E Santa (por canonizar) padroeira dos fadistas.
Filha de um cigano de Santarém, que para a historia só deixou a alcunha de Severo, alcunha essa que traz em si um cheiro de honra lavada com navalha aberta. Dizem que cigano, ainda relativamente jovem, foi a Nisa desencaminhar uma filha de pescadores, naquela época em que se pescava no Tejo sem celuloses nem barragens.
A família real tinha-se pirado para o Brasil, há meses e seguindo o monárquico exemplo, o casal também fugiu da repressão paterna da noiva na direcção do por do sol.
O Tejo que é generoso, trouxe-os sãos e salvos para a Madragoa. Agradecido aos deuses das estradas e do vento, o cigano Severo abriu uma taberna. Vendiam vinho duvidoso, a comida que aparecia e convívio intimo.
A Ana, que todos conheciam como “A Barbuda”, servia copos de vinho e atendia clientes no reservado atrás da cortina. O Severo garantia a ordem na casa, fazia com que todos pagassem o consumido que não houvesse abusos com a Barbuda. Alem disso, animava as noites, quando dava uns toques na guitarra e se o vinho lhe desse isso cantava rouco e sentimental o destino de todos os pobres.
Sem saber muito bem como, a Barbuda acabou por se engravidar. Nasceu uma menina a 26 de Julho de 1820. Sendo o Severo um cigano sério, assumiu a paternidade da menina. Maria como a mãe, Severa como o pai e Onofriana porque é um nome bonito. Assim foi decidido.
A Severa, foi buscar ao pai o encanto moreno, a voz rouca e o gosto pela musica. Mas como a musica não enchia a barriga, aprendeu com a mãe a milenar arte de esfolar cabritos que é uma metáfora, para o verbo “prostituir-se” que me soa melhor assim dito, uma vez que isto não é nenhum relatório técnico social para apresentar em tribunal.
Jovenzinha, gira, cantadeira e disponível encantou a Madragoa e logo a seguir foi atraindo a babosa e decadente elite Lisboeta.
Vinham os boémios, os ricos e os totós, ver e pagar pela Severa. O jovem Conde do Vimioso, Francisco da Paula de Portugal e Castro, um menino bem da Lapa, carregado de dinheiro, dado a touros e guitarradas, veio também e ficou embeiçado pela moça. Todos os dias la estava o Chiquinho do Vimioso na tasca da barbuda. O Chiquinho levava os amigos para ouvirem a Severa cantar. E depois os amigos saiam e ele ficava a passar a noite com a Severa. E levava a Severa à tourada. E levava a Severa aos jantares e esperas de touros, e a Severa cantava e mostrava-se. E oferecia à Severa prendas caras...a Severa gostava de espicaçar a inveja e mostrava as prendas às colegas de profissão.
Como um passarinho contente, cantava para todos ouvirem, e todos ficavam agradados com o que viam e ouviam.
Todos não.
Há sempre quem nos queira mal...
O pai do Chiquinho, sem sensibilidade para o fado, nem para entender o amor e os seus devaneios, não achou piada nenhuma as aventuras do filho com a cantadeira. Uma cigana e de cama incerta.
Por isso fez um ultimato ao filho varão, ou te deixas de putarias, ou eu corto-te a mesada.
O Chiquinho fez um esforço e pensou. Depois fez as contas à vida e com vinte e três anos casou com a Domingas que não sendo fadista nem cigana, não tinha entrado na historia a até este momento. A Domingas entra para sair já, dizendo-vos apenas que a Domingas não sendo feia era do mais puro e nobre sangue luso e alem disso a família tinha dinheiro.
O casamento foi celebrado em Lisboa e todos brindaram aos noivos.
Todos menos a Severa que não brindou. Nem sequer foi convidada. Amuou e e sofreu de amuo e amor. Disse ao Chiquinho que não o queria ver mais. Mentiu. E doeu-lhe.
A dor e o amor proibido e perdido deram-lhe ainda mais sentimento à voz e mais desprendimento ao corpo. Continuou a viver do que lhe pagavam para fazer amor.
Quando o Chiquinho deixou de insistir e de aparecer definitivamente porque lhe nasceu a primeira filha, a Severa deixou o Bairro Alto e foi viver para a Rua do Capelão, que naquele tempo era conhecida como Rua Suja. Trabalhava e cantava na Mouraria, mas o coração estava a morar na lapa.
Conviveu com marujos, fadistas, tocadores de guitarra e ciganos. Aos vinte e quatro anos estava gasta e prematuramente envelhecida.
Quase morreu de amor, mas foi a tuberculose que a levou. Cantou até a tosse e a febre a dobrarem. Foi sepultada numa vala comum do alto de São João, sem caixao, embrulhada numa colcha que guardava com sentimento.
Tinha 26 anos. Terá dito antes de morrer: morro sem ter vivido!
