Mulher, negra e pobre, os tres factores da submissão. Viveu uns intensos noventa e tres anos para mostrar ao mundo que ninguem nasce condenado! Cedo se fez à vida. Ainda quase criança, desenvencilhou-se a costurar para fora, a bordar, a cozinhar doces, a cozinhar salgados. Depois seguia pelas ruas do centro histórico da cidade com um tabuleiro a vender o produto do seu trabalho, fosse para comer, vestir ou admirar. Livre, sem patrões. Terá sido por essa altura que conheceu aquele que viria a ser seu marido. Diz quem sabe que se encontraram num autocarro. Era um rapaz vindo do Sergipe, bem-vestido, de olhar de fogo, calado de boca e sorridente no seu silêncio. Álvaro MacDowell de Oliveira, mestiço exótico de um Brasil cruzando sangue de índios, negros e brancos escoceses. Bacharel em direito a ponto de se tornar advogado. Não ficou indiferente ao encanto da Escolástica, que nessa altura já todos tratavam por Menininha por ser de estatura franzina e ter aquela gargalhada de criança que iria manter até ao resto da vida. Casaram hunildes e tiveram duas filhas. Depois tudo mudou. Teria a Menininha uns 28 anos, quando foi chamada pela família para gerir o Terreiro de Candomblé onde nasceu e cresceu. As crianças eram pequenas e o marido trabalhava duro para se afirmar como advogado de negros e mestiços num universo de justiça branca, com juizes brancos e advogados brancos para pessoas brancas. A Menininha resistiu à ideia de ficar no Terreiro a tempo inteiro. Queria ser a mãe das suas filhas, apenas isso. – Eu não quero passar os dias a ouvir falar em desgraças, misérias e problemas, ter de ficar calada e pegar nos búzios e ver com os Orixás como ajudar!
Mas há coisas que não têm como. E Salvador é cidade de mistérios. Em 1922, assumiu o cargo e mudou-se de armas e bagagens para o morro do Gantois. Foi com as filhas e levou a modernidade ao Candomblé. O marido ficou na casa do casal. Continuaram casados e apaixonados muitos anos mais, até à morte do advogado que não sendo crente, respeitava a religião da mulher e foi fundamental para o reconhecimento legal do direito à prática religiosa. Com o seu jeito directo e a gargalhada fácil, passou a gerir uma das maiores casas religiosas, um templo que envolvia centenas de fiéis e dezenas de pessoas a trabalhar em permanência. Com a Mãe Menininha o Terreiro do Gantois prosperou e cresceu. Abriu as portas aos mestiços e aos brancos. Perante a estranheza dos mais conservadores, perguntava: E pobreza escolhe cor?
Emanava humilde encanto em todas as direções e com a personalidade da Mãe Meninina não vinham só os pobres. As elites aproximavam-se. Numa altura em que a lei registava o preconceito e a repressão das religiões africanas, a Mãe Menininha foi um dia falar com o comandante da polícia e simplesmente, convidou o homem para vir assistir e ver com os seus proprios olhos uma festa no Terreiro e que ali não havia mal. Falava, dava concelhos e ajudava todos. Incluindo os bandidos de Salvador, muitos deles seus amigos de infância. Foi o marido da Mãe Menininha, Álvaro Oliveira, que sendo advogado e profundamente envolvido na luta pela liberdade, quem levou o Jorge Amado ao terreiro do Gantois, e de quem depressa se tornou amigo e camarada do jovem escritor, também ele interveniente político. Corria o início dos anos 30.
Nas décadas seguintes, a influência, o respeito e o carinho pela Mãe Menininha, alastraram pela cidade de Salvador, pelo estado da Bahia e pelo país-continente que são os Estados Unidos do Brasil. Com aquele jeito simples, e sorriso aberto, dizia todas as verdades sem ofender mas também sem dar aso a discórdia. Cativava desde os mais simples e humildes aos mais sérios e intelectuais. Todos iam ao Gantois para ouvir concelhos, opiniões ou apenas para pedir a Benção e ouvir as palavras doces e sábias da Mãe Menininha. Nos anos sessenta, quando a ditadura militar se instalou no Brasil, já a Mãe Menininha era uma instituição. O Terreiro do Gantois tinha as portas abertas a quem o procurasse - a toda a gente. E isso incluía as esposas dos senhores comandantes militares, representantes da ditadura no estado da Baía. Enquanto os maridos se entretinham a comandar torcidários e torturadores, algumas dessas senhoras de alta-roda frequentavam o Terreiro do Gantois mais que não fosse, para poderem dizer em São Paulo ou no Rio, que conheciam e que eram íntimas da Mãe Menininha. E a Mãe de Santo recebia-as com o mesmo carinho que recebia as vendedoras de acarajé, as trabalhadoras domésticas ou as prostitutas.
Foram anos de chumbo, de repressão e perseguição a todos os contestatários, sobretudo os comunistas. Em 1964, um destacado militante comunista, na eminencia de ser preso, procurou a ajuda do Álvaro Oliveira, marido de Mãe Menininha. A Mãe de Santo, não só abriu as portas do Terreiro, mas inclusivamente, permitiu ao clandestino, ficar a dormir e a comer na zona mais secreta e reservada do templo. Falos-vos do peji nonde vive o venerado Otá da Oxum. (Quem sabe o que é que se cale e quem não sabe é porque não tem de saber).
O comunista esteve escondido no peji durante algumas semanas. Durante o periodo que lá esteve, era a Mãe Menininha quem ia pessoalmente levar-lhe a comida. Já velho, contava ele que todas as noites conversavam. Não de politca mas de historia, que era uma das paixões da Mãe de Santo.
Claro que os militares não arriscaram nunca uma busca no Terreiro do Gantois. Ninguém queria contrariar aquela senhora que tratava governantes, intelectuais e povo anónimo por "meu filho".
Sempre naquele sorriso terno, de forma carinhosa mas sem deixar margem para dúvidas sobre a necessidade imediata de ser obedecida. Conta a Maria Bethânia, que foi ela quem levou ao Gantois o poeta e diplomata Vinicius de Moraes. Quando a Betania chegou com Vinicius ao Terreiro, a Mãe Menininha mandou ir buscar uma cadeira para sentar o Vinicius.
A cantora, na altura uma jovem que trazia a rebeldia à flor da pele, contestou: -- Mas minha Mãe, aqui todo o mundo senta na esteira, só a senhora senta na cadeira, porque é que vamos buscar uma cadeira para o Vinicius, porque é homem é? A mãe Menininha sorriu o seu sorriso e respondeu que a cadeira não era para sentar o Vinicius, era para sentar todo o peso do amor que a poesia dele trazia.
Vinicius riu e abusado perguntou se podia acender um cigarro...mas bastou o silencioso não no olhar da Mãe para o poeta manter o tabaco no bolso. A Mãe de Santo gostava muito de ver televisão. Já nos anos setenta, ela própria setentona, assistia obrigatoriamente à novela das oito. Dizia que gostava de se distrair com as estórias de mentirinha misturada com verdade, porque a vida toda teve de tratar de estórias de verdade misturadas com mentira.
Nos últimos anos de vida, saía pouco, mas o Terreiro era um corropio de personalidades para verem e falarem com a Mãe Menininha. Uma das pessoas mais próximas ter-lhe-à perguntado,no que é que durante todos aqueles anos a ser Mãe de Santo, ela tinha tido mais dificuldade. -- Minha filha, eu não tenho dificuldade, sempre tive de comer, onde dormir e cheguei a velha... mas o que me custa mesmo, é ter de tratar bem quem eu não gosto!! É. Custa mesmo filha! Mas fazer o quê?!?!? Eles coitado não tem culpa de eu não gostar deles... todo o mundo precisa de um acalento!
