sexta-feira, 6 de junho de 2025

Rita do Lumiar

 Filho de um empreendedor genovês e de uma senhora espanhola, foi por isso e que o Chico nasceu Paco em Cádiz  andaluz em 1853. 

Aos dezassete anos, um tio direito, irmão da mãe, faz-lhe um convite irrecusável e o Chiquinho foi para São Tomé ajudar a explorar uma roça de cacau.O termo explorar adapta-se bem ao de facto acontecia. 

Chamava-se Santa Margarida esta primeira roça que teve com o tio. Depois associou-se ao outros empreendedores locais noutras duas: a Roça Monte Macaco e a Roça Mainço. Mais tarde, já sem sócios, que isto de meias é bom é para os pés, fundou a Roça da Esperança e a Roça Infante Dom Henrique. 

O tempo foi passando entre tanto e tão esforçado trabalho que quando o Chico deu por si já estava quase nos trinta e cinco anos e ainda não tinha esposa nem descendência. Porque era um rapaz bem educado nos valores da família e porque tinha uma boa visão para o negocio, casou-se com a prima direita, filha do tio que o iniciaria no nobre negocio do cacau. Desta abençoada e católica união nasceram pelo menos treze crianças. Das suas escravas e empregadas terão nascido outras tantas mas dessas crianças a história não tem registos.  Com quarenta e picos foi convidado pelo Banco Nacional Ultramarino para gerir a grande roça Água-Izé. 

O empreendedorismo agrícola do Francisco não cabia no pequeno arquipélago de São Tomé... por isso o empresário alargou o seu engenho de iniciativa para outros lugares: em Angola criou a Companhia de Cabinda e a Companhia do Cazengo, em Moçambique criou os Prazos de Lugela e mais longe ainda, fundou a Companhia de Timor. 

Quando chegou aos sessenta, farto de Áfricas, decidiu vir viver para Lisboa que é um sitio bom para se viver com o dinheiro. Por volta de 1915, criou uma holding a que chamou companhia comercial que continuou a multiplicar a sua fortuna no conforto do seu gabinete metropolitano. Quando chegou, ainda comprou uma casita ali para a Lapa, mas como a Lapa era um sitio demasiado apertado para o Dom Francisco viver, decidiu-se por comprar umas quintas  afastado do centro, no Lumiar. Fez as obras necessárias  à altura do seu empreendedorismo. Construiu um lago artificial com duas ilhas no meio, em homenagem à Ilha de São Tomé e à Ilha do Príncipe e importou árvores tropicais para florestar os extensos jardins. Nos anos dourados da reforma, com outros senhores importantes fundou a sociedade portuguesa de geografia e financiou orfanatos. 

A sua opulenta quinta, às portas de Lisboa, era local de referencia e deferência nos primeiros vinte e cinco anos do século XX. Os vastos jardins, as obras de arte que comprava, as festas a que apenas os mais altos destinatários tinham acesso, tudo contribuiu para fazer crescer a fama do homem, do palácio e dos jardins. 

Mas uma pessoa nunca sabe quando está bem... foi então que uma das suas empregadas, uma daquelas moças que tinha trazido de São Tomé a quem não pagava salário mas dava alojamento e comida,uma dessas desvalidas que lhe devia a própria vida, uma das suas negras da casa, teve a ousadia de emprenhar do Dom Francisco...

Ainda por cima, só se deu pela coisa já em cima do momento do parto...não havia nada mais a fazer do que deixa-la parir. 

À esposa, caiu-lhe mal a maldade da negra de se engravidar assim do seu marido. 

O D. Francisco, mandou de volta a negra para são Tomé, dois dias depois de parir, seguiu no primeiro navio... no entanto, a sua prima e ditosa esposa, não deixou seguir a criança, quis ficar com a menina para a criar lá em casa. Decidiu chamar-lhe. Assim ficou. Mas o gene da desgraça, já estava plantado. Acontece que a Rita estava fadada para dar problemas e se os problemas começaram ainda antes dela nascer, parece que cresceram durante a vida nem a morte estancou os roucos gritos de pranto nem o rio das lágrimas da Rita. 

Seja por causas genéticas, seja pelo ambiente em que vivia afastada da mãe com um pai que tinha idade para ser avô e agia como dono, a Rita começou desenvolver algumas patologias de comportamento. 

Ora o Senhor Chico, não esteve com meias de medidas, homem de aço, empreendedor, e habituado a "educar africanos", decidiu construir uma jaula onde metia a Rita sempre que as crises de choro e gritos aconteciam. E aconteciam muito. Com a adolescência a coisa piorou, as tarefas de cinto e os castigos de privação de comida não conseguiam acalma  e a Rita, já mulherzinha, passou a viver sempre enjaulada. O Senhor Francisco não dava autorização que a menina saísse da jaula. Um problema. Um problema grave que durou até à morte do D. Francisco em 1928. 

Após a morte do D.Francisco, a família reunida em concelho de administração decidiu afastar a Rita bastarda para um clínica de alienados onde acabou por se suicidar numa facilitada eutanásia da janela do quarto andar dum prédio discreto nas Avenidas Novas que nos anos trinta do século XIX ainda eram novas .

A esposa amada e prima do D. Francisco, mudou-se ela também para o centro de Lisboa onde viveu até morrer. A quinta foi esvaziando como um balão esquecido numa garagem onde aconteceu um aniversário. Os jardins menos descuidados foram-se tornado mata.

Os vizinhos diziam que à noite se ouviam vozes e gritos. Que aconteciam coisas inexplicáveis nos edifícios e nos jardins. 

A Tobis, A Tobis - Tonbild-Syndikat– companhia de propaganda e lavagem de dinheiro nazi- chegou Portugal pela mão salazarenta do Antonio Ferro e veio instalar no jardim, um estúdio de cinema. Inclusive, foi feito ali o filme A Canção de Lisboa. Depressa deixaram de utilizar o estúdio, porque as coisas lá nunca corriam bem. 

No Lumiar todos diziam que a quinta estava assombrada. A prima e esposa do D. Francisco, fecha os olhos já nos anos cinquenta. Os herdeiros do D. Francisco, pessoas de princípios e bem instalados na vida, não gostavam dos murmúrios sobre assombrações e sobre a memória esclavagista de tão ilustre pai e avô. 

Alguns dos herdeiros, ligados à alta-finança, outros ligados ao governo do Dr. Salazar. Todos eles portugueses, brancos, católicos e ricos. Num dos encontros que  ocasionalmente tinham, em Cascais, decidiram desfazer-se da Quita e enterrar definitivamente o passado. 

Falaram com quem tinham que falar e por volta de 1966, a câmara de Lisboa comprou-lhes a quinta. 

Não há registo de valor em dinheiro na escritura de transferência da propriedade, mas três anos depois a autarquia atribuiu a uma rua, o nome do empreendedor que levou o desenvolvimento para São Tomé. 

O Jardim da Quinta das Conchas e dos Lilases foi "reinaugurado" e aberto ao público a 12 de Maio de 2005. Sob a tutela do presidente da edilidade lisboeta à data, o doutor Pedro Santana Lopes. Estas obras de requalificação do espaço receberam o Prémio Valmor e o prêmio Municipal de Arquitectura em 2005. 

Para os mais sensíveis às energias de vivos e mortos, a quinta e os jardins continuam assombrados pela mulata Rita. A Rita bastarda enlouquecida de dor da partida da mãe e enjaulada pelo pai. 

Como se a memória branqueada do colonialismo escravocrata é já em si mesma não fosse assombração que cheguasse.