sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Madame Satã

salve a malandragem 

Dos anos que viveu , ao todo, passou 28 anos dentro do sistema penitenciário. Eu sei, não é uma boa referência, para uma diva.  
A diva que nasceu João e cuja mãe o trocou por uma mula, apesar de muito referenciado nunca foi propriamente uma referência em vida. 
Foi mais do que isso. Muito mais do que isso. Foi quem quis ser.
Terá nascido filho de escravizados lá bem no interior empobrecido e seco de Pernambuco. Por volta de 1900. Quando a mãe ficou viúva vendeu o João que tinha sete anos em troca de uma mula. A mula fazia-lhe muito mais falta. Até porque tinha mais filhos e nenhuma mula.
O senhor Laureano, foi quem comprou o menino. Prometeu fartura de comida e educação. Na prática foi trabalho escravo para os braços de criança obrigada a tratar dos outros animais do proprietário da fazenda.  
Na Paraíba, para onde foi com o Laureano numa viagem de trabalho escravo, o João menino, conheceu a Dona Felicidade. 
Voltaram os três para a fazenda. Teria a criança uns oito anos, a Felicidade passado uns meses, levou-o. Foram fugidos da fazenda do Laureano, o menino foi como penhora para cobrar uma divida de serviços prestados e não pagos ou como indemnização de um contrato cujo Laureano não cumpriu. Não sabemos, foram tratos entre o Laureano e a Felicidade.
Porque as estradas no hemisfério sul correm para baixo, mesmo em terra de seca, desaguaram os dois no Rio, o de Janeiro. 
A Felicidade que tinha de fazer vida e não se deu bem no interior, montou uma pensão. Chamou Hotel Itabaiano ao estabelecimento. Funcionava vendendo felicidade de cama quente com recheio de meninas e raparigas pobres para outros pobres temporariamente ricos, para remediados pobres de afecto e para ricos suvinas que na pobreza das moças compravam satisfação. 
Depois da abertura da pensão o menino que era esperto e ganhava corpo continuou o seu trabalho escravizado para a a Felicidade. Entre ser escravo a tratar do gado do Laureano e ser escravo no empreendimento da Felicidade, convenhamos que o menino estava mais confortável nas camas da pensão.
Foi na casa da Felicidade que o João conheceu a luxúria do corpo. Aos doze treze anos, a Felicidade organizava festas de pessoas que interagiam nuas. Com meninas, mulheres e homens que pagassem. A presença da criança começou a ser requisitada porque aumentava o valor a receber pelo evento. João passou a ser animação de homens e mulheres. 
De menino escravo de puta a puta por conta própria foi o salto dos 13 para os 14. Deixou definitivamente a infância infeliz e a Felicidade no bordel. Como já vimos que não era parvo, foi viver para as ruas da Lapa onde a alegria se deita com a miséria. 
(Eu sei que é raro mas às vezes acontece. A miséria de vez em quando farta-se da monotonia de ter de dormir com a tristeza e vai meter os cornos à chorona aquecendo os pés e o resto na cama da alegria)
Quando perguntavam ao malandro Joãozinho do que gostava mais, se de homens ou de mulheres, ele despudorodamnete sorria aquele sorriso lindo e aberto e dizia que gostava “mais de ser bicha”. Por isso era bicha.
Mas de bicha a diva ainda vai uma distância grande. 
A aprendizagem da sua grandeza fê-la com os malandros da Lapa dos anos vinte do século vinte. Boa e reputada escola de Malandragem. Ao nível do do Cais de Sodré dos anos 70 em Lisboa e do Roque Santeiro dos anos 90 em Luanda.   
Foi na Lapa, no Rio de Janeiro a dos anos 20 que a bicha Joãozinho aprendeu a defender-se. Juntou a sábia arte da capoeira aprendida com os Mestres que acrescentou à sua espontânea forma de lutar com a raiva dos desesperados. Tornou-se lendário nas brigas. Fez-se respeitar com a ginga das suas esquivas e os cortantes golpes da sua navalha. Aconteceram-lhe as primeiras prisões. 
Aconteceu o também o amor. 
O amor quando acontece a uma pessoa, é uma coisa muito séria e muda a realidade. A realidade da pessoa e do mundo inteiro. Foi o que se passou.
O amor na bicha João fez nascer a diva. 
Tudo porque se apaixonou pelo Malandro Brancura.
O Malandro Brancura que tinha a alcunha por ter a pele branca num universo de negros e mulatos. Louro e de olhos claros, fazia passar-se por alemão. Na realidade nasceu em Arcozelo e veio para o Brasil miúdo, neto de um francês que chegou a Portugal como invasor e que por cá ficou a fazer filhos e a beber verde tinto até morrer no Minho que é um sítio tão bom como outro qualquer. 
Especialista no jogo de dados, hábil com a navalha e proxeneta de profissão, também o Brancura se encantou pelo sorriso aberto da bichinha e pelas proezas que ela fazia na cama. 
Viveram juntos e felizes para sempre durante quase dois anos.
Depois o brancura encontrou outro amor. Apaixonou-se por uma polaca que nao tinha nada a ver com a Polónia porque tinha nascido numa família judia da Eslovénia...mas isso não interessa à história.
A bichinha na raiva virou João e disse que matava os dois. Era homem para isso. Só não o fez porque o Brancura fugiu para longe com a sua polaca neta do Abraão.
A dor misturada com a saudade dá um combustível do caraças... A inveja de mamas da diva em gestação fez parir uma linda mulher. Estava a inventar-se o transformismo e o riso e gargalhada fácil, o gingado e capacidade de adaptação, com maquilhagem e ousadia que não lhe faltavam fizeram o resto.
A consagração total de Diva, aconteceu-lhe no Carnaval de 1938. A Bicha João, vestida de mulher morcego, isto antes de terem inventado a mulher morcego. Ganhou um importante concurso de mascaras. Depois na festança que se seguiu ao desfile, foi preso com mais amigas e amigos. Putas, travestis, artistas e proxenetas. Foi no palco da delegacia que terá estendido a mão negra de palma branca enluvada em veludo preto e respondido quando lhe pediram para se identificar: 
-- Madame Sata , rainha da noite ao seu dispor delegado.
Até a vénia que fez veio no jornal.
Ficou conhecido e reconhecido.
Vestido de mulher linda que se fez por seu próprio esforço, brilhou nas noites quentes do Rio de Janeiro. Namorou com artistas, criticos e pessoas influentes. Tornou-se ela também artista de variedades. Fez carreira enquanto não lhe acontecia ser ou estar preso.
O resto é história. 
Entre palcos e presídios foi vivendo e sendo quem quis ser. Sem complexos nem concessões. Resolvia o que tinha a resolver entre beijos e facadas. Amou e matou de amores e com tiros.
Morreu velhinha de cancro no pulmão. 
Apartir dos cinquenta acalmou as noitadas mas não deu reforma a loucura. 
Por fim, ganhava a vida como cozinheira, babá e fazendo arranjos de costura. 
Hoje é celebrada em giras de esquerda entre Exus e Pombagiras. Há terreiros onde desce para dar consultas, fazer trabalhos e beber. 
O seu nome é uma bandeira para a comunidade trans... Fizeram um filme sobre ela e continua a ser citada na letra de muitos sambas.
Madame Sata, a diva que nasceu menino, foi aquele malandro que não se contentou em ser bicha, se construiu mulher e se fez coroar como rainha. 
Tomem e embrulhem. Para que fiquem todos a saber que algumas divas também têm testículos.