Trabalhavam as duas na secção de recuperação de crédito. Tinham a mesma idade com diferença de 3 dias, a Carla nascida a 5 a Adelaide a 8 de Fevereiro.
Começaram novinhas no banco mais ou menos ao mesmo tempo. A vida fê-las colegas e elas tronaram-se amigas. Depois, porque foram educadas para isso, casaram-se. A Carla com um rapaz que trabalhava nas finanças, e a Adelaide um ano depois casou-se com um moço que era sargento da marinha em permanência no Alfeite.
A Carla era católica quase quase praticante, tinha sido catequista e tudo. A Adelaide, menos praticante, mas igualmente frente, também veio de uma familiar conservadora: filha de um gnr e de uma senhora testemunha de jeová.
Ambas escolherem maridos do tipo bom moço e trabalhador. Os maridos, moderadamente ciumentos e luso-machistas sem excessos. Os maridos tornaram-se também eles grandes amigos. Por alem das esposas trabalharem no mesmo sitio, os rapazes tinham em comum um grande amor: o sporting club de portugal. Ambos sócios encartonados com cotas em dia.
Assíduos nos jogos a puxarem um pelo outro assim como puxavam pela equipa.
Naturalmente chegaram as crianças: dois meninos gémeos da Adelaide com a trombinha do sargento e uma menina que se parecia à Carla e que a alegria do gajo das finanças, logo a seguir aos golos do Sporting, naturalmente.
As gravidezes quase simultâneas aproximaram ainda mais as duas amigas. Os dois casais começaram a passar ainda mais tempo juntos. Juntavam-se todos os fins de semana. Quando o sporting joga em Alvalade jantam no sábado e no domingo eles vão os dois à bola e elas ficam juntas em casa, porque nem a Carla nem a Adelaide são mulheres de sair de casa. Quando o sporting joga fora, eles vão no sábado e elas ficam com as crianças alternadamente na casa de uma da outra. Um domingo em Alvalade, o outro domingo em viagem por este imenso pais de futebóis. Os homens chegam ao final do domingo, eufóricos ou lamentando arbitro, a equipa o presidente... Depois eles ficam a ver os comentários na televisão e elas arrumam a cozinha.
Moram todos a dois quarteirões de distancia no Cacém. No segunda-feira voltam a encontrar-se as duas na copa, para beber café e arrumar no frigorifico pequenino, as caixas de plástico com o almoço que partilhavam.
Eu sei porque trabalham comigo no banco.
A coisa é assim há mais de quinze anos. Até que um dia, uma quinta-feira de manha, estava eu na garagem do banco entretido a ler a bola quando desceu o Senhor Gonçalves responsável pela logística e chefe da manutenção, por isso meu chefe.
Vinha o cabrão do Gonçalves cenho fechado e sem dizer bom dia perguntou logo de mau humor:
--Não tem nada para fazer? A manutenção deste edifício está em pausa?
-- Senhor Gonçalves, estou a espera que cheguem as tomadas para ir substituir la em cima na administração... devem estar ai a chegar. Respondi modesto mas rápido, afinal de contas, trabalhava na manutenção há tempo suficiente para ter sempre umas cuecas de aço vestidas quando o chefe chega de mau humor...
-- Olhe homem, vá mazé lá a baixo à subcave onde temos o arquivo-morto e veja la o que se passa com a luz, porque já se mudou a lâmpada e não é da lâmpada... O arquivo morto estava sem luz há três semanas. Tínhamos ficado e substituir toda a infraestrutura elétrica no próximo mês de agosto. O cabrão do Gonçalves sabia isso muito bem...
Mas chefe é chefe, dobrei o jornal e fui. Desci pelas escadas para fazer tempo e com a lanterna grande na mão. Agora é que lhes deu a pressa!!!
Abri a porta com um encontrão, zangado de estarem a inventar coisas para me mandarem trabalhar. Foi então que as vi. No canto entre prateleiras cheias de dossiers. Estavam as duas despidas da cintura para cima. Abraçadas, a Carla com a mão direita debaixo da saia da Adelaide que tinha as cuecas caixas a fazer companhia aos sapatos de médio salto. A Carla empenhada no que estava a fazer estava com um expressão quase de fúria. A Adelaide com os cabelos soltos e a cabeça deitada para trás, parecia estar bastante agradada com a motricidade fina dos dedos da amiga.
Ficaram tão chocadas quanto eu. Ou melhor ficaram mais chocadas que eu...alem de chocadas, encadeadas pela luz da lanterna e gelaram pela travagem brusca na auto-estrada com direção ao amor. Seguiam ambas em excesso de velocidade.
Eu inspirado pela velocidade, sai tão depressa como entrei. Pressionei o botão do elevador que se chama monta-cargas porque é maior e menos limpo. O monta cargas demorou o tempo suficiente para que elas chegasse ao pé de mim. --Não vi nada. E têm a minha palavra que vou guardar o segredo do que não vi. Guardei. Guardei até hoje. Ate este momento em vos conto.
Nunca falei disto a ninguém.
Entre nós os três cimentou-se uma profunda amizade e respeito mutuo. Ficamos amigos até eu me reformar do banco. Mas brincadeiras à parte, digo-vos uma coisa: eu sabia sempre que o sporting jogava fora pelo despertar do leve sorriso de satisfação nos rostos sério e contidos das duas divas discretas e bem comportadas.