"as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental". Vinicius de Moraes.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Jeanne Barret -- O segredo das buganvilias
Nascida e falecida no signo do Leão. A Jeanne cresceu e viveu selvagem como uma leoa e indomável como uma buganvília.
Foi no ano bissexto de 1740, tres semanas depois do bebé que viria a ser o Marques de Sade ter gritado pela primeira vez. Ao contrário do Donatien de Sade, a bebé Jeanne nasceu na mais completa miséria na escura, suja e empobrecida Borgonha dos camponeses sem terra. Os pais eram assalariados rurais e ambos analfabetos.
Os primeiros vinte anos da sua vida, são muito confusos. Ficou órfã de ambos os pais antes dos dez. Deambula pela Borgonha. Por caridade e imunda lascívia é recebida por um padre que a ensina a ler nas horas vagas dos abusos. Ai pelos quatorze foge do padre, já que é para ser abusada, ao menos que ganhe algum dinheiro com isso. Numa taberna onde parava conhece um cavalheiro letrado, muito mais velho que ela e que lhe dá conhecer os enciclopedistas. É apadrinhada por uma velha que quando deixou de se ter idade para se prostituir começou a curar doenças venéreas e outras através das ervas. Chamavam bruxa à velha, e aprendiz de bruxa à miúda.
Terá sido o amigo e cliente cavalheiro que a levou para a casa dos Commerson. Já tinha mais de vinte anos e não queria ser puta o resto da sua vida, sabia ler, escrever e tratar doenças através profundo conhecimento sobre plantas e mezinhas.
O cavalheiro que a levou, contou um historia triste de uma moça de boas famílias que sabia ler e escrever e que tinha ficado sem ninguém no mundo. Fica a trabalhar como criada e ama nessa casa de pequeno-burgueses. A patroa era irmã do padre e todos gostavam muito da Jeanne. O seu dinamismo e inteligência, aliada a gravidez complicada e um certo feito contemplativo da dona da casa, empurram Jeanne. Em pouco tempo passou de criada e ama a governanta.
Em 1762 a patroa morre num complicado parto e a partir daí a Jeanne assume definitivamente as rédeas da casa. O seu trabalho, vai muito alem de gerir a contabilidade doméstica, garantir as refeições a horas e educar a criança que não chegou a nascer. Planta um jardim de ervas e organiza um herbário. trata dos nervos de uma tia velha e da depressão da viuvez do notário. Para a velha usa ervas, para o patrão terá usado de outros truques de magia. Dois anos depois da gravidez mortal da dona da casa, é a Jeanne quem engravida.
O escândalo é proporcional ao tamanho da vila e à dimensão pequeno-burguesa da família do padre. A Jeann convence o patrão a mudarem-se para Paris onde os escândalos se dissolvem nas luzes e no perfume das ruas. Continuou no papel de sua governanta e sempre que pode foge para as bibliotecas onde lê tudo sobre plantas. O filho, nasceu morto em Dezembro de 1764.
É nesse ano de 1764 que o rei Luis XV nomeou para dirigir uma expedição de circunagevação, o navegador, herói de guerra e mosqueteiro, Louis Antoine de Bougainville.
Em 1765, Commerson foi convidado a participar da expedição de Bougainville como contabilista e notário. Homem fraco física e emocionalmente, dependia da assistencial permanente da Jeanne. Decidiu recusar o convite. O dinheiro dava jeito mas não era tudo. Não se sentia com capacidade de se afastar da sua Jeanne. E as mulheres eram proibidas a bordo...
Mas a Jeanne não partilhava da opinião do patrão e teve a tal ideia que a cuspiria definitivamente no pergaminho da história do machismo náutico.
-- Vais sim, e eu vou contigo! Vou vestida de homem, e levas-me como criado.
Não foi difícil de convencer o patrão. Não era difícil para ela convencer quem quer que fosse. Persuadiu-o a ir na viagem, e a redigir um testamento. O testamento garantia, no caso da morte de Commerson", um montante fixo de 600 libras, juntamente com os salários atrasados e os móveis do meu apartamento em Paris.”
Jeanne e Commerson juntam-se à expedição de Bougainville no porto de Rochefort nos últimos dias de 1766. Seguem no Étoile .
O frágil Commerson esteve doente a viagem quase toda. Primeiro enjoo depois uma ferida na perna que ulcerou. A Jeanne a cuidar dele. Foi neste trabalho como “enfermeiro” que teve contacto com o botânico a bordo. O especialista em plantas percebeu que o imberbe criado do notário sabia muito sobre plantas. Sabia mais ainda do que ele próprio que era botânico diplomado...
Quando chegaram ao continente americano, era a Jaenne com o nome de Baret quem saia a recolher plantas e a catalogar os exemplares recolhidos.
No Rio de Janeiro que na altura era um local muito mais perigoso, o padre abordo de Étoile foi assassinado. O vírus do medo contaminou todos na expedição. Commerson foi oficial e convenientemente confinado ao navio enquanto sua perna curava.
Jeanne era imune ao medo, e por isso, no seu papel de Baret continuou a sair diariamente para recolher plantas. Segundo o diário de bordo, foi ai, no Rio que Baret recolheu, uma espécimes de trepadeira desconhecida, a que chamou de buganvília em homenagem ao capitão Bougainville.
Mas já se sabe que num navio não há segredos.
A coisa descobriu-se e foi tema de todas as conversas. Mata, esfola, enforca ou atirem ao tubarões, gritava-se nos trópicos.
Protegidos pelo capitão Bouganville, Commerson e a sua “governanta” saem nas ilhas Mauricias evitando complicações para a marinha. Deambulam pelas Mauricias e vão até ao Taiti onde Commerson acaba por morrer, deixando a Jeanne numa situação financeira complicada.
Mas a Jaenne tinha feito amigos na Marinha francesa que oficialmente reconheceu seu excelente trabalho como botânica e lhe arranjou uma pensão.
Com o dinheiro da sua pensão, voltou às Mauricias e abriu uma taberna, pensão e bordel e em Port Luis, a capital.
Depois, encantou-se por um marinheiro misterioso e voltou a casar.
Voltou para Paris com o seu novo marido onde recolheu a herança do testamento do Commerson. Viveu para contar a sua história que mostrou ao mundo a beleza indomável das buganvilias e a força de uma mulher.
