem do banco entretido a ler a bola quando desceu o Senhor Gonçalves responsável pela logística e chefe da manutenção, por isso meu chefe. 

Vinha o cabrão do Gonçalves cenho fechado e sem dizer bom dia perguntou logo de mau humor: 

--Não tem nada para fazer? A manutenção deste edifício está em pausa? 

-- Senhor Gonçalves, estou a espera que cheguem as tomadas para ir substituir la em cima na administração... devem estar ai a chegar. Respondi modesto mas rápido, afinal de contas, trabalhava na manutenção há tempo suficiente para ter sempre umas cuecas de aço vestidas quando o chefe chega de mau humor...

 -- Olhe homem, vá mazé lá a baixo à subcave onde temos o arquivo-morto e veja la o que se passa com a luz, porque já se mudou a lâmpada e não é da lâmpada... O arquivo morto estava sem luz há três semanas. Tínhamos ficado e substituir toda a infraestrutura elétrica no próximo mês de agosto. O cabrão do Gonçalves sabia isso muito bem... 

Mas chefe é chefe, dobrei o jornal e fui. Desci pelas escadas para fazer tempo e com a lanterna grande na mão. Agora é que lhes deu a pressa!!! 

Abri a porta com um encontrão, zangado de estarem a inventar coisas para me mandarem trabalhar. Foi então que as vi. No canto entre prateleiras cheias de dossiers. Estavam as duas despidas da cintura para cima. Abraçadas, a Carla com a mão direita debaixo da saia da Adelaide que tinha as cuecas caixas a fazer companhia  aos sapatos de médio salto. A Carla empenhada no que estava a fazer estava com um expressão quase de fúria. A Adelaide com os cabelos soltos e a cabeça deitada para trás, parecia estar bastante agradada com a motricidade fina dos dedos da amiga. 

Ficaram tão chocadas quanto eu. Ou melhor ficaram mais chocadas que eu...alem de chocadas, encadeadas pela luz da lanterna e gelaram pela travagem brusca na auto-estrada com direção ao amor. Seguiam ambas em excesso de velocidade. 

Eu inspirado pela velocidade, sai tão depressa como entrei. Pressionei o botão do elevador que se chama monta-cargas porque é maior e menos limpo. O monta cargas demorou o tempo suficiente para que elas chegasse ao pé de mim. --Não vi nada. E têm a minha palavra que vou guardar o segredo do que não vi. Guardei. Guardei até hoje. Ate este momento em vos conto. 

Nunca falei disto a ninguém.

Entre nós os três cimentou-se uma profunda amizade e respeito mutuo. Ficamos amigos até eu me reformar do banco. Mas brincadeiras à parte, digo-vos uma coisa: eu sabia sempre que o sporting jogava fora pelo despertar do leve sorriso de satisfação nos rostos sério e contidos das duas divas discretas e bem comportadas.

Mariana de Alcoutim

 Conheci a Mariana em 1953, numa terça feira, na sala de matematica do Liceu Nacional de Faro. Tinhamos dez anos e passava das oito da manha. Era o primeiro dia no liceu mas o comboio que me levou Olhao, decidiu atrasar-se. Corri e entrei pela primeira porta que vi aberta. Procurei a sala 3...Pentei a franja e com a coragem dos resignados, bati e esperei. -- Entre. Entrei e vi-a. Vi a Mariana mais uma turma de meninas da minha idade e uma professora que depressa me corrijiu o erro. Aqui era a seccao feminina, tinha de sair para a rua, dar a volta ao edificio e entrar por outra porta. Tudo isto me foi dito em tom de raspanete. Eu muito ao longe porque toda a minha atençao, interesse e sentidos foram sugados pelos olhos escuros da Mariana. Ela era de muito longe lá da serra, para os lados de Alcoutim. Mais tarde fiquei a saber que estava a morar com a familia de um senhor chamado Alfredo que era chefe de qualquer coisa na Camara de Faro. O funcionario e a esposa eram devotos catolicos e tinham uma filha da nossa idade, a Maria da Luz. O padre Saraiva que tinha estado em Alcoutim, conhecia a Mariana e a inteligencia da menina e por isso convenceu o Alfredo e a Dona Gloria a aceitarem em casa a Mariana para que a menina pudesse estudar em Faro no liceu. A familia da Mariana, proprietarios de algumas terras na serra, nao tinham muito dinheiro, mas quinze em quinze dias faziam chegar um carregamento de generos alimenticios que suplantavam largamente o consumo da pequena. A Mariana era magra e seca como os serros à volta do Guadiana. Um sorriso cheio de luz e uns olhos que se riam mesmo quando ela nao se queria rir... Quando conheci a Mariana em 1953, conheci tambem o Luis. Meu melhor amigo do liceu e companheiro de aventuras. Desde aquela manha de outubro de 53 ate ao ano fatidico de 1958, todos crescemos juntos. Eu, a Mariana, o Luis e a Maria da Luz. Hoje sei que foram os melhores cinco anos das nossas vidas. A nós cresceram-nos quase bigodes e a elas cresceram as maminhas. A nós cresceram as pernas e os braços para nadar quando nos baldavamos às aulas. A elas cresceram as nadgas para nos enloquecerem quando dançavamos nos bailes da sede do Farense. Quando em outubro o Luis fez 15 anos o pai deu-lhe ordem para fumar e ofereceu-lhe uma chata. No primeiro sabado, saimos os quatro no barco pela ria com as raparigas clandestinas. Atravessamos a ria e aproamos à praia. O paraiso prometido em bilhetes ousados escritos nas folhas de caderno e segredinhos no saguao dos predios abriu-se quase em simultaneo para os quatro. Dois a dois, sem misturas nem confusões, que estavamos nos anos 50. Esse foi o inverno mais quente da minha vida. Sempre que nao chovia iamos os quatro para a ilha dos amores. Seguia com a Mariana por entre as dunas e os arbustos rasteiros até uma cama de areia branca onde descobrimos juntos e felizes o jogo de amar. As vezes ouviamos a Luz e o Luis. Imagino que tambem eles nos ouvissem a nós. Todos ouviamos o mar. Quando chovia, coisa rara, ficavamos no armazem onde estava o barco. Nesse ano, eu,a Mariana e a Luz preparamos-nos para o exame do 5° ano, com sessoes de intenso estudo. O Luis que em março já tinha decidido ficar no quinto ano outra vez, mas solidario no esforço, em imprescindivel no jogo a pares, tambem ele participava no estudo. Em maio, pela pascoa, a Luz começou a engordar. Ao mesmo tempo começaram os enjoos.. O Luis e a Luz estavam grávidos. Nalguma tarde de final de inverno a coisa acontecera. O Alfredo da Camara dizia que matava. A Maria da Luz chorava e a Dona Gloria calada a pensar. Isto contou-me a Mariana que se foi esconder no quintal quando a coisa se soube la em casa. A Dona Gloria conhecia uma parteira em Vila Real que fez o desmancho. O exame do quinto ano estava marcado para quarta-feira dia 4 de junho. No domingo dia 1 de junho, dia da crianca, a Maria da Luz foi abortar. A coisa correu mal e a Luz sangrou durante dois dias. Trouxeram-na para Faro na manha de segunda-feira. À tarde veio o médico. Falou claro, repouso absoluto nos proximos tres dias. E o exame? Nem pensar em exame dizia o medico. Mais inteligente que o medico a Mariana decidiu: o exame para as meninas era de manha e o exame dos rapazes era feito à tarde... Entao o Senhor Alfredo. Pai da Luz só tinha de escrever uma carta a pedir para a filha ir exepcionalmente ir fazer o exame à tarde porque chegaria nessa manha de Lisboa. Ela, Mariana entregava a carta em mão ao reitor e à tarde ia fazer o exame, fazendo-se passar pela Maria da Luz levando o documentos da Luz. Fazia o mesmissimo exame que tinha feito de manha com o juri das professoras, desta vez num juri de professores e numa sala de rapazes. Os professores nao conheciam as alunas por isso nao havia problema. Assim foi. So que a cabra da professora de matematica das raparigas era a dignissima esposa do professor de frances dos rapazes e ja o exame ia a meio, entrou a docente pela sala para levar uma sandes ao marido e imediatamente reconheceu a Mariana, sua aluna que tinha feito exame durante a manha. Chamaram o reitor. O reitor, zangado por ser incomodado, chamou o policia. O policia,sem saber o que fazer, chamou o conissario. O senhor comissário, sem se intimidar com os doutores, chamou criminosa à Mariana. porque identidade falsa é crime na republica portugesa. A Mariana foi expulsa do liceu e voltou para Alcoutim. Nunca mais a vi. A Luz ficou esse verão em casa, recuperou mas não teve filhos. Foi trabalhar para a loja de uma tia em Lagos e casou-se com um ingles mais velho que tinha um veleiro. O Luis desistiu de estudar e continou o negocio do pai com traineiras. Eu fui trabalhar como escriturário na CP.Saí de Olhão, vim para Santa Apolonia e cheguei a chefe de seccao. Casei, tenho dois filhos e tres netos. Vivo na Amadora e estou viuvo ha dois anos. Nao durmo as noites porque fico acordado a sonhar com a Mariana. Se por acaso a virem por aí, digam que o Artur gostava de se encontrar com ela, para tonarmos uma cafe ou coisa assim. Afinal só passaram sessenta verões.

Dora

 Um amigo comum apresentou a Dora ao Pablo. O gajo ficou completamente apanhado pelo encanto treslocado dela. Entre a menina-bem parisiense e as atitudes de uma passionaria, era impossivel ficar indiferente à Dora. O Pablo era um quarentão maduro a viver a agonia de um casamento moribundo e o romance com a Dora foi intenso e fulminante. Separou-se da Marie e foi viver com a Dora. Casaram-se um contra o outro e ao contrário do previsto o amor prosseguiu mais que tres dias. Ele pintava quadros e ela tirava fotografias. Em Madrid, o Pablo foi nomeado pelos republicanos director do Prado. Ela foi com ele para uma Espanha a ferro e fogo. Ele pintava os bombardeamentos e os olhos da Dora, a violencia e as mamas da Dora, a opressão e braços da Dora... Ela fotografava-o a ele, os quadros dele e às vezes experimentava a maquina em diferentes cenários no atellier dele. A estas fotografias, à falta de outro nome, chamaram-lhe surrealistas. Depois da guerra em Espanha, da mortandade iberica foi o nazismo e a generalização da nausea da pelo mundo. A grande guerra. Acabada esta segunda, o mundo não voltou a ser o que era. O Pablo repugnado com tanta morte e injustiça militou-se no PCF. A Dora agoniada com o mundo tornou-se pintora. Separaram-se. Ele, agora destacado intlectual comunista, vendia como nunca e enriqueceu um bocadinho mais todos os dias que passaram desde então. Ela levou o surrealismo ao extremo e internaram-na na psiquiatria. Ele morreu em 73 e ela 97. O amor dos dois persiste na assimetria das mulheres pintadas por ele e nas fotografias capturadas por ela.

A Tina Ribatejana

 Tudo aconteceu no Ribatejo entre 1870 e 1920. 

Era uma vez um homem rico. Um agricultor alfabetizado. Proprietário rural progressista no seu liberalismo económico e nalgumas opções politicas. Gostava de maquinas e modernizou a agricultura nas suas quintas. 
Teve três filhos. O Chico, o Zé e a Clementina. 
O Chico morreu novo num dos primeiros acidentes de viação. O Zé era um rapaz inteligente, interessado pela politica e cultura, foi dos primeiros fotógrafos em portugal. A irmã a Clementina, também superiormente inteligente.
Menina Tina como todos lhe chamavam, era linda, rebelde e romântica. No final da adolescência, apaixonou-se por um trabalhador rural, um campino. 
Porque tinha vontade própria e era indomável como os mais belos potros, recusou o casamento arranjado pelo pai, com um primo que também era rico. 
Viveu o seu romance ardente com o trabalhador rural. Ofereceu-lhe um anel de ouro com as iniciais de ambos. Ele ofereceu-lhe a ela noites inesquecíveis e amor sobre o luar da lezíria. 
O pai do Zé e da Clementina, O Senhor Carlos, fartou-se do romance. 
Pegou no filho Zé e em dois capangas lá da herdade e foram ter com o rapaz ao campo. Amarraram-no de mãos e pés, bateram-lhe. Bateram-lhe muito, mas não tiveram a decência de o matar. Emparedaram o moço vivo entre as paredes interiores de um armazém numa propriedade afastada do centro da vila. 
A Tina ficou desvairada, veio para Lisboa e por cá ficou à procura do amor desaparecido e consumido pela autoridade patriarcal. Procurou sempre e enlouqueceu à procura. 
O Zé, fez-se republicano. Tinha fama de quase democrata. Até lhe calhou a ele, porque o Eusébio do partido republicano estar afónico de tantos discursos, ser a voz que marcou o golo da declaração da republica. 
Dedicou-se à politica, e depois à diplomacia. 
A Tina acabou por morrer prematuramente. Os últimos anos de vida passou-os na mendicidade em Lisboa. O Zé não voltou a procurar a irmã nem sequer para lhe dar a parte dela da herança do pai de ambos. Construiu um palácio para viver e teve um filho pianista, que por ser homossexual se suicidou quando o pai o quis obrigar a casar. 
Quando se fizeram as obras para a construção do tribunal da vila, numa antiga propriedade da família, mais de meio século depois do assassinato, encontram o esqueleto do campino com o anel de amor e morte ainda nos ossos do que foi a mão. 
O Zé ficou na historia como um herói desta nação valente e imortal. Mesmo com as patinhas delicadas manchadas de sangue do campino que quis um dia ser seu cunhado... a memoria do Zé continua tão imaculada como a declaração da Republica que proclamou. 
Quando se escarafuncha na crosta, às vezes, por de baixo sai o pus.

A menina e as obras de regime

 Foi há oitenta anos. Tinha a minha avó doze anos. Estávamos no verão de 1940.

A menina que era a minha avó, não andava na escola. Nos últimos quatro anos da sua vida , andava à costura na casa de uma senhora que era costureira na rua Aguiar, ao lado da Vinícola do Barreiro, onde mais tarde veio a ser um prédio, onde funcionou a sede da Mocidade Portuguesa e depois do 25 de Abril a UEC e a seguir a JCP. Vivia no Alto do Seixalinho, em casa de uma irmã vinte anos mais velha, operária corticeira sem filhos. Dormia num divã, aqui no quarto onde vos escrevo. Depois do trabalho como ajudante de costureira, vinha ajudar na lida da casa. Os pais não tinham dinheiro para sustentá-la. A mãe era operária corticeira e o pai era pescador. Os irmãos, um estavam na tropa, outro era operário na cuf, as duas irmãs casadas trabalhavam como operárias corticeiras.


Aqueles anos do início da guerra, foram particularmente duros para as pessoas que viviam do seu trabalho no Barreiro. No inverno de 1939, tinha havido muitos despedimentos na fábrica da CUF, em que os operários trabalhavam precários. O rio andava fraco de peixe e os salários eram rasteiros. Era o tempo da sardinha a dividir por tres, da lamejinha roubada ao rio mexida com dois ovos para alimentar as bocas que se sentavam à mesa. As notícias da guerra chegavam alarmantes e os boatos corriam pelas ruas.


No início do ano começou-se a falar no assunto. Do Barreiro, havia alguns operários da construção civil que lá trabalhavam. Trabalhavam a mata-cavalos, sem direitos, sem as mínimas condições de segurança e debaixo de grande pressão. Construíram a Exposição do Mundo Português. Obra máxima do fascismo em Portugal. Ideia copiada da monumentais edificações de propaganda nazi que o todo poderoso secretário Antonio Ferro importará decalcando o conceito.


A exposição foi inaugurada a 23 de Junho de 1940 pelo Senhor Presidente do Conselho António de Oliveira Salazar. Também estiveram presentes a figura decorativa de estado Óscar Carmona e o idolatrado Ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco. Além destes cabrões fascistas, no dia da inauguração esteve lá a minha avó.


O nazi António Ferro organizou a mobilização de muitos milhares de crianças de Lisboa e dos subúrbios. Do Barreiro foram numa imensa excursão de crianças e adolescentes. Vestidinhos de lavado e organizados em rebanho. Quando chegaram deram-lhes uma bandeirinha portuguesa em cartão presa num pauzinho. Deviam bater palmas e abanar a bandeira. Em pagamento pelo trabalho de fazer cenário para as fotografias, tinham direito a um lanche de pão com manteiga e podiam ver a exposição. O Padrão dos Descobrimentos era a mais impactante dos objectos expostos. Agente pequenina, cá em baixo, olhava para cima e tinha de dizer haaa...


A minha avó viveu quase noventa anos impressionada com a Exposição do Mundo Português. Recordou o dia que foi à exposição até ao fim. Os jardins, os pavilhões, o padrão dos descobrimentos, as delegações das províncias ultramarinas. Sobretudo recordava a dimensão e a riqueza ostentada na propaganda do regime comparada com a pobreza e a miséria que era o dia a dia que ela conhecia.


A exposição recebeu cerca de três milhões de visitantes, dizem os números oficiais. Dizem os historiadores que constituiu a mais importante iniciativa cultural do regime. A narrativa da história para contemplação e inspiração dos presentes. O grandioso espírito português. O maior acontecimento cultural do século XX em Portugal.


Se calhar foi. Para a minha avó que lá esteve, foi muito marcante.


Os meninas e meninos do barreiro como a minha avó que foram levados em rancho para a exposição do mundo português, amadureceram depressa nos anos de guerra. A maioria destas crianças e adolescentes trabalhavam por migalhas, e era de migalhas que viviam.


Mas a vida é dinâmica e o mundo anda às voltas. Por mais grandiosa, sofisticada e promovida que fosse a propaganda fascista, abanar a bandeirinha nacional já não chegava para manter a malta satisfeita. Esse fascismo que criou a narrativa do orgulho luso e queria o povo como espectador passivo da narrativa historia que lhe contava, já não tinha pão com manteiga suficiente para matar a fome.


E a fome é do caralho!.


Três anos, depois em 1943, muitos das crianças e adolescentes que viram a exposição do mundo português com a bandeirinha na mão, estavam organizados numa greve a exigirem salários que lhes permitisse comer. Deixaram de ser espectadores e passaram a ser actores e agentes da própria história. E o mundo avançou mais um bocadinho.


Quando a fome aperta, as pessoas lutam e o mundo avança. Por mais narrativas, estátuas, monumentos e lendas de heróis que se construam para atrasar o avanço do mundo. Por mais televisões, vídeos, comentadores, opinadores, influenciadores, historiadores, apresentadores, e outros especialistas de tudo, que nos venham dizer que está tudo bem, que nos venham dizer que é mesmo assim que temos de nos aguentar...Por maior que seja o padrão edificado a glorificar um passado grandioso na mentira e a prometer o céu na terra... 

Quando não há que comer, agente tem de se fazer à vida. Isto ensinou-me a minha avó. A menina filha de pescadores que durante oitenta anos apurou o arroz de lambejinhas para acompanhar peixe frito

Catarina

 O António Gervásio tinha vinte e sete anos quando aquilo aconteceu. Estava há mais de um ano e meio clandestino. Foi no verão de 52 que foi preciso mergulhar. Deixou para trás a família, os amores de juventude e o próprio nome.

Trabalhava desde miúdo. Eram uma família numerosa nos arredores de Montemor-o-Novo e era precisa dar de comer a todas as bocas. Tinha sido preso em 47 por ser comunista. Comunista foi até ao seu ultimo dia. Ficou com a tarefa de organizar as lutas dos trabalhadores rurais no Alentejo. Conhecia bem a região, era disciplinado nos procedimentos da clandestinidade e não se queria deixar apanhar.

Na primavera de 1954 estava pelo Baixo Alentejo. Ficava numa casa nos arredores de Beja, perto da estação dos comboios e junto a uma estrada secundária onde era fácil o acesso na sua bicicleta.

Preparava-se uma jornada de luta por mais salário contra a fome e a precariedade.

O funcionário comunista, profissional da revolução, foi fazendo o seu trabalho. O Primeiro de Maio foi de luta em Beja. Nos dias a seguir, a chama da mobilização alastrou pelos arredores.

O trigo estava a crescer bem, mas as ervas daninhas regadas com as chuvas e crescidas com o sol daquele Abril, ameaçavam as espigas. Eram precisas muitas mãos para mondar. Mãos de mulheres. Eram a mão de obra mais barata e no conceito obtuso dos donos da terra, era um trabalho “leve”. Porque não implicava força física, era entregue às mulheres que trabalhavam ao dia, dizia-se à jorna... Como se andar sete, oito, ou nove horas dobrada entre as espigas do trigo a arrancar ervas à mão, fosse um tralho leve... O que é certo é que as mulheres ganhavam quinze tostões por dia, os homens ganhavam vinte e cinco. As mulheres estavam a lutar por um aumento. Queriam dois escudos por dia.

De Baleizão, chamaram-no para reunir com as mulheres. Ouvir as razões das mulheres, partilhar a sua experiência, aprender com elas e ajudar na organização. Foi para Baleizao varias vezes naqueles Maio.

A mobilização foi fácil, a organização foi mais difícil. Eram indisciplinadas. Falam todas ao mesmo tempo e sobre vários assuntos. Ao inicio havia algumas receosas, depois, umas com as outras perderam o medo e ganharam força, disciplina e coragem. Queriam dois escudos por dia. Passaram muitas horas a falar até que combinaram que não trabalhavam por menos de dezanove tostões. O funcionário clandestino, explicou que era essencial chegaram a um acordo entre elas e soldarem a aço esse acordo, depois era uma questão de negociação com o patronato.

No dia quinze de Maio, foram falar com o feitor que contratava. Iam umas seis. A Catarina, da família dos Eufémia, foi nesse grupo. A Catarina levava o miúdo de oito meses ao colo e os outros dois rapazitos atrás.

O feitor do lavrador disse logo que não ao aumento e manteve os quinze tostões por dia. Depois fez três telefonemas do telefone da herdade: telefonou aos patrões donos da terra, telefonou para a guarda em Beja e e depois telefonou para a pide a contar-lhe tudo.

As mulheres voltaram tristes mas não vieram derrotadas. Falaram entre si e decidiram continuar a luta. Falaram em greve. Reuniram com o clandestino que chegou à noite de bicicleta. Encontraram-se num ermo no meio dos montes, longe da GNR e da pide. O revolucionário explicou que era preciso terem a certeza que queriam avançar, que uma greve não se faz com indecisos. Aqui não há indecisos porra! Assim disseram elas.

O funcionário clandestino pedalou entre o contente e o apreensivo. Sabia que as mulheres quando se juntam numa vontade, fazem acontecer. Em Baleizão diz-se que a mulher quando quer faz o ninho na cabeça de um alfinete. Não era para tanto... mas sabia ia ser difícil.

Na tarde de dezassete de maio, na aldeia de Baleizão correu o boato que o Lavrador do Monte das Oliveiras ia contratar um mulheres que vinham do Ribatejo ou da Beira Baixa para mondar por quinze tostões. Vem um rancho delas para nos furar a greve, disseram na venda.

No dia dezoito não aconteceu nada. O funcionário explicou que nesta fase o importante não era hostilizar as trabalhadoras que vinham para trabalhar, mas sim falar com elas e ganha-las para a luta dos dois escudos por dia.

Na manha de dia dezanove de Maio, chegaram as fura-greves de camioneta. As mulheres decidiram ir falar com as novas. Queriam convence-las a aderir à greve. O feitor tinha pedido protecção da guarda para as fura-greves. As grevistas foram em grupo, uma dúzia delas. Vieram a pé de Baleizão, ai a uns dois quilómetros até ao monte. A Catarina, vinha à frente com o bebé de oito meses ao colo.

A cortar-lhes o caminho, a guarda.

O tenente falou para as ceifeiras:

– O que é que vocês querem daqui?

Foi a Catarina que lhe respondeu:

– Queremos pão para os nossos filhos.

– Não quero aqui politica, tá a dispersar!

As mulheres não dispersaram. Mantiveram-se unidas. Queremos pão gritaram.

O tenente, assustou-se com a força e a coragem daquelas mulheres.

Pálido, ameaçou:

– Vão-se embora ou eu mando disparar!

As mulheres mantiveram-se firmes e gritaram palavras de luta.
O militar da guarda que comandava, teve ainda mais medo.
Tinha medo dos lavradores que o ameaçavam com um desterro longínquo se não resolvesse imediatamente a situação. Tinha medo da pide que lhe dizia que ele tinha de mostrar força com os comunistas. Tinha medo que os seus homens o achassem um merdas porque não conseguia por na ordem meia dúzia de mulheres. Tinha medo dos comunistas que lá da Rússia mandavam agentes disfarçados de ceifeiras. Tinha medo das ceifeiras que não tinham medo dele. Tinha muito medo das mulheres sem medo. E naquele momento o seu maior medo era o medo de não ser capaz de dominar o seu medo.
Na mão a pistola-metralhadora a dar-lhe o estatuto de oficial da Guarda. Na boca a secura e no ânus o aperto do medo. O medo a invadir-lhe a digestão. O medo a revolver-lhe o estômago e as tripas.

Atrás o feitor. `À frente as ceifeiras. À volta os seus homens armados e a seara. A convulsão do medo exigia uma saída. Ou vomitava na biqueira das botas dos seus subordinados, ou defecava na farda de tenente.

Os dedos apertaram o gatilho. A arma disparou-se. O medo fê-lo esquecer-se de tudo menos de como se mata.

Disparou à queima roupa.

Caiu a moça da frente que lhe tinha virado as costas para dizer algo às companheiras. A que tinha uma criança ao colo. Magra mas bonita. Vinte e poucos anos. Caiu ela e o miúdo. Magoou-se a criança. Assassinou-se a mãe.

O choro e os gritos acalmaram o medo ao tenente da guarda. O cheiro a pólvora e a sangue devolveram-lhe a compostura marcial de pilar do regime.

Veio uma ambulância buscar o corpo  e o bebé ferido.

As outras ceifeiras gritavam.

Vieram mais guardas.

Nesse dia não se trabalhou.

O relatório da autopsia descreve o cadáver da mulher de vinte e seis anos, de estatura mediana (1,65 m), de cor branco-marmóreo, de cabelos pretos, olhos castanhos, de sistema muscular pouco desenvolvido. Mais à frente, na frieza dos dados clínicos, o mesmo relatório tem impresso que a vitima foi atingida por "três balas, à queima-roupa, pelas costas, actuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostada ao corpo da vítima deixou um rasto de queimadura. O agressor deveria estar atrás e à esquerda em relação à vítima".

O funcionário clandestino, chorou de raiva enquanto pedalava. Abalado, fez da emoção coragem e organizou um funeral digno da dimensão da tragédia.

O tenente da gnr, foi transferido de Beja para Aljustrel. Na lógica do regime, uma mão firme como a do tenente era o ideal para lidar com os mineiros. Numa farsa de julgamento foi absolvido o o tenente que matou por medo. Morreu em 1964.

A Catarina Eufémia foi sepultada em Baleizão há sessenta e seis anos e nunca morreu.


Pink Floyd em Vila Perry

A menina tinha quinze anos. Era um domingo à tarde e a menina tinha ficado em casa para ouvir o Dark Side of The Moon dos PinkFloyd.  

Estava sozinha porque o resto da família tinha ido ver o jogo do Textafrica, a equipa local do Chimoio, a cidade onde vivia. Ao domingo à tarde o Chimoio pàra por causa da bola. Cidade que  é capital da província de Manica, está a mil e cem quilómetros a norte de Maputo que naquela altura ainda muitos chamavam Lourenço Marques.

A Textafrica alem da equipa de futebol também era uma imensa fabrica têxtil com milhares de trabalhadores. O maior empregador local e regional. A fabrica naquele conturbado ano de 1975 continuava a produzir. Contra a sabotagem de alguns, as previsões de muitos, e o desejo de uns quantos, continuava a trabalhar e produzir tecidos. 

Os donos da fábrica fugiram para a Africa do Sul e outros para a Rodésia. Mal se soube do 25 de Abril em Vila Perri, que era assim que os colonos chamavam ao Chimoio, os agentes da pide que eram quem administrava a cidade, meteram-se em dois carros arrancaram para o sul e nunca mais ninguém os viu. Os colonos donos de negócios mais pequenos que a fábica, ficaram preocupados com a fuga dos pides. Agora quem é que ia prender os terroristas moçambicanos capazes até de pedirem aumento e fazerem greve?!?! Deixaram a politica para os políticos, armaram os capatazes, os comerciantes brancos e meia dúzia de indianos de confiança.  

Reuniram-se colonos, latifundiários, patrões, capatazes, comerciantes locais e alguns quadros técnicos. Convenceram-se ou foram convencidos, que haviam de ficar e fazer como na Rodésia, ou como na Africa do Sul. Uma independência Branca explicavam uns aos outros para se motivarem e treinaram a argumentação. 

Bebiam whiskies, contavam anedotas racistas, mandavam dinheiro, joias, as mulheres e as filhas para Portugal e ficavam a exibir armas, carros e amantes pelas ruas largas e poeirentas do Chimoio. Falavam de economia e desenvolvimento e diziam que sem eles e sem o seu superior conhecimento da manha do indígena, Moçambique era ingovernável.

A menina de quinze anos, sabia pouco de governabilidade. Tinha roubado um SG Gigante  do maço do pai para fumar a ouvir o disco dos Pink Floyd. Pôs o  vinil a rodar 33 voltinhas por minuto, aumentou o som, acendeu o gigante e esperou. 

A canção "money", tal como todos sabemos (e quem não sabe devia saber), começa com ruido de moedas a cai. Depois é que entra o barulho de maquinas registadoras. E só a seguir é que se ouvem as guitarras e a bateria. 

Naquela tarde, a menina aproveitava estar sozinha para ouvir o disco bem alto. Mais alto do que lhe era habitualmente permitido ouvir discos. Com o som do gira-discos no máximo  o sg gigante aceso entre os dedos. Nos pés as socas de tacão que estavam na moda. Os ouvidos de adolescente apuradíssimos para aquela musica que lhe lhe tinham dito que era tão diferente e dissonante de tudo o que conhecia.

Na confusão de sons da musica parece-lhe ouvir disparos. Pensou que estes Pink Floyd eram mesmo uns malucos do caraças. 

Só quando viu o estuque a saltar na parede da sala e aparecerem tricotados os buracos das balas é que a menina percebe que a casa está a ser atacada. 

Esconde-se na casa de banho que é a divisão mais interior. Deita-se na banheira e tapa a cabeça com a cortina. Não lhe perguntem porquê. É nessa posição que pode parecer ridicula que espera. Espera não sabe se pela morte. Ou pior. O que pode ser pior que a morte aos quinze anos? Espera. Os disparos acabaram antes do disco. Os Pink Floy continuaram naquela musica maluca e tremendamente alta. Depois o gira-disco calou-se. Mas a menina continua à espera. Lá fora os pássaros voltaram a cantar as suas canções nas arvores do jardim. E menina sempre à espera. Esperou muito tempo. Ou então, se calhar nem tanto tempo quanto isso. Mas para a menina foram anos. Envelheceu anos naquela banheira sem água à espera.

Quando a porta da casa de banho se abriu entraram três homens. Dois homens negros e um homem branco. Um negro jovem, fardado com uma kalashnikov em riste. Um negro de trinta e tal anos, bigode e fato de treino que era o Mário Culuna, o treinador do Textafrica. E um branco de meia idade de pistola na mão, barbudo, com uma camisa de manga curta azul clara vestida.

O branco era o pai da menina e foi apenas nesse momento, após a longa espera que a menina se deu ao luxo de se abraçar ao pai a chorar e a gritar o seu medo.

O pai da menina, alem de branco e amigo do Coluna era um quadro técnico e comunista. Assim que foram avisados de tiros vieram a correr. Voaram diria mais tarde o Coluna. 

Veio a Frelimo em peso proteger a casa daquele homem branco da raiva dos outros homens brancos.

O pai da menina tinha afrontado os senhores locais. Primeiro porque falava na necessidade de sindicatos aos trabalhadores da fabrica. Depois porque andava com militares negros da Frelimo no automóvel, militares esses que lhe chamavam camarada. Também, porque fazia questão e exibia a todos que tratava as pessoas negras por senhor e senhora -- pura provocação. E suprema ofensa, no jardim do bairro de vivendas onde se instalara tinha uma mesa comprida onde era frequente ser visto a comer e a beber sentado à mesa com pessoas que eram trabalhadores da fábrica.  Trabalhadores pretos! sentados à mesa do jardim da vivenda a comerem e a beberem como qualquer branco!

Antes daquele domingo em que a menina pôs os Pink Flod a tocar, já tinham feito alguns avisos e ameaças ao seu pai. 

Um vizinho boçal, disse-lhe um dia à queima roupa, quando o encontrou à porta de casa: mas você acha que é preto??!!! 

Outra vez furaram-lhe os pneus ao ford.

Era frequente, deixarem-lhe bilhetes com ameaças.

Para o pai da menina, era apenas a luta de classes a acontecer.

A revolução estava a acontecer em Portugal. A independência estava a ser parida ali e naquele momento. Conhecera quase todas as prisões salazarentas onde o tentaram fazer desistir de concertar a injustiça do mundo. Sabia de cor o alfabeto fascista da intimidação. Não era, nem nunca foi homem de desistir.

Naquele domingo à tarde, durante o jogo do Textafrica tentaram outra vez na forma daquele ataque.

O Samora Machel, amigo do pai da menina, três ou quatro dias depois, quando se encontraram na Beira,  perguntou-lhe se estava bem e se precisava de alguma coisa. Disse que não.

-- Ninguém ficou ferido. Ninguém morreu. E se os gajos estão danados alguma coisa havemos de estar a fazer bem feito! Não nos vamos deixar intimidar por estes brancos da merda.

O Presidente da Republica de Moçambique, no discurso dessa noite, falou nos "brancos da merda" que tentavam sabotar o futuro do país. 

Algum jornalista idiota ou mal intencionado fez da frase notícia.

Aqui em Portugal falaram na frase do Samora mas ninguém falou no ataque.

No Chimoio a casa ficou bastante danificada. As marcas das balas permaneceram durante muitos anos nas paredes. Na menina de quinze anos também. Dias dos depois dos tiros, pediu ao pai para voltar para Portugal. O comunista fez a vontade à filha como sempre gostou de fazer.

Passou algum tempo desde que foi feito o Dark Side of the Moon mas para a menina que já tem sessenta anos os Pink Floyd soarão sempre a Africa.

Os brancos da merda de que o Samora falava, continuam por aí a achar que são eles na sua superioridade de alvas criaturas quem sabe o que é melhor para Moçambique. 

E no Chimoio ao domingo à tarde a cidade continua a parar por causa do futebol.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Minas de ouro no quintal


Viveu os primeiros anos de infância uma barraca emprestada à mãe, no fundo do quintal nas traseiras de um bar que atendia camionistas. 

Quando tinha 8 anos, foi violada.  O violador, que também era namorado da mãe, exigiu o silêncio de Marguerite. Avisou-a: se falares mato-te a ti e mato a tua mãe. A menina ficou calada. Muda durante sete anos. 

Nos subúrbios de St Louis no Missouri nos anos trinta do século XX uma menina negra e muda não tinha grandes prespectivas. Com a ajuda de um a vizinha, aprendeu a ler. Como não estava disponível para conversas leu durante sete anos.

Depois voltou a falar. E falava muito e bonito. De uma eloquência que todos paravam agora a ouvir. Foi para São Francisco.

Ainda aos quinze anos tirou a carta de condução e tornou-se motorista de autocarros. Aos dezassete foi mãe.

Bonita e grande enchia com a sua graça, inteligência e exuberância os lugares onde estava. 

De São Francisco foi para Hollywood, onde ganhou a vida como actriz e bailarina. No final da segunda guerra Mundial assumiu o nome de Maya Angelou. Deu o calipso a conhecer aos americanos e começou a escrever para teatro e depois cinema. Correu os estados unidos de norte a sul com a sua companhia de teatro de variedades. 

A viu e viveu tantas e repetidas vezes situações de injustiças, de racismo e de segregação que acabou por se envolver na luta pelos direitos civis nos estados unidos. Conheceu Luther King, conviveu e foi amiga de Malcom X. 

Farta de ver a história parada, no final dos anos sessenta, foi para África ver a história acontecer. Primeiro  Acra no Gana onde foi jornalista e escritora  depois para o Egito de Nasser. Com amigos e camaradas sul-africanos, envolve-se no movimento de combate ao apartheid. 

Em 1970 pública o primeiro livro de poesia.

Desde aí nunca mais parou de escrever. Teatro, ensaio, poesia, contos.

Cantou e disse poesia em tomadas de posse de presidentes com o mesmo amor com que o fazia em associações de apoio a sem-abrigos.

Morreu em 2014.

Viveu, publicou livros e ensinou até aos 86 anos.

Escreveu isto:

" A minha altivez ofende-te?

Não leves isso tão a mal,
Porque eu rio como se eu tivesse
Minas de ouro no meu quintal."

E tinha. Tinha. Mas é que tinha mesmo.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Luzia Pinta de Angola a Castro Marim


Arrancaram-lhe a roupa e deixaram exposto o nu o seu corpo na maturidade dos quarenta e seis anos. O chão de Lisboa estava frio naquela manhã de dezembro. Mas a Luzia não sentia frio. O medo tomou-lhe conta de todos os sentidos. Não conseguia sentir outra coisa alem do terror. 
À volta, tres padres e dois carcereiros. Os eclesiasticos de batina preta e os carcereiros vestidos de linho e flanela a cheirarem a cebola e a vinho. Atiraram-na para cima de uma especie de torno de madeira onde a ataram com as mãos e os pés presos atrás das costas e a madeira encostada ao corpo. 
Os carcereiros rodaram um mecanismo que esticou as cordas. A Luzia sentiu a madeira a entrar-lhe nas costas enquando as articulações dos braços, ombros, ancas joelhos e pés cediam. Os intestinos e a bexiga esvaziaram-se instantaneamente. A boca abriu-se num hurro de dor que se ouviu la em baixo junto ao Tejo.
O mais velho dos padres com a mão direita interrompeu o trabalho dos carcereiros e perguntou à Luzia se queria confessar. 
Ele queria.
Confessou tudo o que o padre quis que ela confessasse. A tortura durou sete dias. 
Os padres saiam para comer e descansar. Os carcereiros tambem iam rodando. Apenas Luzia Pinta ficou por ali. As vezes atiravam-lhe agua para cima que ela bebia.
Enquanto durou a tortura a Luzia confessou.
Confessou celebrava rituais e evocava espiritos cantando, dançando, comendo e bebendo confessou e que chamava a estas festas calundus. 
Confessou que era bruxa, que curava com ervas, que via o futuro nos buzios. Confessou que evocava espiritos da natureza e evocava os antepassados. Que possuida pelos espiritos que evocava dava conselhos e consultas. 
Confessou que vinha gente de toda a provincia de minas gerais para vê-la e que lhe pagavam pelas consultas e trabalhos de magia que fazia.
Confessou que foi amante do seu dono, aquele, o Pinto Portugues que a comprou novinha com doze anos  ainda e virgem. Confessou que foi violada pelo Pinto até este adoecer e morrer de mal desconhecido. Confessou que foi ela que provocou a doença e pediu aos espiritos a morte do homem. Confessou que não aguentava mais a carne do Pinto Portugues na sua carne. Confessou que foi amante dos dois filhos do Pinto. Os donos que a herdaram. Confessou que por artes màgicas os encantou aos dois. Confessou que foi através da magia que lhe deram a liberdade antes de casarem com duas irmãs ricas. Confessou que foram eles que lhe deram o nome de Luzia Pinta.
Confessou que vivia livre desde os vinte e seis anos numa casinha que os irmãos Pinto fizeram para ela. Confessou que morava encostada à capela de Nossa Senhora da Soledade, afastada do centro da freguesia da Igreja Grande na Vila de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, em Minas Gerais, bispado do Rio de Janeiro, Brasil.
Confessou que cultuava os Espiritos da Natureza, desde que se lembra. Confessou que aprendeu com uma avó velha là nas Lundas em Angola, onde nasceu e de onde a raptaram para a escravizar. 
Confessou que vivia amantizada com um negro fugido. Confessou que o negro era quem tocava tambor nos rituais de suprestiçao e feitiçaria que fazia. Confessou que só dormia com o tal negro quando a ela lhe apetecia e ele tinha vontade.

Confessou tudo isto.

E teria confessado mais, se o inquisidor quisesse fazer mais perguntas.
Como era preta e não judia. Como nunca tinha sido batizada em cristo. Como a suprestição que fez foi causada pela ignorancia e não cuspiu na cruz nem na hostia.
E como se estava a aproximar o Natal.
O inquisidor, na sua infinita misericordia,  ao fim de uma semana de tortura, que acabou a 24 de Dezembro de 1742, decidiu mandar recolher a bruxa angolana aos calabouços da inquisição porque a investigaçao estava acabada.
A Luzia Pinta esperou na prisão da inquisiçao de Lisboa um ano e meio até ao auto-de fé que determinou a sentença.
Na torre do tombo está ainda o papel da sentença: Culpada de abjuração de leve, condenada a quatro anos de degredo em Castro Marim, não entrar mais em Sabará.
E pronto. Luzia Pinta. Mãe de Santo, curandeira, amante e sentenciada pela inquisição. De Angola até Castro Marim por onde se perdeu o rasto da Luzia e onde eventualmente os seus ossos repousarão anónimos à espera de justiça.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Ana Loura – O Corno da Vaca

 


Na segunda metade do século XIX, na em plena zona de Saloia, na aldeia do Casal das Neves, na extrema do concelho de Vila Franca de Xira, já próximo da Vila de Arruda dos Vinhos, viveu e trabalhou a Ana Loura.

A Ana, apesar de ser Loura de nome, era morena de pele e generosa nas formas. Teve vinte e uma vezes grávida, pariu dezanove crianças das quais dezasseis chegaram à idade adulta.
Sabemos dela através do que o Dr Tito deixou escrito. O Tito que além de ser médico era um homem de cultura e saber, dedicava-se à antropologia. Antes de ser delegado de saúde em Arruda dos Vinhos, foi médico em Alcoutim no início dos anos 80 do século XIX. Tinha um nome pomposo: Tito Bourbon e Noronha mas era um homem simples. Exerceu a profissão de médico durante mais de cinquenta anos, aposentou-se por limite de idade nos anos trinta do século XX. Escritor compulsivo, guardou em diários o registo do seu trabalho. Ajudou em 301 partos, tratou 1012 cabeças partidas, mais de quinhentas por agressão, algumas com fracturas de crânio. Um número interminável de maleitas várias. Recebeu da Direcção-Geral de Saúde um atestado de louvor. Percorria as serras a cavalo, por montes e serras, sempre diligente. São inúmeros os registos de situações em que abandonou as refeições, as festas, serões nas colectividades ou as touradas a que assistia para ir atender doentes. Muitas vezes gente humilde que não tinha com que lhe pagar. 
Morreu em Lisboa em 1946 com quase noventa anos e foi sepultado no cemitério de Arruda.

Foi o Dr Tito quem nos deixou nos seus diários, o registo da vida da Ana Loura. Terá sido ainda no final do século XIX que se conheceram. O Dr. Tito ajudou a Ana a parir o seu décimo sexto filho --  uma menina. Um parto complicado. Foi a própria Ana quem mandou chamar o médico que a ferros lhe tirou a criança e lhe salvou a vida. A Ana agradecida partilhou com o médico os segredos da sua profissão, que a bem ver era a mesma que a do Tito. Também a Ana, curava e ajudava pessoas em situações de aperto. A Ana Loura foi bruxa. Bruxa como a sua mãe e bruxa como o viriam a ser as suas filhas e netas.

Entre o médico e a bruxa durou uma improvável amizade de várias decadas, baseada na partilha de conhecimentos. O Tito ia ter com a Ana e apontava o que ela dizia nos caderninhos dele. A Ana, por seu lado, aprendia com o Tito procedimentos terapêuticos que não necessitavam de rezas nem de esconjuras, mas que de qualquer forma ela própria acrescentava para os tornar mais eficazes.

Antes de ser chamado ao parto da Ana, o Tito já tinha ouvido falar na Bruxa. Era a Ana Loura a sua principal concorrente. Várias vezes se surpreendeu com curas e reclamações entre os seus doentes que não tomavam a medicação prescrita que por falta de dinheiro ou sovinice, preferiam os tratamentos da bruxa Ana. 

A Ana também já tinha ouvido falar no Dr. Tito e mesmo sem o conhecer já o admirava pela fama de gente boa que ele deixava entre os pobres daqueles desolados campos.

Nos jornais locais e nos círculos intelectuais de Vila Franca a Lisboa, a quem o quisesse ouvir, o Dr. Tito falava e escrevia sobre a Bruxa da Arruda elogiosas palavras caras, palavras de médico letrado. O médico aumentava a fama da bruxa entre os letrados, a bruxa louvava o médico entre os humildes.

A Bruxa Ana, também agradecia a publicidade ao médico com aprovadíssimos coelhos bravos cozinhados em ervas e vinhos que o seu homem apanhava em armadilhas de laço. O Tito assistiu assim ao crescimento da família e à formação das quatro filhas que se tornaram também elas bruxas.

Em 1906, o moderníssimo Diário de Notícias, publica uma reportagem sobre a Bruxa da Arruda. O repórter vai a arruda dos vinhos em registo de aventura como uma expedição a um local remoto e atrasado que era de facto.

A peça jornalística, é tendenciosa e venenosa. Pinta curandeira Ana Loura como uma mulher rude e rica que vive de enganar as pessoas.

A realidade era diferente. Em 1906, dos dezasseis filhos criados todos trabalhavam. O Marido da Ana era agricultor no minifúndio, e trabalhava do nascer do sol até à noite cerrada. A Ana que nessa altura teria os seus quarenta e oito, além de cuidar da numerosa família, trabalhava na quinta, tratava das ovelhas e duas vezes por semana ia vender os queijos que fazia ao mercado...E claro, a sua condição de bruxa impunha que atendesse quem a procurava e aos dias em que atendia, ia bastante gente.

Mas o DN mandou um repórter temido pelo veneno com que escrevia. Um tipo relativamente novo, mas que tinha tanto de ambicioso como de repelente.

O tal jornalista, terá usado o nome do Dr Tito para ser recebido pela Ana. Mas quando passou pela Arruda nem sequer foi cumprimentar o médico. Foi direto à casa onde lhe disseram que vivia a bruxa.

A humilde sala, cheia de gente à espera para ser atendida...e aquele pedante de Lisboa a chegar cagando superioridade na pose, no olhar e no andar.

A Ana Loura percebeu que o Dr. Tito não tinha culpa...

A vedeta da caneta, sem sequer se apresentar, nem perguntar pela saúde à mulher que parou de trabalhar para o receber, ainda à frente de toda a gente, perguntou à queima-roupa:

-- Então Senhora Ana, corre-lhe bem o negócio da bruxaria?

Todos calaram para ouvir a resposta.

– Mas cais negócio!? Aqui não se faz negócio, aqui cura-se gentes e adivinham-se coisas. Negócio fez vossa mercê ao querer casar-se com a filha do seu patrão! Mas correu-lhe mal... agora anda zangado com o mundo porque se lhe meteu essa ideia que ela lhe anda por os cornos com outro. Desengane-se homem! Vossa mercê se está engano! Ela não tem outro. Do que a sua esposa gosta é de moças magras como ela! Você ser corno é só corno de vaca! 

O jornalista não precisou de mais para fazer o seu trabalho.

A reportagem saiu a 29 de Novembro de 1906. Dizia que a Bruxa da Arruda tinha uma fortuna avaliada em mais de vinte contos. Não falou no Dr Tito nem no seu corno da vaca. 

É normal, quando conhecemos uma realidade que vemos retratada no jornal, percebemos sempre que o essencial fugiu à letra de imprensa.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Lilith, a Livre


Diz a bíblia que vosso deus quando criou Adão, fez do mesmo barro a primeira mulher e chamo-lhe Lilith. Que na língua suméria significa “hálito”. "Sopro divino", se quiserem um registo mais bíblico.

Quando o Primeiro casal criado fazia o segundo amor, à Lilith, apeteceu-lhe mudar de posição. Propôs ao Adão que desta vez, não lhe calhasse a ela ficar outra vez por baixo e sujar as costas e o rabo com o musgo que alcatifava o paraíso. Que desta vez pudesse ficar por cima e assim desfrutar de mais prazer do amor, que da ultima vez tinha ficado quase, quase la, mas as raízes da macieira nos rins começaram a incomodar e não tinha conseguido chegar.
O Adão, inseguro naquele primeiro relacionamento, ficou calado e em vez de fazer a vontade à Lilith, foi aconselhar-se com deus, que pode saber muito de criações do mundo em seis dias, mas de mulheres não percebe nada.
A Lilith, claro que não gostou que o companheiro fosse fazer queixinhas ao criador, pegou na trouxa e fez-se à vida. Adão, que não aprendia, em vez de aproveitar o bom tempo e seguir viagem com a Lilith, voltou a ir ter com deus para lhe contar do sucedido. Deus que naquele dia não estava para se chatear, mandou três anjos à procura rebelde Lilith. Pediu aos três anjos para trazerem Lilith para o marido e para apertarem com ela a avisarem, a ver se se deixava de invenções.
Acontece que a primeira mulher estava no bem bom a curtir uns banhos de sol naturistas e umas ondas mornas do Mar Vermelho.
Quando os anjos vieram com aquela conversa da tanga, de voltar para o marido, de dar outra oportunidade e de nhamnhamnham... Tá claro, que a Lilith mandou os anjinhos de volta pelo caminho por onde chegaram. Deus ficou um bocado lixado com a atitude da Lilith e dizem foi por isso que a amaldiçoou.
A moça amaldiçoada mas solteira, ficou pela primeira vez livre e por isso feliz, na sua indisciplinada rebeldia. Passou a deitar-se com quem queria e como queria.
Com todos menos com ele. Definitivamente, não voltou a deitar-se com o Adão que teve se desfazer de uma costela para pagar por uma companhia. E mesmo esse amor comprado, no que tocava a inovação, todos conhecemos a Eva, boa moça mas cheia de pudores com parras e limitadinha, em termos de perversões de cama o mais longe que foi, foram umas brincadeirinhas quase inocentes com dentadinhas numa maçã e nem sequer era a maçã de Adão.
A primeira mulher criada, essa deu-se bem! Saída do Éden e com entrada direta na lista das malditas, a Lilith dedica-se ainda hoje e até à eternidade, a apanhar sol na pele nua e a perverter os humanos em sonhos eróticos. Sem regras nem posições proibidas.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Luz del Fuego


Em Itapemirim as casas antigas foram construídas com as pedras do lastro dos navios. Os barcos primeiro vieram carregados com pessoas escravizadas, depois partiram carregados de cana de açúcar, e mais tarde de café. Pelo meio trouxeram pedras nos porões para equilibrar nas manoras. Foi em Itapemirim que os escravocratas se revoltaram contra a lei que abulia a escravatura. E foi em Itapemirim que os escravizados ainda que ilegalmente tiveram que se revoltar contra a sua condição e mais uma vez foram esmagados com um banho de sangue e lama, em que soldados e fazendeiros organizaram caça aos trabalhadores que se recusavam a serem tratados como escravos... caçadas essas que terminavam invariavelmente em execução após tortura. Aconteceu massivamente.

Quase até ao limiar do seculo XX. Depois não. Depois tudo foi diferente. 

Ou não tanto.

As estrelas, os deuses e as marés alinharam-se para que na segunda feira de carnaval do ano mágico de 1917 nascesse a Dora Vivacqua. Assim foi!

Nasceu a menina, no Ano da Serpente, no penúltimo dia do Aquário e naquela segunda-feira que sendo segunda mais parece todo um fim de semana. Precisamente nesse dia . Nasceu menina de gente importante lá na terra. Foi a decima quinta filha de um rico proprietário rural, neta de ricos proprietários rurais e irmã de destacados advogados e políticos locais, estaduais e federais. Apesar de toda esta carga genética para ser mais uma menina de elite que se tornaria numa esposa da alta burguesia e mãe de gente importante... a Dora cortou as voltas ao destino e desde muito pequena que decidiu ser quem ela era e não quem os outros queriam que ela fosse.

Na infância era conhecida por rebelde. Os irmãos e irmãs mais velhos achavam piadinha à menina refilona. Depois na adolescência, no inicio dos anos trinta, as irmãs e os irmãos foram deixando de achar tanta piada, à menina mais nova da família, quando provocava ostensivamente e afastava com a sua ousadia rapazes que seriam potenciais noivos.

Aos pais e irmãos, esclareceu que não se queria casar. Foi estudar dança para o rio de Janeiro. Estudou e aprendeu a dançar. Não pediu autorização a ninguém e apresentou-se publicamente como bailarina. A família, alertada por cartas dos pequenos escândalos que aquele furacao Dora ia causando, ameaçou tirar-lhe a mesada. A Dora, mandou-os meter a mesada onde o sol não brilha e começou a aturar dançando quase nua, triplicando assim o seu salário.

A família católica e conservadora elaborou um plano que termina num internamento psiquiatrico. A reclusão dura poucos meses. A Dora não sofria de nenhuma doença. A Dora queria e era apenas ela mesmo.

Quando a Dora saiu, saiu mais confiante em si mesma e nas suas verdades.

Criou um espetáculo para si mesma, coreografando a sua própria dança. Apresentava-se dançando com adereços exóticos e com as suas duas pitons, que eram simultaneamente os seus animais de estimação, as suas parceiras no palco e quase sempre as únicas peças de roupa que vestia.

Em 1944, em plena segunda guerra mundial, apresentou-se no no Circo Pavilhão Azul. Apareceu nua em palco. Cumpriu prisão e pagou multa por atentado ao pudor. Escreveram-se rios de tinta e o escândalo apareceu em todos os jornais. O espetáculo fez um enorme sucesso. Ninguém ficou indiferente. Muito menos os familiares ricos, nomeadamente os seus catorze irmãos.

Por estes anos os seus amigos, companheiros e parceiros de trabalho e cama eram pessoas do circo.

Terá sido o palhaço Cascud o de quem foi íntima que lhe sugeriu o nome artístico Luz del Fuego.Luz del Fuego era tambem o nome de um baton argentino que todas as mulheres brasileiras queriam ter... e que todos os homens queriam beijar... O nome pegou bem. Pegou fogo.

A família possessa fazia tudo para lhe cortar a ousadia e a liberdade de ser quem queria ser. Mas aquela pobre menina rica, nem mesmo mudando de nome conseguia fugir à maldição do conservadorismo das elites sul-americanas. Prepararam-lhe  outra armadilha. Numa tentativa de reconciliação familiar, a que a Dora ingenuamente vai, reage com violência as provocações de um dos irmãos e atira-lhe com um cinzeiro à cabeça. O medico psiquiatra pago pelos irmãos já está a postos na sala ao lado e todos testemunham que a Dora se tornou violenta e furiosa. Mais uns meses de internamento, mais tratamentos compulsivos de comprimidos e terapias que não precisa. Debilitada fisicamente, mas completamente dona de si, acaba por sair.

Em 1947, escreveu um romance autobiográfico “Trágico Black-Out”. Assina como Luz del Fuego e critica a hipocrisia dos casamentos convencionais, o machismo e a arrongancia publica e impotencia privada. Fala abertamente de sexualidade e detalhamento de alguma práticas. Dá uma visão feminina e feminista. Um dos irmãos, o Senador Atílio Vivacqua, tentou comprar todos os exemplares editados do livro para poder queimar aquelas paginas que faziam arder o que ele acreditava ser o seu bom-nome.

Gostou tanto de escrever como de dançar. E uma vez que o seu primeiro livro foi aquele sucesso que esgotou todas e quaisquer edições, no ano seguinte, em 1949, publicou seu segundo romance, “A verdade nua”. Mais escândalos e mais sucesso. É nesta altura, no inicio nos anos cinquenta que começa a defender o naturismo.

Nos anos cinquenta é uma revolucionaria dos costumes mantendo as ligações às elites. Defende o direito ao divorcio, o direito ao amor livre, o direito ao naturismo. Luta contra o conservadorismo idiota e hipócrita de um brasil economicamente modernizado e culturalmente subdesenvolvido.

Mulher de grande inteligência e cultura mantinha as relações necessárias com o poder instituído naquela democracia do mais ou menos faz de conta. Tera começado por ameaçar criar um partido politico que defendia o naturismo e o amor livre... Os jornais dão-lhe visibilidade. Percebe que causa medo na classe politica. Vai falar pessoalmente com o Ministro da Guerra, um conhecido seu que lhe devia favores e informa-o da sua intenção de entrar na politica. Quando a conversa acaba, a Marinha do Brasil tinha cedida à Luz del Fuego uma ilha onde a artista faria as suas experiencias artísticas e sociais e em compensação a Luz del Fuego não ia entrar na politica, nem criar partidos nem falar com oposicionistas.

A Dora, no seu jeito frontal e desbocado, conseguiu a concessão da ilha Tapuama de Dentro, localizada próxima de Paquetá, na baía de Guanabara. O lugar, rebatizado como Ilha do Sol. Fez o primeiro clube naturista da América Latina. Em 1960, na ilha da Luz del Fuego, algumas das estrelas de Hollywood passeavam nuas enquanto bebiam agua de coco. Entre as estrelas, a mais bela das estrelas nuas, a própria Dora.

Só que os anos sessenta no Brasil acabaram em 1964.  A chegada ao poder dos militares e a criação da ditadura apodreceu o brasil por dentro.  O Clube de Dora foi encerrado. Da ilha paradisíaca fizeram-lhe uma prisão domiciliaria, onde a Dora podia andar sem roupas, podia estar, mas não podia sair. Foram anos tristes para a Dora. Num relatório da policia politica diz que “ela vive sem roupa e pernoite e fornica com o seu caseiro mestiço”. Assim descrevem e pensam os militares que raptaram a liberdade.

Mas a Luz del Fuego pelo simples facto de existir, continuava a incomodar muito as elites brancas e conservadores. 

No dia 19 de no dia 19 de julho de 1967 a Dora Vivacqua e seu caseiro foram assassinados. Morta com golpes de remo, seu corpo foi esfaqueado, amarrado a pedras e atirado ao mar. A ditadura prende e condena dois pescadores pelos horrendos crimes. Os jornais continuam a faturar a sua conta. 

Naturalmente que os militares no governo, tiveram mão de aço a punir os pescadores. Encontraram um culpado mestiço e pobre que foi fácil de condenar, uma vez que não podiam julgar-se nem a eles mesmo, nem condenar toda uma classe de idiotas e hipócritas conservadores que publicamente criticavam e em privado desejavam o fogo daquele mulher de Luz.


sábado, 14 de novembro de 2020

Santa Jandira do Meretrício da Saudade


Campinas foi um povoado que nasceu na beira da estrada e cresceu com o café. Da segunda metade do século XIX até depois da primeira guerra mundial, viveu-se a loucura e a bebedeira do dinheiro que chegava do café. Mas por cada agricultor que se tornou rico a produção de café, contam-se os muitos que morreram na miséria a tentar que isso acontecesse!

Com a grande crise do capitalismo de 1929, os preços do café caíram. Dois ou três maus anos agrícolas com a geada a desfolhar as plantas fez baixar a produção. Os agricultores que investiram tudo o que tinham a plantar e a fazer contas com o que se ganhava nos tempos da guerra, viram-se confrontados com a dura realidade de terem  todos os credores do mundo e meia dúzia de mirrados grãos de café de baixa qualidade e desvalorizado na mão. Mas são assim os negócios...

Uns anos antes antes da grande crise, no dia 8 de maio de 1911, numa família de agricultores com vocação para serem ricos, mas sem o dinheiro necessário para que isso acontecesse, nasceu Maria Jandira. Maria que é nome de santa, Jandira, porque a mãe gostava. Tinha um outro sobrenome diferente do “dos Santos” com que o povo a batizou.

Jandira cresceu naquele ambiente pequeno burguês de provincia onde a hipocrisia dos católicos e o moralismo dos protestantes dão as mãos para estrangular todo e qualquer resquício de liberdade e espontaneidade. Cresceu como menina de boas famílias e foi educada para um dia vir a ser uma senhora casada. Mas a crise cortou-se as voltas. Aos dezoito anos, a família da Jandira estava na miséria e o casamento esperado desvalorizou-se como os grãos de café que o pai tinha para vender e não vendeu.

As dívidas contraídas pela família a crescerem e a necessidade de trabalhar empurrava todos os que viviam naquela casa para a rua. Na mercearia a conta crescia e o merceeiro veio falar com o pai da Jandira. A rapariga enquanto o pai falava com o portugues, fez contas à vida: casar com o merceeiro transmontano a cheirar a suor e a cebola, vinte anos mais velho ou fugir para ir ter com o Carlinhos que era um moço lindo de fama feia, mas de boas famílias. O moço era um bocadinho estroina, mas lindo e já lhe tinha jurado eterno amor... A Jandira não hesitou, abriu a janela e voou.

Não voou muito, afinal de contas morava no rés do chão. Bateu as asas até à casa do namorado e do bairro de casas abastadas no subúrbio onde ainda vivia o Carlinhos até a Rua Visconde de Rio Branco, é um passeio que se faz bem numa noite quente. O rapaz não podia deitar a Jandira na casa da família... e por isso levou-a para a pensão que conhecia, ali entre os bairros de Botafogo e Conceição, no centro de Campinas.

Depois de fazerem o amor que precisavam ambos de fazer, do qual a Jandira estava mais necessitada, diga-se por ser verdade, depois de terem dormido juntos o que restava da madrugada... Carlinhos saiu pensativo. No caminho, enquanto a cidade acordava,  preparou a conversa que tinha que ter no dia seguinte. Que iam ser muito felizes juntos, é bom de ver. Que eram feitos um para o outro. Mas que não estava ainda preparado para avançar para um casamento. Que a amava, claro, que se casava com ela, de certeza, que era um grande amor... Mas faltava o dote, para iniciarem a vida. Que ela ia ter de ajudar. Que com uma certa quantia de dinheiro, podiam ser muito felizes. Que depois de juntarem o dinheiro iam juntos para o Rio. Que os quinhentos quilômetros que separavam Jandira do Rio de Janeiro eram suficientes para deixar para trás todo o passado. Que iam ter filhos e ser muito felizes. Mas que agora era preciso o sacrifício do trabalho duro.

A Jandira não estava a perceber. Mas depressa percebeu. Com a ajuda do Carlinhos e os esclarecimentos da Dona Laudelina, mulher experiente em gerir o negócio do amor vendido, compreendeu. Ensinaram-lhe tudo: como trabalhar e sobreviver aquele trabalho. Afinal de contas era assim que viviam o resto das moças que moravam na pensão da Dona Lau para o onde o Carlinhos a tinha levado.

O meretrício não se faz por vocação, mas por disciplina. Enquanto disciplinadamente a Jandira juntava dinheiro para o casamento, o Carlinhos ia fazendo negócios. A comprar casas a famílias na miséria e transformar em alojamentos para os imigrantes que vinham chegando. Um empreendedor. Ao fim do dia vinha dormir a pensão e fazer contas com a Jandira. Ela dava-lhe as notas e ele pagava-lhe em amor e em sonhos que é quase a mesma coisa. As outras meninas que se prostituíam ali, sonhavam e fantasiavam com um amor e um noivado como o do Carlinhos e da Jan. As amigas e colegas de cruz, costuraram-lhe um vestido de noiva lindo que a Jan experimentava as escondidas para que o Carlinhos não visse e não atraísse o azar e a tragédia sobre aquele amor tão puro.

Mas a tragédia aconteceu à mesma. Como todas as grandes tragédias, aconteceu sem se esperar. Ou pelo menos sem a Maria Jandira esperar.

O Carlinhos, que apesar dos hábitos de malandro até era de boas famílias, e que agora já tinha algum dinheiro, inesperadamente anunciou noivado com uma pindérica do interior. Com filha de um produtor de café, daqueles que ainda ficou mais rico com a crise. As coisas são o que são e um homem de negócios tem de ser pragmático.  O Carlinhos, prestes a tornar-se o Senhora Carlos  acabou tudo com a Jandira. Dói, mas tem de ser. 

Os gritos da moça rejeitada ouviram-se ao longe. O seu pranto inundou o centro de Campinas.

Mas não houve volte atrás. O Carlos meteu o chapéu, bateu a porta e saiu definitivamente. 

Enlouquecida pela dor, sem ser capaz de suportar a rejeição, a Jan fechou-se no seu quarto, vestiu o vestido de noiva, pôs na cabeça  grinalda branca e canonizou-se santa, mesmo sem o aval do papa. Deitada, despejou o conteúdo de dois candeeiros a petróleo sobre ela e sobre o vestido. Quando o combustível ensopou a roupa da cama e a palha do colchão, acendeu um fósforo. 

Maria Jandira morreu vestida de noiva. Tinha vinte e três anos.  Foi no dia 24 de Maio de 1934.

As chamas do incêndio no quarto da Jandira, iluminaram toda a cidade de Campinas.

A familia demasiado hipocritica para assumir a pobreza que a levou à prostituição,  não veio reclamar o que restava do corpo. Foram as prostitutas e os malandros da baixa que trataram do velório. Do quarto queimado, resgataram a unica fotogradia de Jandira que puseram na campa.

Mas desenganem-se os que pensam que a Jandira descansou nesse momento.

Primeiro foram as amigas e colegas de profissão que começaram com a romaria à campa. Para confidências de amor e fazer pedidos.  Depois começaram vir outras moças, também meretrizes de outros sítios. Vieram moças de família também. A campa da Jandira tornou-se local de culto. 

Nos últimos oitenta e seis anos, a fama tem crescido. 

Ainda hoje, todos os dias chegam cartas ao cemitério da Saudade, na praça Voluntários. Vem dirigidas a Jandira. Chamaram-se Maria Jandira dos Santos. Dos Santos, porque dizem que a Jandira faz milagres. Sobretudo ajuda aos que sofrem de amores. Trazem-lhe flores, pulseiras, perfumes, velas e cartas com pedidos. Muitos muitos pedidos. A Jandira, disciplinadamente, faz o que pode.