"as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental". Vinicius de Moraes.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Eartha Kitt -- Mulher Terra
Eartha Kitt, metro e meio de sensualidade concentrada com inquieta e exuberante inteligência.
O Orsan Wells disse que era a mulher mais sensual do mundo. Terá sido das mais.
A Eartha nasceu numa plantação de algodão na Carolina do Sul, em 1927. Filha de mãe solteira de uma descendência de uma longa linhagem de mães solteiras. Diz-se que a mãe era linda e exótica com sangue cruzado entre índios e negros. O seu pai seria um homem branco, não se sabe quem. Morreu sem saber, nem nunca se mostrou interessada em conhecer a identidade do homem que engravidou a mãe para ela nascer.
A vida dela terminou no natal de 2008. Deixou a casa onde viveu à filha única, o nome na lista negra dos proscritos, um extenso dossier nos arquivos da CIA e do FBI, alguns discos gravados, centenas de horas de cinema e televisão, deixou a memória da Catwoman. As suas cinzas foram espalhadas no canteiro à porta de casa por vontade dela. “Sou uma mulher da terra, confio na terra. Não confio nem em diamantes nem no ouro”, terá dito uns anos antes de morrer.
Começou a cantar nos anos 40 e a deixar os homens loucos só de olharem para ela. Em 1950, o Orsan Wells trouxe-a para o cinema. Brilhou com intensidade. Nas décadas seguintes, fez cinema, teatro, televisão mas não deixou de cantar. Cantou até ao final da vida.
Foi em 1967 que a sua vida deu a volta. Nesse ano, entrou numa série de grande visibilidade nos estados Unidos: Batman. Fazia o papel de batwoman. Foi um escândalo entre os americanos ver uma protagonista negra a fazer um papel principal, ate aí interpretado por uma actriz loira. Muito falado nos media da época.
Tão falado, que uns meses depois, já em 1968, a Eartha recebeu no correio um convite da primeira dama Lady Bird Johnson, para almoçar na Casa Branca. A Eartha, a princípio, disse que não. Estava farta de badalação e de ser exibida a prova que justificava a mentira que não havia racismo nos Estados Unidos. Mas mudou de ideias depois da secretária da mulher do presidente Johnson, lhe telefonar pessoalmente e lhe pedir para reconsiderar, a senhora, simpática, explicou que o tema do almoço era a delinquência juvenil.
A Eartha Kitt tinha feito muito trabalho com grupos de jovens nas comunidades pobres e estava especialmente interessada no esforço da consciencialização da juventude. Por isso preparou-se, organizou documentação e trabalhou o tema para o almoço antes de viajar para Washington.
Mal chegou, foram buscá-la ao comboio numa limusina e levaram-na para um hotel caro onde ficou alojada. Com champanhe e flores no quarto, tudo cortesia da presidência dos Estados Unidos da América. No dia seguinte lá foi para a Casa Branca para o tal almoço, percebeu que os presentes estavam mais interessados no menu do que em discutir os problemas da juventude.
Depois da sobremesa chegou a imprensa e o Lyndon Johnson pôs-se a fazer um discurso politicamente correto sobre o papel das famílias e de como a educação começava em casa.
Foi ai que a Kitt, no seu metro e meio de grandeza, se levantou da mesa, foi direita ao orador e interrompeu o Presidente dos Estados Unidos da América:
– Senhor presidente, o que é que o senhor sabe sobre os pais dos delinquentes? Sabe a que horas se levantam para ir trabalhar para porem comida na mesa? Sabe se estas pessoas têm onde deixar os seus filhos? Quem toma conta destas crianças quando se trabalha doze e quatorze horas por dia?
Claro que a interrupção deixou o Johnson meio enrascado, ainda tentou responder com o esforço da segurança social para a criação de centros de acolhimento mas acabou por deixar a sala, com uma desculpa esfarrapada para a meia dúzia de jornalistas presentes.
A Kitt voltou a sentar-se mas antes de sair, chamou os jornalistas, sobretudo pessoas ligadas às colunas sociais e leu uma declaração que tinha preparado em que explicava que, na sua opinião, a principal causa para a delinquência juvenil da altura era a pobreza e a guerra.
“Mandamos os nossos jovens para morrer e matar no Vietname e depois não queremos que se revoltem contra esta sociedade que mal chegados da guerra, não lhes damos emprego e a única saída é vender droga ou roubar.”
Claro que a carreira como estrela da Eartha Kitt acabou ali. Nas décadas seguintes, ninguém nos grandes estúdios ou televisão lhe deu trabalho. Mas foi-se safando, continuou a representar e a cantar com produtores independentes e companhias alternativas, ganhando muito menos mas fazendo coisas de que gostava mais.
Ficou o seu olhar de gata e o seu gingar felino, aquele balanço que assusta os homens estabelecidos e fascina os homens insensatos com um fraco por mulheres fortes.
