quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Catherine Dior

 Quando a Catherine,  entrou na loja para comprar um rádio em 1941, sentiu uma vertigem. Não ligou, tinha 24 anos e a certeza absoluta que não estava grávida. 

Foi a roda da fortuna a girar sobre o seu eixo que deixou tonta a jovem mulher , mas a Catherine estava longe de perceber o que lhe ia acontecer.

Há momentos assim.

Foi nessa loja de eletrodomésticos que conheceu o Hervé. Casado, pai de três filhos. Ficaram amigos. Conheceu a mulher do Hervé, a Lucie que recebeu Catherine de braços abertos. 

Mas a roda da fortuna tinha girado e a Catherine e o Hervé perceberam na loja que acontecesse o que acontecesse, o caminho dos dois seria juntos. O amor tinha sido sintonizado numa estação que era só dos dois e a transmissão durou para sempre.   

O Hervé era responsável por grupo que se dedicava a recolher informações, organizar, documentar e fotografar movimentos das tropas alemãs para depois entregar tudo aos aliados. 

A Catherine entrou de cabeça na resistência e adotou o psudonimo de Caro.

Em 6 de julho de 1944, três anos depois da Catherine ter decidido comprar o rádio, já os alemães estavam a perder a guerra. Caro marcou um encontro com um companheiro de luta para lhe entregar documentos. Um encontro em Paris que tudo se previa vir a ser em breve libertada. 

O contacto da resistência não veio mas apareceu a Gestapo. 

Levaram-na para o número 180 da Rue de la Pompe no 16º arrondissement. Uma casa bonita oferecida por colaboradores franceses aos nazis.

Tortura-na um bocado .

Não falou.

A Catherine nasceu 27 anos antes de ser presa na Normandia em 1917, doze anos mais nova que seu irmão Christian. 

Vieram ao mundo ricos e viveram a infância de forma confortável.  Em 29 com a crise da bolsa o pai da Catherine foi a falência. A mãe que cultivava rosas e jasmim, passou a produzir legumes e hortaliças que davam para a sopa.

E 1931, quando a mãe morreu, os filhos herdaram o amor da mãe pelas flores.

Enquanto Christian foi para Paris para trabalhar como alfaiate a Catherine ficou na Provença a criar vegetais para sobreviver e sonhar com as flores da mãe.

Então veio a guerra.

Em 1941 a Catherine com a ajuda do irmão, lá conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar o tal rádio que precisava para ouvir as notícias da guerra.

E quando foi comprar o rádio, tau. Veio tudo de uma vez.

O tal dia de mudança.

Depois do rádio, foram 3 anos de amor intenso, perigos e ansiedade, esperança, vitórias e dores. Prazeres fugazes em lugares improváveis.

A 15 de agosto de 1944, apenas dez dias antes da libertação de Paris, já a Catherine estava presa há mais de um mês na Gestapo de Paris quando a puseram num comboio. O bilhete era só de ida para o campo de concentração de Ravensbrück. Chegou uma semana depois a 22 de agosto. Tatuaram-lhe no antebraço o número 57813.

Catherine chegou a Ravensbrück já lá estavam mais  40000 mulheres numa instalação que tinha sido preparada para recer um máximo de 5000 prisioneiras. 

Por esses dias, a Alemanha nazi está a desmoronarar-se com o avanço do Exército Vermelho. A Catherine e outras prisioneiras foram sendo transferidas de campo para campo. O desesperado esforço de guerra dos nazis também vivia de trabalho escravo dos prisioneiros. 

A Catherine nesses meses, trabalhou a fazer explosivos numa mina e a fazer peças para a bmw, entre outras coisas.  

Em abril de 1945, foi resgatada por tropas aliadas perto de Dresden. Passou um mês no hospital e voltou a Paris em 28 de maio de 1945. Parece que final de maio, é uma boa altura para voltar a Paris. 

Em junho, foi o reencontro com o Hervé. Deixaram-se de espionagens e abriam uma florista.  

O estado frances homenageou a Catherine com condecorações. Medalha disto, cruz daquilo, grandes honras que não lhe aliviaram as dores. Fizeram dela heroína nacional. 

O irmão da Catherine, o Christian que de alfaiate passou a costureiro e cuja marca se estava a afirmar no pós-guera, deu a um perfume que viria ser muito famoso o nome da mana.

Uma oferta sentida e perfumada. A Catherine gostava de flores e apreciou o perfume.

Talvez seja por isso que quando se abre o frasquinho da Catherine, do Christian Dior, cheira flores, sedução, resistência, traição, dor, amores proibidos e liberdade.