quinta-feira, 16 de abril de 2020

Mata Hari -- De Cabeça Perdida









A Margaretha nasceu sem cheta numa Holanda industrializada na segunda metade do XIX. O pai era chapeleiro e a mãe era costureira. As burguesas, clientes do pai, com os seus chapéus elaborados alimentaram as suas fantasias de subir na vida. Aos dezasseis anos, como não havia redes sociais, correspondia—se por carta com oficiais da marinha destacados no Império colonial Holandês. 
A correspondência deu frutos. Ainda não tinha vinte anos, antes do século acabar e casou—se em Amsterdão com um oficial da marinha quase trinta anos mais velho. Seguiram juntos para Java, onde o marido estava colocado. O homem, entre os copos, a arrogância coloniais e o crónico mau feitio, fez—lhe duas crianças, um rapaz e uma rapariga. Na sua brutalidade alcoólica alimentada pelo racismo, espanca e quase mata um rapazinho que servia lá em casa. A mãe do miúdo, enfurecida, envenena a comida e o rapazinho filho do casal morre. O militar, no seu luto agravado e culpa pela perda do primogénito, fica mais militar, mais bêbado e mais violento. A Margareth, cai em depressão. Tem à volta de 25 anos, e sai da fossa quando conhece um guru javanês, que lhe ensina dança tradicional e outros truques feitos com o corpo. Truques daqueles que agradam não só à vista mas também ao tacto, externo e interno. 
O imprestável marido bêbado, deu—lhe a ressaca para a moralidade e evocando o bom nome da marinha holandesa, divorcia—se da Margareth, fica com a custódia da filha, dá—lhe meia dúzia de tostões e manda—a no barco recambiada para a Holanda. 
Acontece que o barco antes de chegar a Roterdão, e depois de passar o Suez, aporta em Marselha. Farta de mar, vendo os pompons nas boinas dos marinheiros franceses, pega nos seus patacos, nas maletas que trazia e deixa para trás o bidé que é o Mediterrâneo e se faz à estrada para Paris. 
Chegada às Luzes, instala—se. Antes de pousar as malas, muda de nome: Mata como a mãe, uma rainha Javaneza e Hari por parte do pai de quem não revela muito mas deixa entender que pertence à família real inglesa. Que interessa a veracidade da história quando uma mentira simples lhe fica tão bem com o tom de pele e as pernas compridas!!! 
Paris rende—se. 
Rende—se, submete—se e apaixona—se. Uma morena sexi, com menos de trinta anos, descomprometida, com competências nas artes da dança e do amor. Assim, vestida como se estivesse despida. Acabadinha de chegar do mais misterioso Oriente. Tinha tudo para dar certo. 
E quase deu. 
Os patacos chegaram para se apresentar. Depois acabaram.... Mas que importância tem isso? os convites para dançar em requintados salões de palacetes privados, eram acompanhados por cachês que valiam mais que o próprio palacete.
E que importância tem o cachê pago, quando as cadeiras se disputavam por fortunas? 
Passaram os anos rápido e a morena já não tem trinta anos. Ganhou peso que lhe dificulta a dança mas que não afecta, antes dá consistência à outras artes performativas. 
Não digo que se prostituisse. Mas aceitava dinheiro e presentes dos homens importantes com quem se deitava. 
Entretanto, para estragar a coisa, rebenta a puta da guerra, essa sim prostituta que fodeu o mundo. Por isso lhe chamaram a Mundial. A Primeira, dizem eles. 
À Margareth, no início, passa—lhe ao lado a guerra.  
Envolve—se com o chefe da Polícia alemã por dinheiro, com um militar do ministério do interior francês por interesse e com um desertor do exército Russo por amor e tesão. 
O alemão sente—se usado e faz as contas ao que gastou. O francês, sente—se corno e planeia vingar—se. O russo , mais novo sente—se controlado pela amante, mas é preciso alguém que pague as contas. O alemão e o francês gritam quase simultaneamente: é  puta de uma espiã. 
Juízes velhos e entristecidos por só a conhecerem dos cartazes, assinam a ordem de detenção. 
Mandam soldados prende—la ao seu apartamento. 
Assustada, mas pronta para lutar com as suas preciosas armas, pede para lhe darem alguns minutos para mudar de roupa. Volta do quarto vestindo saltos altos, perfume e uma garrafa de champanhe na mão... 
Mas os soldados, ao contrário do mais sensato a fazer, recusaram o trago e o convívio. 
O chefe da brigada escreveu todos estes detalhes no relatório que foi lido em tribunal e que serviu para a condenarem. 
No tribunal, em sua defesa disse: — Puta? Sim. Espiã? Nunca. Se há coisa que nunca me interessou foram essas vossas guerras, brincadeiras próprias de velhos que deixaram de conseguir brincar com mulheres. 
Por dizer a verdade, fuzilaram—na.
Foi em outubro de 1917. O seu corpo, sem ninguém que o reclamasse, foi retalhado na faculdade de medicina em Paris. A sua linda cabeça foi embalsamada e levada para o Museu de Criminologia de França. 
Mais tarde, em 1958, num estranho assalto roubaram a cabeça da Mata Hari. 
Perdeu—se a cabeça e ficou o corpo que tantas cabeças fez perder .