quinta-feira, 16 de abril de 2020

Inês de Castro -- Três Marias

Eram três Marias. Eram as três, Maria, de primeiro nome. Mulheres e jovens: Maria Constança, Maria Inês e Maria Teresa. Vieram as três, juntas de Madrid. Novas, ricas, bonitas e amigas umas das outras. Ou, pelo menos, tão amigas quanto é possível serem amigas entre si três mulheres bonitas. Viajaram juntas. Duas semanas em cortejo. Entre vales e planícies. A usarem a parte de trás das árvores como casa de banho e a sujeitarem os corpos às lavagens ocasionais pelos ribeiros e rios que cruzavam. Chegaram a Lisboa a precisar de um banho a sério e de mudar de roupa. Estiveram dois meses a fazê-lo antes de serem apresentadas à corte. A Constança, a mais ambiciosa, vinha prometida para casar com o príncipe e com ideias de ser rainha. A Inês, a mais bonita, trazia a marca de um desgosto amoroso e sonhos intensos. A Teresa, a mais inteligente, tinha ideias de fazer um bom casamento sem sequer imaginar se viria a parir um rei. O príncipe era tudo menos principesco. Pedro, cru e duro e de humor que variava entre a frenética alegria e a mais triste melancolia. Uma criança rebelde e contida que evoluiu para um homem calado. Entre a timidez e a crueldade, gostava de caçar e ser ele mesmo a esventrar os animais caçados. Amores tinha-os aos montes. Submetia mulheres e criados à sua vontade. Amava-se a si próprio. Na dor e submissão dos outros vivia o prazer de se sentir omnipotente. Quando foi a noite de apresentação da futura noiva, fez o favor ao pai, tomou banho e vestiu-se para a cerimónia de apresentação. Não se arrependeu. Ficou fascinado não sou só com a noiva, mas também com as suas duas amigas. Encantado com a graça e modos e sobretudo interessado porque não estavam tão disponíveis como as outras senhoritas que tinha conhecido. Ultrapassadas as manobras políticas, o casamento acabou por acontecer entre o Pedro e a Constança. Viveram uma relação distante, própria dos casamentos monarcas, os encontros entre marido e mulher aconteciam frios em horas e dias marcados. O melancólico Pedro, sorria e cumpria contido o calendário das cúpulas agendadas. A jovem esposa do futuro rei, confidenciava com as amigas, sobretudo com a Inês e com a Teresa, o tédio das noites de casada. Pedro e Inês cruzavam-se com frequência. Picada pela Constança, Inês fazia perguntas ao Pedro. Entre ambos, adubado pelo desejo da proibição e regado pela baba dos corpos a quererem, florescia uma coisa que se pode chamar de amor. Envolveram-se o Pedro e a Inês. Enrolaram-se e amaram-se como puderam em momentos fugídios entre reposteiros e arbustos. À mulher legítima de Pedro, Constança, amiga de Inês,que não andava a dormir... a coisa começou a desagradar, não pelos factos em si, mas pelo falatório dos ociosos. Mas eram amigas e damas e detestavam escândalos. Entalada entre a Constança e a Inês, a terceira amiga, a Teresa, com inteligência evitava percalços e simultaneamente protegia os amantes e tomava conta de Constança. Apesar da agenda carregada do marido e da amiga, do formalismo dos encontros e das noites solitárias, a Constança engravidou-se. Pedro assumia bem o papel do príncipe que espera um herdeiro, mas viva a contar as horas para se encontrar com a Inês. O pai do Pedro, rei, envenenado por moralistas vozes, não aprovava o relacionamento do filho com a amiga da mulher e mandou a Inês de volta para Castela. Os últimos meses da gravidez foram um martírio para a Constança, demoraram séculos de incómodo para os cinco. Para a Constança que gravemente grávida tinha os pés inchados num trambolho e o estômago aziado com enjoos contínuos, tudo o que comia vomitava e não lhe apetecia comer nada. Para a criança que viria a nascer que, com os jejuns da mãe, crescia mirrada e frágil no seu ventre. Para o Pedro que teve de procurar outros entretens com a mulher naquele estado e a amante longe. Para a Inês que voltou para Castela, associada a um escândalo sem outros proveitos que ver o seu nome sujo. Para a Teresa que andava feita enfermeira a ajudar a Constança e feita psicóloga a ouvir as queixas do Pedro. A Constança, triste e inchada, morreu de parto e deixou como herança um rapazinho que, se sobrevivesse, com sorte poderia vir a subir ao trono. O Pedro foi-se abaixo. A Inês em Madrid agonizava. Foi então que a Teresa, passado umas semanas de luto, sugeriu ao Pedro que mandasse vir a Inês. No papel de viúvo, Pedro escreveu (ou mandou escrever, porque há duvidas sobre a sua alfabetização) uma carta a pedir à Inês que regressasse. As polítiquices na corte continuavam febris. O pai, Afonso, que era rei, apoiava-se em meia dúzia de famílias tradicionais que queriam continuar a mandar. Ele, Pedro que queria ser rei, juntou-se a dois ou três amigos banqueiros que queriam vir a mandar. Regressada a Inês, o Pedro, deu um tempo à política e recebeu-a em Coimbra. Foram para uma casa que fora feita pela sua avó Isabel. Uma avó rainha e santa que gostava de rosas e que era vagamente bruxa. A Isabel do milagre das Rosas. Conta a lenda e os documentos antigos confirmam-no, que a casa para onde foram morar, fora a Isabel enquanto rainha, quem a mandara construir e deixara escrito preto no branco “para nela morarem os seus herdeiros com as suas esposas legitimas”. Esta determinação escrita pela Isabel, ficou como uma espécie de maldição escrita a sangue nas paredes daquela casa onde morreu: casados legitimamente! Acontece que o Pedro não vivia o tempo da sua avó. Eram outros tempos e o Pedro e a Inês estavam a viver juntos sim. Mas estavam a dar um tempo, para ver se a relação resultava. Tinham muitas coisas para organizar antes de poderem formalizar a coisa num casamento. As manobras políticas em Lisboa não davam tréguas. Estava o país em ebulição e aqueles que podiam contar com elas, contavam as espadas. Entretanto da Inês nasceram mais crianças que podiam vir a ser herdeiros. A notícia caiu mal em Lisboa, sobretudo nos círculos mais conservadores. As crianças viviam com os pais, na casa da avó do Pedro que ainda não sendo uma alma santa para os católicos, manifestava a sua presença apagando velas, soprando correntes de ar, dando estalidos nos móveis antigos e mudando o sítio às coisas. Inês, mais aberta aos fenómenos paranormais, ainda tentou convencer o Pedro a mudarem de sitio e procurarem outra casa. Nada feito. Alheio às intervenções da falecida mãe na casa onde vivia o filho, a Afonso, pai de Pedro, não agradou a ideia dos netos bastarditos. Muito menos a ideia de uma conspiração da nora para o depor. No meio das intrigas da corte, por necessidade política, malvadez ou simples estupidez, o rei e os seus amigos, decidiram assassinar a companheira do Pedro e acabar de vez com aquele foco de conspiração em Coimbra. Juntaram-se dois ou três nobres fieis ao rei e seguiram com o combinado. Numa manhã de azar, a sete de Janeiro de 1355, estando o Pedro ausente eventualmente caçando, a maldição da avó Isabel, confirmou-se nas lâminas dos assassinos. Inês morreu concubina e o seu sangue sujou o chão e as paredes daquela casa feita para mulheres legítimas. Pedro não perdoou. Nessa mesma noite, juntou meia dúzia de amigos e quase que fizeram um golpe de estado. O país entrou em guerra civil que durou até Agosto. Ano e meio depois o pai do Pedro morreu de velho e de desgosto e o Pedro faz-se rei. Sentado no trono, duplamente viúvo, dá vazão ao ódio e raiva acumulados. Manda matar e participa activamente na matança de todos aqueles que tiveram, nem que fosse vagamente, envolvidos no assassinato da Inês. Depois, manda matar aqueles que ele sabia que não gostavam da Inês. Depois manda matar aqueles que ele desconfiava que não gostavam da Inês. Depois manda matar mais uns quantos, só para servir de aviso aos outros que sobravam. Mas o mais sórdido ainda estava para vir... Metade da loucura estaria justificada pela dor, a outra metade seria definitivamente crónica. O Rei Pedro, manda então desenterrar o corpo da Inês sepultado há dois anos nas terras barrentas e molhadas pelo Mondego. Uma decomposição parcial e limitada, cabelos e unhas intactos, músculos parcialmente decompostos, pele a secar sobre os ossos e o odor que se libertava lembrava a todos os presentes que somos apenas carne que se estraga. Ninguém ousa dizer que não ao Rei Pedro. Chama a corte e os bispos, manda fazer o casamento com a morta. Depois exige vê-la coroada Rainha. E que todos assistam. O bispo cumpre com as ordens do novo rei. Todos assistem. Aquilo que foi o corpo de mulher da Inês, estava agora sentado na cadeira do trono, vestido de púrpura, regado com rios de perfume no salão nobre. Reunida a nobreza, todos vão beijar os dedos que são ossos cobertos de pele e unhas com pedaços de carne apodrecida. Todos beijam a mão de Inês, ou aquilo que foi a mão de Inês que em pecado acariciou o rei e que em morte lhes era rainha e senhora. Saídos os convidados ficou ainda nessa noite sentado ao lado do cadáver a beber e a conversar com aquela que terá amado. Na manhã seguinte, mais sóbrio, dentro do possível, manda sepultar a rainha. Exige que se faça um túmulo sem olhar a despesas, que de resto não era ele que pagava... A dor e mágoa duraram até dar por concluída a vingança. Devagar, no seu passo tímido, foi-se chegando Teresa, a amiga e confidente de Inês e de Constança. Amiga de Pedro em todas as horas, as doces e boas e as tristes e amargas. Ao rei, sabia-lhe bem conversar com a Teresa e ouvir dela as histórias de juventude de si mesmo e das suas duas mulheres. Foram ficando cada vez mais amigos. Tão amigos que Teresa deu ao Pedro um herdeiro, filho de ambos, João. Fruto, se não de amor, de pelo menos muita cumplicidade. João, bastardinho, criado por padres em Avis, que todos chamariam Mestre, viria um dia a ser rei em Portugal.