"as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental". Vinicius de Moraes.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Madame Laveu -- Dona da Cidade
“Andava pelas ruas de New Orleans, como se fosse a dona da cidade”. Assim escreveram sobre ela.
E era. Marie Laveau, Madame Laveu era a dona da cidade. Este foi o seu maior crime. Foi o seu pecado definitivo e a secreta justificação para tudo o que foi dito sobre ela desde o preciso instante em que fechou definitivamente aqueles olhos escuros que derramavam olhar incendiado.
Nasceu livre, viveu livre e morreu livre. Filha de gente livre. O pai, era um negociante mestiço, bem sucedido, filho de uma negra e de um branco. A mãe, também ela livre, era filha e neta de sacerdotisas. A avó terá vindo escravizada da Nigéria por volta de 1740 e mal chegou, com o seu trabalho de feitiçaria comprou a sua liberdade. A partir daí os seus descendentes nasceram todos eles livres.
A jovem Marie cresceu assim num ambiente de uma certa prosperidade económica entre os negócios de tecidos do pai e os trabalhos de magia da mãe e da avó. Era uma menina inteligente e rebelde. Fez-se mulher depressa. Já vos falei dos olhos, que incendiavam quando olhavam, tinha também um palminho de cara e um corpinho que não repelia.
Casou-se antes dos vinte e viveu três anos com um rapaz igualmente bem de vida e mestiço como ela. Viveram juntos, depois a Marie enviuvou com um património confortável. Tinha pouco mais de vinte anos e por onde passava já pisava como dona de si.
Envolveu-se então com o jovem Cristophe Glapion , cavalheiro francês de fina figura... recém chegado e como todos os franceses que iam para New Orleans no século dezanove dizia que era nobre... O cavalheiro tinha um nome sonante, beleza europeia e o charme de falar sempre em francês de França. A Marie, conhecia a cidade, tinha dinheiro e sabia quem era quem. Coabitam juntos alguns anos para escândalo da burguesia branca e conservadora. O casal vivia na casa da Marie, que se recusava a sair de onde estavam os altares herdados da sua avó sacerdotisa. O Cristophe, não se importava de partilhar a casa com os espíritos africanos, desde que pudesse partilhar a cama e a mesa com a Marie.
Quando a Marie se cansou do francês, arranjou-lhe um casamento com uma branca anglo-saxonica, bonita, loura e sardenta que alem de ser herdeira de uma considerada fortuna, precisava de casar rapidamente por razões que não interessam aqui. A Marie cozinhou o casamento e abençoou a união. Ficou amiga dos dois até ao fim da vida de ambos.
Nos seus trinta e muitos, a Marie passou a viver sozinha. Oficialmente era cabeleireira. Ia a casa das famílias poderosas da cidade, famílias, brancas, mestiças e negras. Ia pretensamente para pentear os cabelos das senhoras. Se calhar até sabia alguma coisa de cabelos, mas ganhava a vida, e ganhava bem a sua vida, lendo cartas e fazendo feitiços. Fazia previsões, ajudava em casos de amores. Receitava ervas para as senhoras não engravidarem e ajudava as adolescentes reconquistar fama de virgens recatadas. Também fazia trabalhos mágicos para ajudar os cavalheiros nos negócios. E convocava espíritos para decidir causas em tribunal. Políticos, banqueiros, e donas de casa, todos recorriam aos seus serviços. Tal como carroceiros, prostitutas e trabalhadores indiferenciados. A todos atendia. A todos cobrava conforme a bolsa.
Na sua casa celebrava cerimónias de referencia aos espíritos da natureza e aos ancestrais tal como aprendera com a sua avó. Cultuava os voduns.
Apesar de toda a cidade ser sua cliente das previsões e dos feitiços, apenas os negros, mulatos e brancos marginalizados participavam nas suas cerimónias que foram crescendo e derivando públicas. Dançavam, rezavam, comiam e bebiam celebrando.
A parte branca da cidade, nunca aprovou nem aceitou, as festas religiosas na zona da Praça do Congo onde a Marie morava...
Os padres católicos, pastores protestantes e jornalistas, lançaram algumas campanhas contra “A rainha do Vodu”... Madame Laveu sorria, e dizia que o vento que soprava quando ela pedia. Que o vento levava todos aqueles nomes para o fundo do mar ou para o escuro das matas.
E continuou a celebrar a vida, os antepassados e a natureza. E continuou a cantar, a dançar, a comer e a beber pelas ruas da cidade que era sua. A sua inteligência superior, não precisava de artes mágicas, para esmagar opositores por mais poderosos que fossem. Quando alguns jornais locais tentaram calunia-la, ela organizou-se e fez um hospital para as vitimas da epidemia de febre amarela que matava em todo o estado. Calaram-se os jornais. Quando os padres católicos se associaram aos protestantes para proibirem o vodu nas ruas, a Marie com o apoio de juízes seus clientes em segredo, criou uma liga que visitava as prisões dava conforto a todos os presos... Os padres passaram a participar da obra de caridade organizada pela Madame Laveu.
Morreu com mais de oitenta anos. Em 1881.
Morreu cansada e feliz depois de uma festa rija que acabou de manha. Adormeceu pela hora de almoço e não voltou a acordar.
O povo da cidade, fez-lhe a devida homenagem tocando, cantando e dançando no cortejo fúnebre.
As elites brancas passaram a chamar-lhe bruxa. Os cronistas da cidade escreveram o pior que conseguiram sobre ela. Que tinha uma cobra como animal de estimação. Que escolhia os amantes por capricho, sem se preocupar se eram casados ou solteiros, novos ou velhos, brancos, mestiços ou pretos. Que matava com alfinetes espetados em bonecos. Que fazia abortos às prostitutas. Que enfeitiçava maridos. Que desencaminhava meninas causadoras para o caminho do pecado.
Escreveram tudo o que sabiam, ouviram dizer, inventaram, desejavam e temiam. Também eles contribuíram para que nunca mais fosse esquecida a Marie Laveu.
Ainda hoje, o jazigo onde descansa a Madame Laveu é motivo de peregrinação. Não há americana branca, negra ou mestiça que quando visita New Orleans não vá ver a Marie. Chegam vestidas de turistas com colares ao pescoço, riem nervosas, fingindo não acreditar. Tiram fotografias e deixam flores e pedidos de amor, amassados naquela mistura de esperança e medo que fertiliza as fantasias mágicas e os sonhos.
A resposta da Madame Laveu é incerta, certo, certinho é que passados estes quase cento e cinquenta anos depois da sua morte, na cidade que a Marie pisava como se fosse dona, ainda hoje, todos a temem!
Vejam lá o medo que mete uma mulher livre.
