quarta-feira, 10 de junho de 2020

Bonita com o Sol em Peixes e ascendente em Escorpião

Nasceu com o sol em Peixes, no dia internacional da mulher. Oito de março de 1911, precisamente doze dias antes do grande incêndio em que os donos das fábricas mataram aquelas cento e tal operárias em Chicago. A menina de que vos falo nasceu milhares de quilómetros a sul e sobre o sol quente que seca a terra e os homens. A anos luz de distância das fábricas que soltam fumo e produzem lucro. Quinhentos quilómetros afastada de Salvador, capital e da Bahia e cidade do Mundo. Nasceu na Malhada de Caiçara, arredores de Glória, interior remoto e desviado do sertão baiano, ali juntinho à divisão com o estado de Alagoas. A mãe chamava-se Joaquina Conceição Oliveira, Oliveira era do marido, mas todos a conheciam por Dona Déa. A filha, foi chamada de Maria da Déa, Maria de nome próprio e da Déa, por parte da mãe. Em 1926, já a Maria tinha corpo e desejos de mulher, e toda a beleza de uns quinze anos saudáveis de quem cresceu no campo. Porque o clima é propício às tentações do tinhoso e a moça era assanhada de resposta e de olhares, a Dona Déa decidiu casar a filha antes que fosse tarde. Disponível estava um primo que, sendo uns dez anos mais velho, tinha como ofício fazer e consertar sapatos. Além da profissão de sapateiro, o Zé de Neném, assim se chamava o primo, tinha também o hábito de se embebedar com cachaça e gastar o que ganhava pagando momentos de convívio com raparigas pobres que viviam de se prostituir. As famílias quando combinaram o casamento, tinham esperança que com uma moça bonita na cama, o Zé se deixasse de putas e ficasse mais tempo em casa. A Maria da Déa, além de bonita, já vimos que tinha vontade própria. Casou com o primo mas não se sujeitou à sina de ficar mulher-casada, queria ser apenas mulher. Com feitio distraído e sonhador dos nascidos em peixes, mas com os repentes violentos dos escorpiões, seu marcador ascendente. Como seria de esperar, o casamento não tornou mais caseiro o Zé, nem mais recatada a Maria. Foi um relacionamento conturbado, dizem os historiadores que é malta que não gosta de escrever sobre zaragatas e cenas tristes de violência doméstica. O Zé de Neném, além de putanheiro e bêbado, quase sempre, às vezes ainda lhe dava para ser violento. A Maria defendia-se como podia e defendia-se bem. Mulher do nordeste às vezes vira bicho e quem vai à guerra dá e leva. Farta de ser abusada e negligenciada pelo marido, iniciou um caso extraconjugal, coisa que acontece com frequência. Envolveu-se com um comerciante, João Maria de Carvalho, que lhe oferecia sapatos, roupas e outros presentes... A Maria gostava de ser bem tratada e de se sentir bonita. O sapateiro quando ficava sóbrio desconfiava dos sapatos, dos vestidos e dos cornos, dizia que a matava. Depois bebia e aquilo passava-lhe. Mas, se as coisas não tivessem acontecido como aconteceram, aquilo acabava mal. Não que tenha acabado bem. Mas acabava mal e mais cedo. Naqueles anos violentos, deambulava pelos sertões da Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas o grupo de Lampião, Virgulino Ferreira da Silva que era assim que o homem se chamava. Ladrões nómadas e justiceiros contra o feudalismo dos coronéis senhores absolutos num mundo de gente pobre sem justiça nem nada para roubar. Quando a Maria viu o Virgolino apaixonou-se pelo moço calado e de óculos, que apesar da atitude sempre discreta, emanava poder. Ele encantou-se com a beleza da cabocla, sangue cruzado de índia, branca e negra naquela cor de cobre e fogo que as deusas e as trabalhadoras rurais têm no norte do Brasil. Tornaram-se amantes porque se amaram desde o primeiro dia em que se encontraram. Para trás ficou o sapateiro, o cheiro a cachaça e os olhos negros. Para a frente toda uma vida de aventuras. Passariam nove anos juntos. Nove intensos anos que perduram numa história de amor para sempre contada. Ele, o Lampião, era um rei sem coroa com o seu bando de cangaceiros como corte. Ela, rainha nos acampamentos e senhora absoluta do coração do Lampião, seu rei proclamado. Na extravagância dos roubos e dos saques, apareciam tesouros que a Maria arrecadava. Gostava de se vestir com vestidos de seda, luvas com estampas florais, sandálias e botas de cano curto. Preciosidades das senhoras e damas das cidades que uma menina do campo nunca sonhara um dia vir a ver, quanto mais a puder usar. Também gostava de joias pregadeiras que dispunha na faixa de couro da sua espingarda. Uma costela que devia ser de cigana, levá-va-a a enfeitar os cabelos com fitas onde cosia moedas, de preferência de ouro ou de prata. No pescoço e nos pulsos, perfumes. Ao lado do seu companheiro, no calor da batalha, vestia couro como todos os outros. Mas sempre que havia ocasião para isso, gostava de se vestir bonita e de se enfeitar. A vida no cangaço era difícil, mas a Maria não conheceu outra vida que não a difícil. Pelo protagonismo e magnetismo do companheiro, às vezes surgiam crises de ciúmes. Mas os relatos contam que se tratavam ambos com paciência e carinho. Em 1931, viajaram para uma fazenda escondida. Um lugar num paraíso verde onde a água corre e os pássaros cantam. Afastados da guerra, que era o dia-a-dia, para desfrutarem de uma lua de mel que nunca tiveram. Foram os dias mais felizes de ambos. Terá sido nestes dias felizes que a Maria se engravidou. O casal teve uma filha, batizada como Expedita Gomes de Oliveira Ferreira. As regras não escritas, mas escrupulosamente cumpridas do cangaço, determinavam que a criança nascida no mato, fosse entregue para ser criada por um casal de amigos sedentários. Assim fizeram eles. Entregaram a menina a um casal de pequenos criadores de gado. Diz a lenda que a Maria, amarrou um pano sobre as mamas cheias para secar o leite e para que não se caíssem. Cavalgava e chorava de dores no peito sem fazer um som. A partir daí passou a contar os dias para voltar à fazenda e poder ver a sua filha. Foram seis anos de idas e vindas, umas vezes com Lampião, muitas vezes sozinha. Foi numa manhã fria de finais de julho que tudo se terminou. Sem aviso prévio, como quase sempre acontecem as coisas definitivas. A Maria tinha-se levantado e começado a preparar o café, quando percebeu pelo nervosismo dos cavalos que havia gente estranha nas proximidades. O exército atacou mortífero. Usaram uma metralhadora. Não queriam fazer prisioneiros. O combate foi rápido e desigual. O homem que amava foi dos primeiros a cair. O Lampião estava habituado a fazer emboscadas e aos combates em campo-aberto e a cavalo, não sabia como reagir quando foi ele o emboscado. De pé e armas na mão caiu morto. A Maria tentou fugir. Foi baleada duas vezes, primeiro nas costas, depois à queima-roupa no abdómen. O cabo José Panta foi quem disparou. Foi este homem quem a decapitou. Com a Maria ainda viva cortou-lhe a cabeça. Estava a cumprir as ordens de levar as cabeças de todos os cangaceiros para serem exibidas na cidade. Assim fizeram os da volante. Foi ainda este cabo da guarda quem pela primeira vez lhe chamou Maria Bonita. Nem a família nem o bando de Lampião a tratavam por Maria Bonita. O sobrenome de Bonita, só se difundiu depois da sua morte. Tinha 27 anos.

terça-feira, 26 de maio de 2020

A língua da Chavela

Nasceu em San Joaquín de las Flores, Costa Rica. Foi registada como Isabel Lizano. María Isabel Anita Carmen de Jesus Vargas Lizano, para ser completo e preciso. A vida e a vontade própria fizeram dela Chavela Vargas. Filha de camponeses, órfã aos quatorze vendeu toda a fortuna da família que consistia em duas vacas e foi para o México. Trabalhou como empregada de balcão numa taberna, vendeu chapéus numa loja, vendeu o corpo nas ruas, vendeu o corpo como modelo para fotografias, vendeu textos para os jornais, vendeu revistas e jornais quando em vez de lhe pagarem em dinheiro lhe pagavam em material impresso. Depois de começar a vender a sua voz em canções, não voltou a ganhar a vida de outra maneira. Cantou até morrer. Sempre que subia a um palco, fazia-o com medo. Depois cantava e o medo desaparecia por magia. Cantava e chorava. E toda a gente chorava nos concertos dela. Dizia de si própria que não era politica. Mas nunca se enganou no seu posicionamento politico. Nunca esqueceu o meio de onde veio. 
Viveu muitas vidas. Umas mais doces outras mais amargas. Todas elas cheias a transbordar. Foi nos anos quarenta, logo a seguir à guerra, que José Alfredo Jimenez, El Rey, a “descobriu”. Viu a moça cantar num obscuro palco de cantina, vestida como um camponês, de calças e poncho. Na voz toda a dor e cor do México verdadeiro. A voz e maneira de cantar da Chavela, assentavam que nem uma luva nas letras e melodias do Rey. Ficaram juntos uma eternidade de noites tequilhadas. Cantavam e bebiam até cair. Depois acordavam, levantavam-se e cantavam e bebiam mais. Foi assim durante uns tempos. 
Dois corações conservados em álcool a uivar à lua. 
Dois fígados cansados de destilar tanta emoção. Terá sido depois deste período, que o José Alfredo fez um esforço para se libertar do álcool. E da Chavela. Esforço feito em vão, pois continuou amigo e confidente da Chavela e da tequilha até à hora da sua prematura morte. 
A Chavela nesta pausa de secura do Rey, terá conhecido o Diego de Rivera e a Frida Kahalo. Com o Diego, aprendeu arte e fundamentou a sua consciência politica com argumentos científicos e sociais. Com a Frida, viveu um amor e uma paixão proibida pintada na história. 
Com ambos bebeu. 
A carreira da Chavela segue empurrada por uma certa intelectualidade de esquerda e a sua voz vai passando na rádio. Continuava vetada a sua entrada às maiores salas de espectáculos. A cantora não queria usar vestidos e saltos altos e nas salas grandes não queriam uma cantora masculinizada a cantar e a chorar rancheiras. Apesar do boicote associado ao escândalo que era a existência permanente e diária da Chavela, a sua voz criou o reconhecimento necessário. 
Entrados os anos cinquenta, aproveitou a explosão do turismo americano e passou a cantar em Acapulco. 
A sua vida sexual da Chavela, os seus consumos e a sua roupa, no ambiente de festa “very tipical” dos resorts da classe média alta dos gringos, passavam despercebidos com o barulho das luzes. A voz da Chavela não. A voz da Chavela não passava despercebida. Foi a voz que a levou ao casamento da Elizabeth Taylor com o Michael Todd. Uma das mais importantes festas do seculo XX em Acapulco. 
A Chavela foi não como convidada, foi como trabalhadora, contratada para cantar. Na manha seguinte à badalada boda, no dia três de Fevereiro de 1957, acordou na cama com a Ava Gardner. Dizem que foi por causa do escândalo dessa manhã, que o Frank Sinatra se separou definitivamente da Ava. Uma coisa eram as traições com outros actores ou famosos, outra coisa era ser encornado por uma cantora mexicana, vestida de camponesa e que a cia dizia que era comunista. O divorcio da Ava e do Frank saiu nesse ano. 
Acabada a época estival em Acapulco e enterrados os amores de verão nasnareaisnda praia, a Chavela voltou para a Cidade do Mexico onde escandalizou e apaixonou a sociedade católica e conservadora dos finais dos cinquenta e inicio dos anos sessenta. 
Aconteceu-lhe então a tragédia de um grande amor. Numa festa elitista  nos arredores caros da Cidade do México, conheceu uma jovem, amante de um senhor muito importante na industria de musical do México: Emilio Azcárraga. Emilio era casado e muito bem casado na alta-burguesia mexicana, mas apaixonadíssimo por uma jovem modelo que gostava de exibir por todo o lado. Acontece que a bela modelo de curvas perigosas, se encantou pelo hálito de cigarros negros e tequilha da língua da Chavela Vargas. Nessa fatídica noite, a modelo deixou pendurado o manda-chuva da industria musical para se ir deitar sabe-se lá onde com a cantora. 
Foi a partir daí o todo-poderoso empresário cortou completamente a carreira musical da Chavela que deixou de poder entrar nas gravadoras e em salas de espectáculo decentes.
Como nas cantinas nunca a proibiram de entrar,  desceu em espiral até ao fundo de todas as garrafas. Bebeu todos os copos. Nos anos setenta ainda cantou profissionalmente em meia dúzia de sítios. Mas nos anos oitenta vivia da solidariedade de amigos e desconhecidos. 
Foi no ano de mil novecentos e noventa que numa miserável rua da cidade do Mexico, um velho amigo a encontrou encharcada e quase moribunda, tinha setenta anos. O amigo, percebeu que era preciso ajuda-la. Mais do que dar-lhe dinheiro para a próxima garrafa, que era isso que ela pedia, era preciso levantar a Chavela do chão. Levou umas semanas a convence-la, mas meteu-a no carro e seguiram para norte em direção ao deserto. Deixou-a uma semana com os índios. Os xamanes deram-lhe a beber poyote e celebraram todos os rituais necessários para que voltasse a nascer. 
 O milagre aconteceu. 
A Chavela voltou a nascer. Deixou de beber e continuou a cantar. No ano seguinte, o Pedro Almodover “descobriu-a” num velho vinil e levou a sua voz para o cinema. “Piensa em mi” cantou para o mundo. 
 De noventa e um até dois mil e doze, não parou. Foi o Pedro Almodovar quem a trouxe para Madrid, onde viveu num lar os ultimos vinte anos da sua longa vida de noventa e tres anos. 
Cantou até ao ultimo dia. 
 Dizia que gostava de viver em Madrid porque tinha mais facilidade em conversar com o fantasma do Lorca de quem se considerava irmã espiritual. 
 Poucos meses antes de morrer, numa das frequentes entrevistas, um jornalista perguntou-lhe se tendo nascido na Costa Rica e vivendo em Madrid há quase vinte anos, ainda se considerava mexicana. 
-- Nós os mexicanos, nascemos onde nos dá na puta gana!
Assim era Chavela, a mulher que viveu duas vezes.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

A Bruxa Boa de Ruhamo

Há coisa de cem anos atrás, por volta de 1920, no país mágico de brumas tropicais, lagos e montanhas verdes nascia Zura Karuhimbi. O parto possível de uma menina, numa pequena aldeia remota da região de Ruhamo. Nesses anos, a terra do Ruanda era administrada pelo todo-poderoso reino da Bélgica. Quero dizer que era um rei em Bruxelas que se decidia sobre a terra, a vida, a miséria e a morte dos ruandeses. A família dos Karumbi, ao contrário da maior parte das pessoas da sua aldeia, não eram agricultores nem caçadores. Dedicavam-se às práticas mágicas de cura e adivinhação.Tratavam dos vivos e dialogavam com os espíritos dos Deuses para a promoção do bem estar. A pequena Zura cresceu neste universo e desde pequenina que aprendeu as milenares e secretas artes mágicas. O governo colonial belga carimbou um papel a decretar que os Karumbi eram hutus. Foi nesse ano de 1925, apequena Zura foi registada... teria já feito cinco aninhos espertos,saudáveis e animados. Na lógica burocrática colonial, o governo da Bélgica decidiu dividir a população de Ruanda em dois grupos distintos:Hutus e Tutsis. Criaram até bilhetes de identidade de cores diferentes que diferenciavam os hutu dos tutsis. Os hutus, eram o grupo maioritário. A minoria tutsi era considerada pelos belgas como uma etnia "ligeiramente superior" e, por isso, tinha acesso a trabalhos um bocadinho mais bem remunerado que os hutos, os tutsis podiam chegar  a criados de casa. Como estavam profissionalmente mais próximos dos colonos, tiveram melhores oportunidades de estudo. Falo naturalmente de escolas religiosas edificadas por missionários. A Zura, como huto que era, sempre esteve afastada do domínio colonial e foi crescendo como aprendiz de feiticeira. Depois da segunda guerra mundial, porque era feio os países modernos terem colónias, o Ruanda passou a ser um território “protegido” pelas nações unidas. Mas continuou a ser administrado pelos belgas. A Zura nessa altura era uma valente mulher de vintes e tais, mãe de filhos, já reconhecida como parteira, curandeira, feiticeira. Era a conselheira de todas as mulheres para as horas boas e más. Vinham de terras distantes para se consultar com a Zura. Chegavam para ouvir o que espíritos tinham para dizer através dela. Vinham e traziam os filhos, para tratar de doenças físicas, emocionais e espirituais.  No final dos anos cinquenta, os hutus revoltaram-se. O Rei do Ruanda escolhido pelos belgas , um tutsi subserviente a Bruxelas, foi assassinado. Os tutsis foram caçados pelos hutus que rejeitando o colonialismo, descarregavam nos tutsi as frustrações contra os colonos fugidos para a Europa. São os hutus que fazem a independência e se tornam o grupo étnico no poder. Alheia aos jogos de poder e às caçadas de homens por homens, a Zura continuou a trabalhar no seu oficio de feiticeira. Atendia hutus e atendia tutsis. Quando entravam na casa da bruxa Zura, os homens era meninos à procura de consolo e as mulheres eram irmãs a procurar ajuda. Lá longe em Kigali foram aprovadas outras leis de opressão, humilhação e injustiça. Desta vez a vitima era os tutsis. Os hutus aplaudiram e praticaram a nova lei. A Zura não sabia de leis. Mas via os tutsis a passar a sua porta. Fugiram, primeiro os mais ricos. Depois os pobres. Por fim, os que se atrasavam a fugir, esses fugiram miseráveis. Fugiam para se refugiarem no Uganda e Burundi. Passaram trinta anos disto. Pouco a pouco, os hutsis que fugiram miseráveis e pobres foram regressando para se dedicarem a agricultura. Os hutsis que fugiram ricos ficaram no Huganda...a prosperar e a organizarem-se. Em 1990 começaram os ataques dos tutsis aos postos de um governo corrupto e desestruturado de hutus. Nos anos noventa a Zura era já uma viúva de mais de setenta anos. Tinha filhos, netos, bisnetos. Há muito que não tinha menstruação. As pessoas respeitavam-na porque era uma curandeira velha,com todo o estatuto que isso tem em qualquer parte do mundo de gente sensata. Quando a história descambou no que sabemos. Quando as catanas deixaram de cortar mato e abrir espaço para hortas e passaram a semear morte e destruição, a Zura assistiu a tudo triste e chorou devagar sem pranto, como choram as velhas. Começaram os massacres feitos por meninos assustados e alimentados de ganza e aguardente falsificada. Crianças soldados, comandados por homens maus e viciosos, telecomandado por homens e ricos e cruéis. Os gritos choros e tiros ouviram-se nos arredores de Ruhamo. A velha Zura, fez o que tinha a fazer, consultou o seu oráculo e falou com os seus Deuses para estancar a hemorragia. Os Deuses disseram-lhe que não estava na mão dos Deuses parar aquilo que os homens tinham começado. A Zura compreendeu os Deuses e descompreendeu os homens. Foi nestes dias de agonia que a Zura Karuhimbi se veio a revelar como uma das mais poderosas feiticeiras que alguma vez pisou o chão velho da terra da Mãe África. Nessas semanas amargas do ano de 1994, pelos campos à voltada aldeia andavam os homens e meninos armados e espalhar morte e destruição. A coisa começou na primeira noite da lua crescente do terceiro mês. À casa onde a velha vivia com os espíritos e Deuses, foi chegando gente desesperada. Chegaram muitos. Na sua maioria famílias tutsis, alguns homens do Burundi e até dois ou tres europeus. Fugiam desesperados. Quando chegavam, a bruxa velha consultava o seu oraculo e dizia: entrem. A entrada da casa da velha feiticeira mantinha-se resguardada por cortinas. Entrava quem ela mandava entrar e ficava lá dentro quem ela autorizava. Assim é naquela montanha de África, desde que o tempo tem memória. Lá dentro, no espaço reservado aos Deuses e espíritos, mais de cem pessoas. Foram-se amontoado como podiam. Quando a Lua estava quase cheia, e isto calhou num sábado, chegaram dois jipes e uma camionete todo-o-terreno carregados de armas, fardas e morte. Do lado de fora da casa, instalou-se o cerco do exercito de meninos drogados e infelizes  e homens tristes e maus. Catanas e armas de fogo prontas a matar sem razão mas definitivamente. Um homem maduro e grande, a cheirar a álcool, melhor fardado que todos os outros e de óculos escuros veio falar à velha. Dizia que sabia que havia tutsis na zona e queria que ela afastasse as cortinas para ele passar e para os seus homens-meninos a quem chamava de filhos, revistassem a casa. O homem também era hutu, como ela. Seguramente vinte ou trinta anos mais novo. A Zura Karuhimbi não tinha mais armas para se defender alem da sua magia e do seu ancestral conhecimento e intimidade com os Deuses. Fez o que tinha a fazer. Andou na direcção da porta da casa grande dos espíritos, acocorou-se a frente do homem fardado, afastou os panos e despejou toda a urina que tinha na bexiga enquanto falava baixinho para a terra que molhava. Depois ficou de pé levantou a cabeça para falar com o militar que era uns dois palmos mais alto que ela e disse: -- Esta é a casa dos deuses, aqui vivem e são cultuados espíritos de muito poder e força. Os espíritos que aqui estão são espíritos de paz e de vida, mas se forem incomodados serão espíritos de destruição e morte. O chão da entrada que eu molhei, é o chão sagrado onde moram os deuses. Molhei para não ser pisado, e para te proteger. Tu não queres atrair a morte e a destruição sobre ti. E é sobre ti que cairá a maldição se tu ou qualquer um dos teus homens passar a cortina que separa o dentro do fora. Eu sou uma viúva velha, já vi muitas estações do ano, não sou nova e enérgica como tu... Não me cabe a mim decidir o que deves fazer com os teus homens. Mas é meu dever dizer-te a ti e a todos a verdade das coisas. O militar ouviu com atenção. Depois recuou, falou com os seus concelheiro de guerra e agradeceu à velha o sábio concelho. Deixou uma garrafa de aguardente e uma galinha como presente. Levantaram o cerco vinte minutos depois de terem chegado. Os refugiados tustis continuaram achegar a partir enquanto durou a guerra. Militares hutus voltaram algumas vezes. A velha Zura sempre os recebeu com educação, sempre os aconselhou bem e sempre o fez partir em segurança para todos com a sua magia. Anos depois da guerra os do governo e das nações unidas quiseram dar-lhe uma medalha. Quando lhe perguntaram quantas pessoas passaram por sua casa para saberem quantas pessoas salvou, a velha Zura Karuhimbi disse que nunca pensou nisso, porque sempre esteve entretida com as coisas que tinha para fazer e que o seu trabalho era de curandeira e não de cobradora de impostos. Descansou de uma vida de trabalho em finais de dois mil e dezoito. Quase centenária, deixou saudades naqueles que a conheceram e que ouviram a sua gargalhada que persistia em fazer-se ouvir mesmo nos momentos mais escuros, das noites mais escuras e sem lua nas montanhas verdes do Ruanda.    

sábado, 18 de abril de 2020

Carlota de Matanzas

Chamaram-lhe Carlota à chegada a Cuba. No leilão onde a venderam foi esse o nome registado. Chegou ainda criança vinda da Nigéria. Separam-na da mãe e seguiu para a Matanzas. Foi escrava de casa, mas porque indisciplinada puseram-na no campo a cortar cana. Os braços e as pernas fortaleceram-se e a vontade fez-se de pedra dura. No verão de 1843, ouviram-se os tambores perto de Matanzas, estava aquele calor húmido e luminoso do verão caribenho onde apenas as noticias corriam rápidas e onde tudo o resto parecia acontecer devagar. Os tambores batiam mensagens de liberdade e de luta. Foram os tambores que comunicaram às pessoas escravizadas nas fazendas o que fazer. Organizar e lutar ou então morrer. Lutar ou continuarem mortos a trabalhar nos engenhos de açúcar. As catanas que em Cuba se chamam machetes deviam deixar de cortar cana e passarem a cortaram as correntes, no caminho percorrido entre a escravidão e a liberdade teriam de se cortar também algumas cabeças. A revolta alastrou-se por várias fazendas. De Agosto entrou-se em Setembro e o grupo de auto-libertados cresceu. Em Outubro corriam boatos de ataques eminentes e todas as fazendas. Os administradores fugiram para Havana com as famílias, contratam mercenários e os capatazes armavam-se ainda mais. Foi a 5 de Novembro desse ano de 1843 que em Triuvirato, os homens voltaram as facas de cortar cana contra os seus carcereiros. A fazenda de Triunvirato, propriedade da empresa Triunvirato, era das maiores unidades de produção de cana de açúcar das Caraíbas. Hora e meia depois do por do sol daquele domingo 5 de Novembro de 1843, o voz dos tambores mais uma vez suou nas barracas onde os escravizados viviam. Os tambores diziam que estava na hora de de afiaram os machetes. Chega de parar de cortar cana, diziam os tambores!!! Quando os tambores anunciaram a liberdade, a Carlota dançou. Quando os capatazes correram como ratos assustados, a Carlota sorriu. Quando os homens armados de espingardas e pistolas começaram a matar indiscriminadamente para recuperarem a fazenda e esmagar a revolta, a Carlota lutou. Menos de uma hora após o inicio dos combates já Carlota dirigia as operações através da Casa-grande. Era preciso alargar a liberdade às outras fazendas à volta. Após o sucesso de Triunvirato, caiu a fazenda de Acana. Várias centenas de trabalhadores rurais escravizados rebeldes se juntaram à luta. Continuaram os tambores a cantar a liberdade. A Carlota que não tinha razões para ficar em Triunvirato. Seguiu para a fazenda de Santa Ana, depois Guanábana e Sabanilla del Encomendador. O exercito de homens livres dispostos a tudo continuou a avançar. Seguiram para as fábricas de açúcar, caíram então os engenhos Concepción, San Lorenzo, San Miguel, San Rafael. Depois, foram os os cafezais e fazendas agropecuárias da zona de Matanzas. Mais tarde seria Havana, cantavam os tambores de pele batida. Quando os tambores se começaram a ouvir no Paseo do Prado, o os comerciantes ricos e burgueses do Vedado rezaram por um milagre. Rezaram, juntaram dinheiro e mandaram telegramas assustados e alarmistas. Esperaram algumas semanas e o milagre chegou fardado, de botas cardadas a cheirar a tabaco e a suor que é como cheiram as camaratas dos soldados. Porque o medo do contagio das revoluções, torna os adversários em sócios e transforma os vizinhos em aliados, vinda de Miami, chegou ao porto de Havana uma corveta da Marinha de Guerra dos Estados Unidos da América. Vandalia assim se chamava a embarcação. Ao comando, o contra-almirante Chaucey, portador de “um ofício” de Washington, que afirmava que Cuba podia contar com a ajuda do governo dos Estados Unidos para esmagar a revolta dos “afro-cubanos. A seguir, já perto de Matanzas desembarcaram mais soldados. Avançaram pois os gringos dispostos a desfazer a tiros de canhões aqueles escravos que não conheciam o seu lugar. Por estradas lamacentas daquele outono molhado seguiram cantando e rindo. Os soldados americanos e os seus canhões a darem caça à Carlota e ao seu exército de pés descalços. O combate foi tão desigual quanto sangrento. Não era só o numero de soldados que seria três vezes mais que os revoltosos, era também o equipamento, as armas a alimentação. Os revoltosos estavam nas matas há semanas a comer o que apanhavam... Os soldados foram alimentados pelas empresas que esperavam recuperar os seus campos para retomarem a produção. O inevitável aconteceu, após os primeiros confrontos, capturaram a Carlota viva. Interrogaram-na para que denunciasse onde e se escondiam e quantos eram os outros revoltosos. A Carlota não disse nada. Pouco familiarizado com os métodos de interrogatório modernos, o capitão que conduzia as operações no terreno, decidiu amarrar as pernas e os braços da Carlota a mulas e por os animais a puxar cada um para seu lado. Para ver se desatavam o nó do segredo. A mulas despedaçaram o corpo da Carlota, mas a sua vontade de calar permaneceu intacta. O levante de Triunvirato estava definitivamente esmagado. No entanto, o segredo que Carlota conseguiu guardar com a própria vida, permitiu a alguns revoltosos chegarem ao pantanal de Zapata. Foi nesses terrenos pantanosos e inóspitos, sem interesse para a industria açucareira nem para a produção de café que muitos homens e mulheres encontraram refugio. Construiriam uma comunidade alargada na zona das grutas del Cabildo. Um grupo grande e disperso de gente pobre a viver com o que a terra e o mato lhes dava. Mas uma comunidade de pessoas livres. E não há dinheiro que pague a liberdade.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Jane Birkin-- O inevitável

Conheceram—se nas filmagens de um filme medíocre mas bem financiado. Ele era uma vedeta de quarenta anos, ela uma jovem atriz revelação de vinte e três doces primaveras. A ela avisaram: cuidado com ele. E ela ainda sem o conhecer, começou logo a ter interesse nele. A ele disseram: vais gostar, faz o teu tipo. Ele, provocador respondeu: depois da Brigite qualquer uma faz o meu tipo. A primeira semana de filmagens foi de trabalho intenso. Muitas cenas de exteriores que era preciso filmar às primeiras horas da manhã. À tarde eram as secas com o realizador a querer ensaiar para o dia seguinte. E à noite os produtores e agentes, chamavam a corja dos jornalistas e fotógrafos para promoverem a fita. Foi numa dessas noites, numa badalada casa da moda em que se bebia e dançava que ele lhe meteu a língua na boca e lhe abraçou a cintura. Ela queixou—se que os sapatos lhe magoavam os pés, ele descalçou—a e atirou para longe as sandálias de salto alto. Passariam juntos doze anos. Os fotógrafos presentes registaram os primeiros beijos. O saliva na língua dele aromatizada de Bourbon e galoise a fundir—se na saliva da garganta dela refrescada por champanhe e com travo a erva. — Vamos sair daqui, tou farto destes merdas! Ela concordou. — Onde moras? — Estou a morar com uma amiga na zona da gare du lest. —Telefonas do meu hotel a dizer que não vais ficar lá hoje... Saíram de fininho sem se despedir. Na rua mais beijos de língua e mãos debaixo do vestido. O Renault dele seguiu por uma Paris quase adormecida desafiando a polícia nos controlos de velocidade e em todos os semáforos vermelhos. No hotel onde ele vivia, um hotel caro, a recepcionista à procura de cúmplicidade com a vedeta, perguntou—lhe se queria que servissem uma ceia. Não era preciso. Entraram de mãos dadas no elevador. O amor quase que acontecia ali em plena ascensão, não fosse o plim da chegada ao oitavo piso. Um andar acima do sétimo céu.
Chegados ao quarto, ele foi à casa de banho, faz xixi, lavou a cara, penteou—se com a mão e bochechou com pasta dos dentes. 
Quando voltou ela ainda estava ao telefone com a amiga. Sorriu para ele, despachou a amiga, desligou e entrou na casa de banho. 
Fechou a porta branca atrás de si mesma, sentou—se no trono de loiça e fez xixi. Abriu o chuveiro, despiu—se, cheirou—se e entrou no duche. Deixou que a água quente nas costas trabalhasse como relaxante muscular. Depois, conscienciosamente, lavou—se. Toda, por inteiro, dando especial atenção às partes que considerava mais necessitadas. Quando saiu do banho, envolveu—se numa toalha de turco com o tamanho de um campo de futebol e ficou parada em frente ao espelho. Secou o cabelo fazendo um penteado assim meio despenteado. Gostou de se ver. Serviu—se então da água de Colônia, três borrifos: no pescoço, entre os seios, e sobre a púbis que à época se usava peluda. Deixou a toalha no chão da casa de banho e nua e entrou no quarto.
O inevitável aconteceu: ele tinha adormecido.

Louise Michele - E as bengaladas do Manuel Joaquim

A Louise Michel era marselhesa mas foi cedo para Paris. Professora, poetisa, enfermeira, escritora e revolucionária. Dirigiu importantes sectores durante a Comuna de Paris. Primeiro como enfermeira, depois como coordenadora do sector da propaganda e nos ultimos dias, de armas na mão defendendo e resistindo pela Comuna.
Preocupada com a educação infantil, a Louise Michel ainda chegou a ser professora. Aos 26 anos tinha escrito e publicado vários livros relacionados com educação e mudança social. 
Quando a comuna é esmagada, os algozes fazem da Louise Michele um exemplo, e a farsa do seu julgamento é um imenso e enorme monumento de propaganda anti-comunista. 
Por pouco escapa à pena de morte. Vai deportada durante várias decadas para a Nova Caledonia. 
Por cá, o Pinheiro Chagas, esse que dá o nome à rua, era um importante deputado nas Cortes. Um homem de referencia nacional, daqueles senhores muito importantes que arrotava coisas muito inteligentes que logo eram repetidas por jornalistas igualmente inteligentes e importantes, e voltava a ser repetida por amigos e seguidores. Coisas de um passado remoto, de uma democracia de faz de conta, longe da realidade dos dias de hoje neste pais moderno e desenvolvido. 
Este Pinheiro Chagas, com o seu bigodinho revirado e as suas lunetas de intelectual foi um verdadeiro defensor do desenvolvimento económico e progresso esclarecido.
Naturalmente um feroz opositor à desordem e o caos revolucionários da Comuna. 
Quando chegaram as noticias da comuna de Paris, os jornais da época davam mais ênfase ao escândalo de haver mulheres entre as revoltosas, do que às razões da própria revolta. Sobre a Louise Michel, alarve e babão, o respeitado e reputado deputado disse logo: " Se fosse cá em Portugal, não tinha havido tanta desordem, porque em Lisboa, há um Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, que é suficientemente homem, para pegar na Louise Michel, lhe levantar as saias lhe dar uns belos açoites nas nádegas, à boa e antiga portuguesa! Para lhe corrigir os excessos e disciplinar-lhe as politicas!" 
Naquele tempo, os jornalistas gostavam de fazer ecoar frases assim retumbantes de pessoas importantes e depressa publicaram em todos os jornais, que eram dois ou três, as alarvidades do Pinheiro Chagas. Outros tempos. 
Quem não gostou do que leu foi um outro Manuel Joaquim, de sobrenome Pinto, professor primário e solidário com a comuna de Paris, que dava aulas no “ensino livre” na Promotora, em Alcântara, que era na altura o bairro mais operário de Lisboa. O professor, que até era um homem cordato, escreveu um artigo num jornal de operários “a Revolução Social” a desancar no Chagas. 
Nada de exageros nem ofensas, apenas descreveu a posição do Chagas, tal e qual como ele era: estúpido e buçal. 
Os jornalistas amigos do Pinheiro Chagas foram a correr mostrar-lhe o artigo no "Revolução Social". O deputado sentiu-se ofendido e num outro artigo pediu publicamente, explicações ao professor. 
O Pinto de Alcântara, farto de ler jornais e de artigos para cá e para lá, não se fez esperar, foi até São Bento onde o deputado trabalhava e deu-lhe as explicações solicitadas. Para explicar melhor a um aluno de tão difícil compreensão, usou uma bengala e deu-he  com ela pelos cornos. 
 Foi um escândalo para a Lisboa de então as bengaladas no Pinheiro Chagas.... 
A justiça entrou em campo. O professor de Alcântara, pagou uma multa e ainda passou um ano e meio preso por causa dessa explicação que foi dar ao deputado... Que recebeu solidariedade transversal de todas as decentes e de bem aqui deste país que é a peida da Europa.
Mas a verdade é que ao Pinheiro Chagas, as bengaladas que levou, essas ninguém lhas conseguiu tirar de cima. 
Ainda bem.

Joana Darc -- Ardidamente Santa

A Joana sempre foi uma rebelde. Dizem que viveu virgem e que usa apenas como peça de roupa uma túnica de linho sobre o seu corpo nu. A pele das coxas com o cavalo em esforço entre as pernas despidas. O rosto em êxtase e a espada na mão. Uma espada grande de ferro e aço com punho pequenino para o seu pulso adolescente. 
Nascida camponesa, na terra de Arc, sem outra fortuna além de si própria. Teve a força e a genica necessária para reunir os franceses e quase quase vencer a guerra contra os ingleses. Uma daquelas guerras antigas e longas. Uma guerra de cem anos. 
Quando a Joana falava soprava vento e quando levantava a espada sentia—se o furacão do seu querer. Corações e cabeças tombaram de paixão e desejo pela Joana. 
A Joana quase—menina, virou a Joana quase—mulher. Mulher, jovem, bonita, carismática e inteligente, combinação perfeita para lhe estragar a vida! 
Meio caminho andado para a fogueira dos donos do mundo. O resto do caminho fez a galope no seu cavalo. Julgaram—na por bruxa. Não se sabe se era, se não era. Dizem que as há. Depressa a condenaram. Mais depressa executaram a sentença. O fogo que a matou aqueceu uma multidão de basbaques e satisfaz o perverso desejo de morte de nobres e padres. Foram os mesmos de sempre que acenderam a chama que lá  em Ruão. 
Ainda lá está o túmulo para confirmar que o que conto não é mentira. 
Em cima das suas cinzas frias, os mesmos de sempre, acumulando opressão com humilhação fizeram da Joana Santa. 
Sim, Santa. Santa católica para rezar nas missas e pedir milagres. 
Não contentes, sempre os mesmos donos do mundo, trataram de amassar as suas cinzas com o cuspo que lhes sobra nos cantos da boca dos seus discursos e fizeram do que sobrou um Símbolo Nacional. 
O patriarcado compensou a impotência de séculos com estandartes em seu nome.
Sempre que arde uma igreja, não resisto a imaginar a Joana, descida do seu cavalo e de túnica arregaçada, a brincar com fósforos para ajustar contas antigas. Que me perdoem os mais católicos.

Marilyn Monroe -- Onde o escândalo morreu nu

A loura Norma Jean, nasceu em Los Angeles em 1926. Passou a infância em orfanatos e lares adotivos onde o padrão de abuso e fuga se foi sucedendo dos doze aos quinze anos. Com dezasseis casou—se pela primeira vez e foi trabalhar numa fábrica de material de guerra. O marido gostava mais de copos do que dela e por isso separa—se com dezanove. É então que se envolve com um fotógrafo que a convence a fazer algumas sessões de fotografia. Faz muitas fotografias. Fotos de moda, artísticas, com roupa, sem roupa, em estúdio, ao ar livre, em casa... centenas de fotos. Depois envia para agências e algumas vezes é chamada para fazer mais fotos. Mantém o trabalho para pagar a renda e as sopas de tomate enlatadas que eram a base da sua alimentação. Ainda a trabalhar na fábrica, começa a ir a castings para filmes. Em 47 chegam os primeiros trabalhos para cinema, ainda pequenos papéis. Os papéis vão crescendo à medida que o talento vai sendo reconhecido e os manda—chuva dos estúdios reparam nela. Muda de nome para Marilyn Monroe e continua a crescer. No início dos anos 50 é já uma das mais novas e brilhantes estrelas no universo de Hollywood. Em 1953 o jovem Hugh Marston Hefner cria uma revista com fotografias de mulheres nuas a que chama PlayBoy e prepara o primeiro número para sair em Dezembro. Procura fotógrafos e modelos dispostas a pousar para a sua publicação. É então que lhe aparece um tipo a vender—lhe umas fotografias inéditas da vedeta de Hollywood Marilyn Monroe, tiradas uns cinco anos antes...As fotografias dizem que a modelo se chama Norma Jean... Mas vê—se bem que é ela. O fotógrafo pedia uma fortuna pelas imagens, mas o Hefner, que de parvo não tinha nada, arranjou—se como pode e pagou o dinheiro que lhe pediram até ao último cêntimo garantindo a exclusividade. 
Claro que não é preciso de dizer que a revista foi um êxito total. O escândalo associado às fotos da Marilyn promoveu ainda mais a PlayBoy. Os patrões dos estúdios para quem a Marilyn trabalhava quiseram processar a revista e sacar ao Hugh Hefner "tudo tudo o que tivesse até ao último tostão". Os advogados esfregavam as mãozinhas sapudas de contar dinheiro. Nos jornais os editores e directores preparavam—se para uma cobertura sangrenta. Mandaram jornalistas e paparazzi, voarem a direito, guiados pelo cheiro do sangue e da carne. Foram entrevistar e fotografar a jovem vedeta e ouvir as suas lamentações.
Assim que a jovem Marilyn saiu à rua, caíram—lhe em cima com flashs e perguntas venenosas. 
A moça, superiormente inteligente, naquela voz entre o o ingênua e a cama arrasou: 
— Processar a Playboy? Porquê? Não acham que fiquei bem nas fotografias? Sou uma trabalhadora, e quando fiz aquele trabalho fui paga para o fazer, e bem paga, adianto que ganhei mais naquela tarde de fotografias do que o que me pagavam por uma semana na fábrica! 
O escândalo morreu ali.

Juliette Greco -- Aquele olhar fodido

Não esquecemos nada. Habituamo-nos. É tudo. 
A Juliette Gréco é uma preciosidade da colheita de 27. O pai era corso e mãe francesa. Uma casta destas teve de ser criada em Bordeus, onde passou os seus primeiros anos de vida, com o resto da família alargada. De natureza tímida e reservada manteve sempre aquele olhar de quem não pode, nem quer, dizer tudo o que sente e sabe. Um olhar fodido que lhe saiu caro. Até aos treze anos as coisas corriam-lhe bem, era feliz e nem sabia. Depois em trinta e nove chegaram os lobos nazis. A mão de Juliete, mulher de cepa retorcida, liderava a célula comunista da Resistência lá da zona. E já sabemos que esse anos do governo de Vichy e saudações de mãozinhas esticadas, não foram anos bons para os antisfascistas franceses. Foram tempos particularmente maus para os comunistas. Em 1943 a mãe da Juliete é presa pela Gestapo juntamente com as filhas. Vem embaladas num carro celular para conhecerem Paris. Lamentavelmente para elas, os policias nazis, levam-nas directamente para sede da Gestapo e nem cheiram o ar das ruas. São as três submetidas a tortura. Em conjunto e separadas. Repetidamente. Juliette, tem 16 anos e a irmã tem 18. A mais nova das três mulheres, a que viria a ser cantora, fica mais de um mês nas caves dos nazis. É usada sobretudo para pressionar a mãe. Quando os policias arianos acharam que não tem mais nada a arrancar às três mulheres, decidem esquecer-se delas nas celas e não lhes dão comida nem agua. Por capricho, por acaso, por sorte ou por fastio dos carcereiros, é libertada.
Acontece numa noite igual às outras, quando lhe dizem mais uma vez que a vão fuzilar. A mãe e a irmã permanecem na prisão da Gestapo. Sai assustada e sozinha paras ruas desoladas de uma Paris ocupada, cinzenta, suja e fria. É uma professora reformada compulsivamente pelas suas simpatias de esquerda, que a recolhe e lhe dá um tecto no bairro de Saint-Germain-des-Prés. 
A menina tem um palmo de cara, canta bem, leu todos os poetas e não tem jeito para trabalhar, naturalmente torna-se artista. 
Guerra acabada e derrotado o nazismo, sem ainda ter feito os vinte anos, estreia-se como actriz numa peça de Roger Vitrac. Conhece o Sartre, que a apresenta ao Camus, e ao Boris Vian. Está lançada. 
Apesar do sucesso, mantém a natureza tímida e aquele olhar fodido de quem não fala. 
É cortejada à vez e gosta de ser assim mimada e bem tratada. A intelectualidade da rive gauche canonizou-a no altar dos cafés. A sua postura de diva discreta e o olhar fodido, fez dela a musa eterna dos existencialistas. 
Diz a Juliette que não esquecemos nada. Que nos habituamos. E é tudo. Eu acredito.

Fernanda do Vale -- Na estátua abolicionista
















Ao lado do Mercado da ribeira está um jardim quadrado chamado Praça D luís I. Costumava estar mais ou menos relvado, tem meia dúzia de palmeiras, velhotes sentados nos bancos, turistas a tirar fotografias e pessoas a passear cães atrelados. Também tem pombos que pousam e cagam num homem de pedra fardado de General. Quem se der ao trabalho de ler a placa percebe que tal personagem, é nem mais nem menos, que o Marques de Sá da Bandeira. Apesar de ser todo de pedra, na estátua, tal como era no homem, há uma perna de pau. Na mão puseram-lhe um estandarte e fica ali os dias e as noites inteiras a olhar para o sul e a ver partir os comboios para Cascais. Aos pés do marques está um leão que se deixou dormir. Junto ao leão, uma figura feminina, meio despida. A mulher de pedra branca tem um bebé ao colo. Diz que é a Liberdade.
Talvez seja uma justa representação da liberdade sim.
Mais ao sul, passando o Tejo, passando todo o Alentejo, saindo por Sagres e saltando todo o mar Atalntico, sempre a avançar para sul, pulando o Equador, continuando para sul até Angola. Passando Luanda que fica para trás à esquerda, continuando a descer pelo mar, até chegar as terras arenosas do Namibe, aí, vira-se à esquerda, sobe-se a serra até ao Lubango. Depois de todo este percurso para chegar a esse quase fim do mundo, podemos encontrar outra estátua do mesmo gajo. 
Desta outra estátua do mesmo Marquês de Sá da Bandeira resta apenas um corpo decapitado. Perdeu a cabeça com a independência de Angola. O corpo do corpo mutilado continuou no jardim Hodji Aohuenda no Lubango, desconfortavelmente de pé, no pacato jardim daquela cidadezinha que o colonialismo baptizou com o seu nome e apelido. 
E o marques lá está, velho mutilado num país onde mais mutilado menos mutilado, não faz assim tanta diferença. 
O colono chamou Sádabandeira ao Lubango porque o senhor Sá da Bandeira foi um acérrimo defensor da causa colonial. Dizia e escrevia para quem o queria ler que "o desenvolvimento português passa por África." Ainda jovem, conheceu Angola, bebeu da agua do Dembo e ficou enfeitiçado, impressionado e apaixonado pela terra que viu. Soldado de profissão, marques por vocação mas geneticamente agricultor, fez as contas e percebeu que aquela terra toda precisava de ser trabalhada... mas faltava mão de obra. No inicio do século XIX Angola estava despovoada há três séculos. O negocio dos negreiros e os sucessivos de raptos esvaziara completamente o país. Depois de muito pensar, de puxar por aquela sábia cabecinha, e de fazer contas, achou que se nos queríamos comparar com o ingleses, devíamos abolir a escravatura. 
Mais por razões económicas do que por razões humanitárias, o marques foi um abolicionista convicto. E defendia as suas ideias abolicionistas na corte e em escritos para quem o quisesse ler. 
Tempos depois, já o Sá da Bandeira estava morto e enterrado, já o Brasil estava independente, a coroa endividada a pedir empréstimos aos ingleses que não aprovavam o comercio de escravos... e pronto, lá aprovaram a lei da abolição da escravatura, fizeram a estátua ao homem e espetaram com ele alí onde está perto dos bares do Cais do Sodré. A Fernanda era negra e linda. Inteligente todos os dias e puta, às vezes. Viveu com artistas e fez a cama com ministros...Fernanda do Vale, Preta Fernanda como era conhecido no Chiado. Diz o registo que nasceu em Cabo-verde em 1862 e morreu já na republica nos anos trinta. Muito bonita e sagaz foi-se instruindo com a vida e as companhias. Foi amante de luxo dos senhores de alta-finança do virar do século pagavam-lhenem dinheiro e luxos e ela ia acumulando conhecimentos e saber estar. Apesar de ser a alta finanaça quem lhe pagava as contas, namorou e conviveu com a nata intelectual. 
Uns deram-lhe dinheiro, outros deram-lhe conhecimento. Ficou viúva muito cedo, ainda com menos de vinte anos. Sozinha, sem trabalho nem recursos safou-se como pode. E safou-se bem. 
Vestiu-se de odalisca e dançou para príncipes. A cavalo lidou touros em Cascais. Com o Eça de Queirós, de quem era intima, assistia aos espectáculo do Teatro Trindade nos camarotes vipes para escândalo das damas de sociedade e inveja dos jornalistas. 
Dizem que cantava o fado ao piano. Dizem também que se sabia defender bem com uma navalha de barba que usava escondida na roupa. Num País que era paisagem e numa Lisboa que era o Chiado ficaram famosos os escândalos da Preta Fernanda.  
Pois nesses primeiros anos do século XX, depois do ultimato ingles o nacionalismo colonialista estava em alta. Decidiram por isso fazer uma estátua ao marques de Sá da Bandeira. Quiseram por a estátua ao lado do recém inaugurado Mercado da Ribeira. O escultor designado pelo ministério para fazer a obra, um artista de regime, cujo nome não interessa, andava enamorado pela Preta Fernanda... Muito naturalmente escolheu a escultural paixão como modelo para a figura da Liberdade de quem decalcou o busto e o rosto em gesso para depois fazer em bronze. Com grilhões nos pés e um criança nos braços esta Liberdade de bronze mostra o peito perfeito e a carnuda boca a denunciar a caboverneanidade da modelo. Bendita Mãe Africa que te fez tão linda!
E a liberdade ali está, estática e seminua a espera que o seu menino de colo, mulato cresça e se faça a vida no comboio para Cascais ou no barco para Cacilhas.

Janis Joplin -- A voragem dos chapéus à cowboy

Janis Lyn nasceu gordinha e cresceu provinciana. A sua família era ultra-conservadora e religiosa. Passou a infância e início da adolescência a cantar no coro da igreja, que era obrigada a frequentar. Foi frequentemente vítima dos abusos de colegas na escola primária e no liceu. Aquelas crianças e adolescentes cedo aprendem a recusar toda e qualquer diferença. Comportamentos e aparências passam obrigatoriamente no crivo do apropriado. Se é apropriado é tolerado, se é diferente, é inapropriado e deve ser estripado por todos os meios. Mal se identifica qualquer característica que saia do rigoroso padrão, recorre-se ao ataque e à humilhação. Para que todas as peças encaixem no puzzle da sua sociedade de sucesso. Consome, obedece e agradece a Deus viveres neste país. O objectivo final será um mundo de gente igual na forma e no conteúdo. A este fascismo social e cultural, chama-se Texas -- Anos 50. Mas a Janis não encaixava. Era gorda, tinha borbulhas e foi ficando cada vez mais tímida e fechada em si mesma. Quando lhe dirigiam a palavra, por vezes, gaguejava as respostas. Porque tinha uma sensibilidade apurada que naquela altura se manifestava nos traços dos seus desenhos - aos dezassete anos entra na universidade do Texas para o curso de Artes Visuais. Quer ser pintora, acha. Sente-se artista, tem a certeza. E a vida da menina tímida deu uma reviravolta. Passou umas semanas num lar religioso, mas ao contrário do que a família pretendia, mudou para uma república. República mista, com rapazes e raparigas a partilharem a mesma casa e sabe-se lá o que mais... Nessa casa de pecados e revelações, onde se fazia tudo menos estudar, havia sempre uma guitarra. Cedo se percebe que com dois ou três copos no bucho, a menina gordinha, que quase não se dava por ela, até canta. E até canta mesmo umas coisas. Quando abre a goela, as paredes tremem e só as pedras da calçada não ficam de pelos eriçados ao ouvi-la. (Mesmo sabendo que no Texas não há pedras da calçada). É então que a menina começa a ir a bares de karaoke cantar. Depois passa a cantar acompanhada à guitarra. Entretanto, com os amigos da música, forma uma banda. Todos os fins de semana vai cantar em bares dos arredores da cidade universitária. Chegam as primeiras notas ganhas com o seu trabalho. O curso vai ficando para trás... Lá na Terra dela, no Texas, começa a ser falada. Na igreja o pastor relata o seu caso como exemplo para os pais terem mais cuidado com a liberdade que dão aos filhos. Mas a Janis Lyn não ouviu o pastor e continua o seu percurso de artista. Muda-se para San Francisco. Canta e liberta-se. Pelo menos faz por se libertar. A relação com a família descamba completamente. Quando vai tentar reconciliar-se com os seus, estes recusam a entrada na sua própria casa. Vai para um hotel na sua própria cidade. Embebeda-se, chora e canta. No dia seguinte, corta definitivamente com os pais e com o Texas. Vieram os amores, correspondidos, não correspondidos, doces, azedos e ácidos, alguns muito ácidos. Uma fuga para a frente com uma gravidez indesejada. A opção de abortar era a única saída, foi tirar ao México, em Tijuana. Volta a tempo de continuar a cantar. É preciso pagar a renda. No camarim cai, desmaia e não é do álcool. Internamento por hemorragia. Os jornais a falarem do caso. E ela a cantar para pagar as contas. No Texas tudo se sabe. Os copos, as passas, os namorados, as namoradas, o aborto e as camisas largas sem soutien. Tudo é analisado e pesado na balança do povo que é juiz permanente das causas dos outros. E ela continua a cantar. E a vender discos. O sucesso nacional da Janis é visto naquela cidade onde nasceu como uma ofensa pessoal e um atestado de burrice crónica a cada um e todos os habitantes. Dói-lhes o sucesso dela. E ela a cantar. A ansiedade e o medo deram lugar a uma depressão profunda. Compensa com ervas exóticas, copos e amores mais ou menos livres. A educação religiosa e conservadora deixou marcas profundas no sentimento da culpa, sempre presente. Continua a cantar e continua a beber. Para não beber em seco, acompanha o álcool com comprimidos, speed e umas tripezinhas daquele LSD bom que se fazia na altura. E vá de cantar. Sempre a cantar. Começa também a decorar as veias dos braços com furinhos feitos com agulha presa a uma seringa. Aparece sorridente nas fotografias e a dieta líquida que tem feito, tirou-lhe peso. Os discos dela vendem-se bem. Vendem-se bem em todo o lado, menos lá na terra dela do Texas. Cheira um risquinho de coca antes de subir ao palco, só para ter energia para cantar. Quando acaba o trabalho, dá um piquinho de cavalo só para poder ter um bocado de paz e poder descansar. Porque, na sua essência é uma mulher conservadora, não abandona o seu velho e primeiro amor: o álcool. E os gajos que fazem discos a faturar à conta da voz da Janis Lyn. Curiosamente, ou talvez nem tanto, a canção que a levou ao estrelado chama-se, literalmente, "um pedaço do seu coração". Passou em todas as rádios com uma Janis Lyn já sem voz a implorar para que todos tirassem um bocado do seu coração!!! E todos tiraram. Até para vender calças de ganga serviu. Todos gostam da voz dela a esvair-se em copos, seringas e amor mal-feito atrás do palco. Todos todos não, todos, menos aquela malta lá da terra dela no Texas. Em 1970, de tanto se dar, o coração da Janis Lyn deixou de bater. Muitos lamentaram. E aquela malta lá da terra dela do Texas, consternada, teve finalmente oportunidade para dizer: --- Sempre a achei esquisita, desde miúda... via-se logo que não acabava bem!

Eartha Kitt -- Mulher Terra

Eartha Kitt, metro e meio de sensualidade concentrada com inquieta e exuberante inteligência. O Orsan Wells disse que era a mulher mais sensual do mundo. Terá sido das mais. A Eartha nasceu numa plantação de algodão na Carolina do Sul, em 1927. Filha de mãe solteira de uma descendência de uma longa linhagem de mães solteiras. Diz-se que a mãe era linda e exótica com sangue cruzado entre índios e negros. O seu pai seria um homem branco, não se sabe quem. Morreu sem saber, nem nunca se mostrou interessada em conhecer a identidade do homem que engravidou a mãe para ela nascer. A vida dela terminou no natal de 2008. Deixou a casa onde viveu à filha única, o nome na lista negra dos proscritos, um extenso dossier nos arquivos da CIA e do FBI, alguns discos gravados, centenas de horas de cinema e televisão, deixou a memória da Catwoman. As suas cinzas foram espalhadas no canteiro à porta de casa por vontade dela. “Sou uma mulher da terra, confio na terra. Não confio nem em diamantes nem no ouro”, terá dito uns anos antes de morrer. Começou a cantar nos anos 40 e a deixar os homens loucos só de olharem para ela. Em 1950, o Orsan Wells trouxe-a para o cinema. Brilhou com intensidade. Nas décadas seguintes, fez cinema, teatro, televisão mas não deixou de cantar. Cantou até ao final da vida. Foi em 1967 que a sua vida deu a volta. Nesse ano, entrou numa série de grande visibilidade nos estados Unidos: Batman. Fazia o papel de batwoman. Foi um escândalo entre os americanos ver uma protagonista negra a fazer um papel principal, ate aí interpretado por uma actriz loira. Muito falado nos media da época. Tão falado, que uns meses depois, já em 1968, a Eartha recebeu no correio um convite da primeira dama Lady Bird Johnson, para almoçar na Casa Branca. A Eartha, a princípio, disse que não. Estava farta de badalação e de ser exibida a prova que justificava a mentira que não havia racismo nos Estados Unidos. Mas mudou de ideias depois da secretária da mulher do presidente Johnson, lhe telefonar pessoalmente e lhe pedir para reconsiderar, a senhora, simpática, explicou que o tema do almoço era a delinquência juvenil. A Eartha Kitt tinha feito muito trabalho com grupos de jovens nas comunidades pobres e estava especialmente interessada no esforço da consciencialização da juventude. Por isso preparou-se, organizou documentação e trabalhou o tema para o almoço antes de viajar para Washington. Mal chegou, foram buscá-la ao comboio numa limusina e levaram-na para um hotel caro onde ficou alojada. Com champanhe e flores no quarto, tudo cortesia da presidência dos Estados Unidos da América. No dia seguinte lá foi para a Casa Branca para o tal almoço, percebeu que os presentes estavam mais interessados no menu do que em discutir os problemas da juventude. Depois da sobremesa chegou a imprensa e o Lyndon Johnson pôs-se a fazer um discurso politicamente correto sobre o papel das famílias e de como a educação começava em casa. Foi ai que a Kitt, no seu metro e meio de grandeza, se levantou da mesa, foi direita ao orador e interrompeu o Presidente dos Estados Unidos da América: – Senhor presidente, o que é que o senhor sabe sobre os pais dos delinquentes? Sabe a que horas se levantam para ir trabalhar para porem comida na mesa? Sabe se estas pessoas têm onde deixar os seus filhos? Quem toma conta destas crianças quando se trabalha doze e quatorze horas por dia? Claro que a interrupção deixou o Johnson meio enrascado, ainda tentou responder com o esforço da segurança social para a criação de centros de acolhimento mas acabou por deixar a sala, com uma desculpa esfarrapada para a meia dúzia de jornalistas presentes. A Kitt voltou a sentar-se mas antes de sair, chamou os jornalistas, sobretudo pessoas ligadas às colunas sociais e leu uma declaração que tinha preparado em que explicava que, na sua opinião, a principal causa para a delinquência juvenil da altura era a pobreza e a guerra. “Mandamos os nossos jovens para morrer e matar no Vietname e depois não queremos que se revoltem contra esta sociedade que mal chegados da guerra, não lhes damos emprego e a única saída é vender droga ou roubar.” Claro que a carreira como estrela da Eartha Kitt acabou ali. Nas décadas seguintes, ninguém nos grandes estúdios ou televisão lhe deu trabalho. Mas foi-se safando, continuou a representar e a cantar com produtores independentes e companhias alternativas, ganhando muito menos mas fazendo coisas de que gostava mais. Ficou o seu olhar de gata e o seu gingar felino, aquele balanço que assusta os homens estabelecidos e fascina os homens insensatos com um fraco por mulheres fortes.

Severa -- Morrer agarrada a ti
















Maria Onofriana, a Severa, diva, fadista e puta. 
E Santa (por canonizar) padroeira dos fadistas. 
Filha de um cigano de Santarém, que para a historia só deixou a alcunha de Severo, alcunha essa que traz em si um cheiro de honra lavada com navalha aberta. Dizem que cigano, ainda relativamente jovem, foi a Nisa desencaminhar uma filha de pescadores, naquela época em que se pescava no Tejo sem celuloses nem barragens. 
A família real tinha-se pirado para o Brasil, há meses e seguindo o monárquico exemplo, o casal também fugiu da repressão paterna da noiva na direcção do por do sol. 
O Tejo que é generoso, trouxe-os sãos e salvos para a Madragoa. Agradecido aos deuses das estradas e do vento, o cigano Severo abriu uma taberna. Vendiam vinho duvidoso, a comida que aparecia e convívio intimo. 
A Ana, que todos conheciam como “A Barbuda”, servia copos de vinho e atendia clientes no reservado atrás da cortina. O Severo garantia a ordem na casa, fazia com que todos pagassem o consumido que não houvesse abusos com a Barbuda. Alem disso, animava as noites, quando dava uns toques na guitarra e se o vinho lhe desse isso cantava rouco e sentimental o destino de todos os pobres. 
Sem saber muito bem como, a Barbuda acabou por se engravidar. Nasceu uma menina a 26 de Julho de 1820. Sendo o Severo um cigano sério, assumiu a paternidade da menina. Maria como a mãe, Severa como o pai e Onofriana porque é um nome bonito. Assim foi decidido. 
A Severa, foi buscar ao pai o encanto moreno, a voz rouca e o gosto pela musica. Mas como a musica não enchia a barriga, aprendeu com a mãe a milenar arte de esfolar cabritos que é uma metáfora, para o verbo “prostituir-se” que me soa melhor assim dito, uma vez que isto não é nenhum relatório técnico social para apresentar em tribunal. Jovenzinha, gira, cantadeira e disponível encantou a Madragoa e logo a seguir foi atraindo a babosa e decadente elite Lisboeta.
Vinham os boémios, os ricos e os totós, ver e pagar pela Severa. O jovem Conde do Vimioso, Francisco da Paula de Portugal e Castro, um menino bem da Lapa, carregado de dinheiro, dado a touros e guitarradas, veio também e ficou embeiçado pela moça. Todos os dias la estava o Chiquinho do Vimioso na tasca da barbuda.  O Chiquinho levava os amigos para ouvirem a Severa cantar. E depois os amigos saiam e ele ficava a passar a noite com a Severa. E levava a Severa à tourada. E levava a Severa aos jantares e esperas de touros, e a Severa cantava e mostrava-se. E oferecia à Severa prendas caras...a Severa gostava de espicaçar a inveja e mostrava as prendas às colegas de profissão. 
Como um passarinho contente, cantava para todos ouvirem, e todos ficavam agradados com o que viam e ouviam. 
Todos não. 
Há sempre quem nos queira mal... O pai do Chiquinho, sem sensibilidade para o fado, nem para entender o amor e os seus devaneios, não achou piada nenhuma as aventuras do filho com a cantadeira. Uma cigana e de cama incerta. 
Por isso fez um ultimato ao filho varão, ou te deixas de putarias, ou eu corto-te a mesada. 
O Chiquinho fez um esforço e pensou. Depois fez as contas à vida e com vinte e três anos casou com a Domingas que não sendo fadista nem cigana, não tinha entrado na historia a até este momento. A Domingas entra para sair já, dizendo-vos apenas que a Domingas não sendo feia era do mais puro e nobre sangue luso e alem disso a família tinha dinheiro. 
O casamento foi celebrado em Lisboa e todos brindaram aos noivos. 
Todos menos a Severa que não brindou. Nem sequer foi convidada. Amuou e e sofreu de amuo e amor. Disse ao Chiquinho que não o queria ver mais. Mentiu. E doeu-lhe. 
A dor e o amor proibido e perdido deram-lhe ainda mais sentimento à voz e mais desprendimento ao corpo. Continuou a viver do que lhe pagavam para fazer amor. Quando o Chiquinho deixou de insistir e de aparecer definitivamente porque lhe nasceu a primeira filha, a Severa deixou o Bairro Alto e foi viver para a Rua do Capelão, que naquele tempo era conhecida como Rua Suja. Trabalhava e cantava na Mouraria, mas o coração estava a morar na lapa. 
Conviveu com marujos, fadistas, tocadores de guitarra e ciganos. Aos vinte e quatro anos estava gasta e prematuramente envelhecida. 
Quase morreu de amor, mas foi a tuberculose que a levou. Cantou até a tosse e a febre a dobrarem. Foi sepultada numa vala comum do alto de São João, sem caixao, embrulhada numa colcha que guardava com sentimento. Tinha 26 anos. Terá dito antes de morrer: morro sem ter vivido!

Mãe Menininha -- Uma cadeira para sentar a poesia











Os bizavós vieram escravizados da Nigéria. Os avós nasceram também eles em escravatura e emanciparam-se na liberdade precária dos alforreados. Os pais eram donos de si mesmos mas socialmente condenados à pobreza. Ela nasceu, antes do século XX começar. Como foi num 10 de Fevereiro, no registo feito, deram-lhe o nome de Escolástica. Era a santa daquele dia. Maria por ser mulher e Conceição Nazaré que eram os nomes da mãe. Do pai, Joaquim, herdou o bom feitio, o riso fácil e a teimosia. Cresceu livre, tão livre quanto pode ser a liberdade para quem nasce sem dinheuro em Salvador da Bahia. 
Mulher, negra e pobre, os tres factores da submissão. Viveu uns intensos noventa e tres anos para mostrar ao mundo que ninguem nasce condenado! Cedo se fez à vida. Ainda quase criança, desenvencilhou-se a costurar para fora, a bordar, a cozinhar doces, a cozinhar salgados. Depois seguia pelas ruas do centro histórico da cidade com um tabuleiro a vender o produto do seu trabalho, fosse para comer, vestir ou admirar. Livre, sem patrões. Terá sido por essa altura que conheceu aquele que viria a ser seu marido. Diz quem sabe que se encontraram num autocarro. Era um rapaz vindo do Sergipe, bem-vestido, de olhar de fogo, calado de boca e sorridente no seu silêncio. Álvaro MacDowell de Oliveira, mestiço exótico de um Brasil cruzando sangue de índios, negros e brancos escoceses. Bacharel em direito a ponto de se tornar advogado. Não ficou indiferente ao encanto da Escolástica, que nessa altura já todos tratavam por Menininha por ser de estatura franzina e ter aquela gargalhada de criança que iria manter até ao resto da vida. Casaram hunildes e tiveram duas filhas. Depois tudo mudou. Teria a Menininha uns 28 anos, quando foi chamada pela família para gerir o Terreiro de Candomblé onde nasceu e cresceu. As crianças eram pequenas e o marido trabalhava duro para se afirmar como advogado de negros e mestiços num universo de justiça branca, com juizes brancos e advogados brancos para pessoas brancas. A Menininha resistiu à ideia de ficar no Terreiro a tempo inteiro. Queria ser a mãe das suas filhas, apenas isso. – Eu não quero passar os dias a ouvir falar em desgraças, misérias e problemas, ter de ficar calada e pegar nos búzios e ver com os Orixás como ajudar! 
Mas há coisas que não têm como. E Salvador é cidade de mistérios. Em 1922, assumiu o cargo e mudou-se de armas e bagagens para o morro do Gantois. Foi com as filhas e levou a modernidade ao Candomblé. O marido ficou na casa do casal. Continuaram casados e apaixonados muitos anos mais, até à morte do advogado que não sendo crente, respeitava a religião da mulher e foi fundamental para o reconhecimento legal do direito à prática religiosa. Com o seu jeito directo e a gargalhada fácil, passou a gerir uma das maiores casas religiosas, um templo que envolvia centenas de fiéis e dezenas de pessoas a trabalhar em permanência. Com a Mãe Menininha o Terreiro do Gantois prosperou e cresceu. Abriu as portas aos mestiços e aos brancos. Perante a estranheza dos mais conservadores, perguntava: E pobreza escolhe cor? 
Emanava humilde encanto em todas as direções e com a personalidade da Mãe Meninina não vinham só os pobres. As elites aproximavam-se. Numa altura em que a lei registava o preconceito e a repressão das religiões africanas, a Mãe Menininha foi um dia falar com o comandante da polícia e simplesmente, convidou o homem para vir assistir e ver com os seus proprios olhos uma festa no Terreiro e que ali não havia mal. Falava, dava concelhos e ajudava todos. Incluindo os bandidos de Salvador, muitos deles seus amigos de infância. Foi o marido da Mãe Menininha, Álvaro Oliveira, que sendo advogado e profundamente envolvido na luta pela liberdade, quem levou o Jorge Amado ao terreiro do Gantois, e de quem depressa se tornou amigo e camarada do jovem escritor, também ele interveniente político. Corria o início dos anos 30. 
Nas décadas seguintes, a influência, o respeito e o carinho pela Mãe Menininha, alastraram pela cidade de Salvador, pelo estado da Bahia e pelo país-continente que são os Estados Unidos do Brasil. Com aquele jeito simples, e sorriso aberto, dizia todas as verdades sem ofender mas também sem dar aso a discórdia. Cativava desde os mais simples e humildes aos mais sérios e intelectuais. Todos iam ao Gantois para ouvir concelhos, opiniões ou apenas para pedir a Benção e ouvir as palavras doces e sábias da Mãe Menininha. Nos anos sessenta, quando a ditadura militar se instalou no Brasil, já a Mãe Menininha era uma instituição. O Terreiro do Gantois tinha as portas abertas a quem o procurasse - a toda a gente. E isso incluía as esposas dos senhores comandantes militares, representantes da ditadura no estado da Baía. Enquanto os maridos se entretinham a comandar torcidários e torturadores, algumas dessas senhoras de alta-roda frequentavam o Terreiro do Gantois mais que não fosse, para poderem dizer em São Paulo ou no Rio, que conheciam e que eram íntimas da Mãe Menininha. E a Mãe de Santo recebia-as com o mesmo carinho que recebia as vendedoras de acarajé, as trabalhadoras domésticas ou as prostitutas. 
Foram anos de chumbo, de repressão e perseguição a todos os contestatários, sobretudo os comunistas. Em 1964, um destacado militante comunista, na eminencia de ser preso, procurou a ajuda do Álvaro Oliveira, marido de Mãe Menininha. A Mãe de Santo, não só abriu as portas do Terreiro, mas inclusivamente, permitiu ao clandestino, ficar a dormir e a comer  na zona mais secreta e reservada do templo. Falos-vos do peji nonde vive o venerado Otá da Oxum. (Quem sabe o que é que se cale e quem não sabe é porque não tem de saber).  
O comunista esteve escondido no peji  durante algumas semanas. Durante o periodo que lá esteve, era a Mãe Menininha quem ia pessoalmente levar-lhe a comida. Já velho, contava ele que todas as noites conversavam. Não de politca mas de historia, que era uma das paixões da Mãe de Santo. 
Claro que os militares não arriscaram nunca uma busca no Terreiro do Gantois. Ninguém queria contrariar aquela senhora que tratava governantes, intelectuais e povo anónimo por "meu filho". 
Sempre naquele sorriso terno, de forma carinhosa mas sem deixar margem para dúvidas sobre a necessidade imediata de ser obedecida. Conta a Maria Bethânia, que foi ela quem levou ao Gantois o poeta e diplomata Vinicius de Moraes. Quando a Betania chegou com Vinicius ao Terreiro, a Mãe Menininha mandou ir buscar uma cadeira para sentar o Vinicius. 
A cantora, na altura uma jovem que trazia a rebeldia à flor da pele, contestou: -- Mas minha Mãe, aqui todo o mundo senta na esteira, só a senhora senta na cadeira, porque é que vamos buscar uma cadeira para o Vinicius, porque é homem é? A mãe Menininha sorriu o seu sorriso e respondeu que a cadeira não era para sentar o Vinicius, era para sentar todo o peso do amor que a poesia dele trazia. 
Vinicius riu e abusado perguntou se podia acender um cigarro...mas bastou o silencioso não no olhar da Mãe para o poeta manter o tabaco no bolso. A Mãe de Santo gostava muito de ver televisão. Já nos anos setenta, ela própria setentona, assistia obrigatoriamente à novela das oito. Dizia que gostava de se distrair com as estórias de mentirinha misturada com verdade, porque a vida toda teve de tratar de estórias de verdade misturadas com mentira. 
Nos últimos anos de vida, saía pouco, mas o Terreiro era um corropio de personalidades para verem e falarem com a Mãe Menininha. Uma das pessoas mais próximas ter-lhe-à perguntado,no que é que durante todos aqueles anos a ser Mãe de Santo, ela tinha tido mais dificuldade. -- Minha filha, eu não tenho dificuldade, sempre tive de comer, onde dormir e cheguei a velha... mas o que me custa mesmo, é ter de tratar bem quem eu não gosto!! É. Custa mesmo filha! Mas fazer o quê?!?!? Eles coitado não tem culpa de eu não gostar deles... todo o mundo precisa de um acalento!

Inês de Castro -- Três Marias

Eram três Marias. Eram as três, Maria, de primeiro nome. Mulheres e jovens: Maria Constança, Maria Inês e Maria Teresa. Vieram as três, juntas de Madrid. Novas, ricas, bonitas e amigas umas das outras. Ou, pelo menos, tão amigas quanto é possível serem amigas entre si três mulheres bonitas. Viajaram juntas. Duas semanas em cortejo. Entre vales e planícies. A usarem a parte de trás das árvores como casa de banho e a sujeitarem os corpos às lavagens ocasionais pelos ribeiros e rios que cruzavam. Chegaram a Lisboa a precisar de um banho a sério e de mudar de roupa. Estiveram dois meses a fazê-lo antes de serem apresentadas à corte. A Constança, a mais ambiciosa, vinha prometida para casar com o príncipe e com ideias de ser rainha. A Inês, a mais bonita, trazia a marca de um desgosto amoroso e sonhos intensos. A Teresa, a mais inteligente, tinha ideias de fazer um bom casamento sem sequer imaginar se viria a parir um rei. O príncipe era tudo menos principesco. Pedro, cru e duro e de humor que variava entre a frenética alegria e a mais triste melancolia. Uma criança rebelde e contida que evoluiu para um homem calado. Entre a timidez e a crueldade, gostava de caçar e ser ele mesmo a esventrar os animais caçados. Amores tinha-os aos montes. Submetia mulheres e criados à sua vontade. Amava-se a si próprio. Na dor e submissão dos outros vivia o prazer de se sentir omnipotente. Quando foi a noite de apresentação da futura noiva, fez o favor ao pai, tomou banho e vestiu-se para a cerimónia de apresentação. Não se arrependeu. Ficou fascinado não sou só com a noiva, mas também com as suas duas amigas. Encantado com a graça e modos e sobretudo interessado porque não estavam tão disponíveis como as outras senhoritas que tinha conhecido. Ultrapassadas as manobras políticas, o casamento acabou por acontecer entre o Pedro e a Constança. Viveram uma relação distante, própria dos casamentos monarcas, os encontros entre marido e mulher aconteciam frios em horas e dias marcados. O melancólico Pedro, sorria e cumpria contido o calendário das cúpulas agendadas. A jovem esposa do futuro rei, confidenciava com as amigas, sobretudo com a Inês e com a Teresa, o tédio das noites de casada. Pedro e Inês cruzavam-se com frequência. Picada pela Constança, Inês fazia perguntas ao Pedro. Entre ambos, adubado pelo desejo da proibição e regado pela baba dos corpos a quererem, florescia uma coisa que se pode chamar de amor. Envolveram-se o Pedro e a Inês. Enrolaram-se e amaram-se como puderam em momentos fugídios entre reposteiros e arbustos. À mulher legítima de Pedro, Constança, amiga de Inês,que não andava a dormir... a coisa começou a desagradar, não pelos factos em si, mas pelo falatório dos ociosos. Mas eram amigas e damas e detestavam escândalos. Entalada entre a Constança e a Inês, a terceira amiga, a Teresa, com inteligência evitava percalços e simultaneamente protegia os amantes e tomava conta de Constança. Apesar da agenda carregada do marido e da amiga, do formalismo dos encontros e das noites solitárias, a Constança engravidou-se. Pedro assumia bem o papel do príncipe que espera um herdeiro, mas viva a contar as horas para se encontrar com a Inês. O pai do Pedro, rei, envenenado por moralistas vozes, não aprovava o relacionamento do filho com a amiga da mulher e mandou a Inês de volta para Castela. Os últimos meses da gravidez foram um martírio para a Constança, demoraram séculos de incómodo para os cinco. Para a Constança que gravemente grávida tinha os pés inchados num trambolho e o estômago aziado com enjoos contínuos, tudo o que comia vomitava e não lhe apetecia comer nada. Para a criança que viria a nascer que, com os jejuns da mãe, crescia mirrada e frágil no seu ventre. Para o Pedro que teve de procurar outros entretens com a mulher naquele estado e a amante longe. Para a Inês que voltou para Castela, associada a um escândalo sem outros proveitos que ver o seu nome sujo. Para a Teresa que andava feita enfermeira a ajudar a Constança e feita psicóloga a ouvir as queixas do Pedro. A Constança, triste e inchada, morreu de parto e deixou como herança um rapazinho que, se sobrevivesse, com sorte poderia vir a subir ao trono. O Pedro foi-se abaixo. A Inês em Madrid agonizava. Foi então que a Teresa, passado umas semanas de luto, sugeriu ao Pedro que mandasse vir a Inês. No papel de viúvo, Pedro escreveu (ou mandou escrever, porque há duvidas sobre a sua alfabetização) uma carta a pedir à Inês que regressasse. As polítiquices na corte continuavam febris. O pai, Afonso, que era rei, apoiava-se em meia dúzia de famílias tradicionais que queriam continuar a mandar. Ele, Pedro que queria ser rei, juntou-se a dois ou três amigos banqueiros que queriam vir a mandar. Regressada a Inês, o Pedro, deu um tempo à política e recebeu-a em Coimbra. Foram para uma casa que fora feita pela sua avó Isabel. Uma avó rainha e santa que gostava de rosas e que era vagamente bruxa. A Isabel do milagre das Rosas. Conta a lenda e os documentos antigos confirmam-no, que a casa para onde foram morar, fora a Isabel enquanto rainha, quem a mandara construir e deixara escrito preto no branco “para nela morarem os seus herdeiros com as suas esposas legitimas”. Esta determinação escrita pela Isabel, ficou como uma espécie de maldição escrita a sangue nas paredes daquela casa onde morreu: casados legitimamente! Acontece que o Pedro não vivia o tempo da sua avó. Eram outros tempos e o Pedro e a Inês estavam a viver juntos sim. Mas estavam a dar um tempo, para ver se a relação resultava. Tinham muitas coisas para organizar antes de poderem formalizar a coisa num casamento. As manobras políticas em Lisboa não davam tréguas. Estava o país em ebulição e aqueles que podiam contar com elas, contavam as espadas. Entretanto da Inês nasceram mais crianças que podiam vir a ser herdeiros. A notícia caiu mal em Lisboa, sobretudo nos círculos mais conservadores. As crianças viviam com os pais, na casa da avó do Pedro que ainda não sendo uma alma santa para os católicos, manifestava a sua presença apagando velas, soprando correntes de ar, dando estalidos nos móveis antigos e mudando o sítio às coisas. Inês, mais aberta aos fenómenos paranormais, ainda tentou convencer o Pedro a mudarem de sitio e procurarem outra casa. Nada feito. Alheio às intervenções da falecida mãe na casa onde vivia o filho, a Afonso, pai de Pedro, não agradou a ideia dos netos bastarditos. Muito menos a ideia de uma conspiração da nora para o depor. No meio das intrigas da corte, por necessidade política, malvadez ou simples estupidez, o rei e os seus amigos, decidiram assassinar a companheira do Pedro e acabar de vez com aquele foco de conspiração em Coimbra. Juntaram-se dois ou três nobres fieis ao rei e seguiram com o combinado. Numa manhã de azar, a sete de Janeiro de 1355, estando o Pedro ausente eventualmente caçando, a maldição da avó Isabel, confirmou-se nas lâminas dos assassinos. Inês morreu concubina e o seu sangue sujou o chão e as paredes daquela casa feita para mulheres legítimas. Pedro não perdoou. Nessa mesma noite, juntou meia dúzia de amigos e quase que fizeram um golpe de estado. O país entrou em guerra civil que durou até Agosto. Ano e meio depois o pai do Pedro morreu de velho e de desgosto e o Pedro faz-se rei. Sentado no trono, duplamente viúvo, dá vazão ao ódio e raiva acumulados. Manda matar e participa activamente na matança de todos aqueles que tiveram, nem que fosse vagamente, envolvidos no assassinato da Inês. Depois, manda matar aqueles que ele sabia que não gostavam da Inês. Depois manda matar aqueles que ele desconfiava que não gostavam da Inês. Depois manda matar mais uns quantos, só para servir de aviso aos outros que sobravam. Mas o mais sórdido ainda estava para vir... Metade da loucura estaria justificada pela dor, a outra metade seria definitivamente crónica. O Rei Pedro, manda então desenterrar o corpo da Inês sepultado há dois anos nas terras barrentas e molhadas pelo Mondego. Uma decomposição parcial e limitada, cabelos e unhas intactos, músculos parcialmente decompostos, pele a secar sobre os ossos e o odor que se libertava lembrava a todos os presentes que somos apenas carne que se estraga. Ninguém ousa dizer que não ao Rei Pedro. Chama a corte e os bispos, manda fazer o casamento com a morta. Depois exige vê-la coroada Rainha. E que todos assistam. O bispo cumpre com as ordens do novo rei. Todos assistem. Aquilo que foi o corpo de mulher da Inês, estava agora sentado na cadeira do trono, vestido de púrpura, regado com rios de perfume no salão nobre. Reunida a nobreza, todos vão beijar os dedos que são ossos cobertos de pele e unhas com pedaços de carne apodrecida. Todos beijam a mão de Inês, ou aquilo que foi a mão de Inês que em pecado acariciou o rei e que em morte lhes era rainha e senhora. Saídos os convidados ficou ainda nessa noite sentado ao lado do cadáver a beber e a conversar com aquela que terá amado. Na manhã seguinte, mais sóbrio, dentro do possível, manda sepultar a rainha. Exige que se faça um túmulo sem olhar a despesas, que de resto não era ele que pagava... A dor e mágoa duraram até dar por concluída a vingança. Devagar, no seu passo tímido, foi-se chegando Teresa, a amiga e confidente de Inês e de Constança. Amiga de Pedro em todas as horas, as doces e boas e as tristes e amargas. Ao rei, sabia-lhe bem conversar com a Teresa e ouvir dela as histórias de juventude de si mesmo e das suas duas mulheres. Foram ficando cada vez mais amigos. Tão amigos que Teresa deu ao Pedro um herdeiro, filho de ambos, João. Fruto, se não de amor, de pelo menos muita cumplicidade. João, bastardinho, criado por padres em Avis, que todos chamariam Mestre, viria um dia a ser rei em Portugal.

Jeanne Barret -- O segredo das buganvilias

Nascida e falecida no signo do Leão. A Jeanne cresceu e viveu selvagem como uma leoa e indomável como uma buganvília. Foi no ano bissexto de 1740, tres semanas depois do bebé que viria a ser o Marques de Sade ter gritado pela primeira vez. Ao contrário do Donatien de Sade, a bebé Jeanne nasceu na mais completa miséria na escura, suja e empobrecida Borgonha dos camponeses sem terra. Os pais eram assalariados rurais e ambos analfabetos. Os primeiros vinte anos da sua vida, são muito confusos. Ficou órfã de ambos os pais antes dos dez. Deambula pela Borgonha. Por caridade e imunda lascívia é recebida por um padre que a ensina a ler nas horas vagas dos abusos. Ai pelos quatorze foge do padre, já que é para ser abusada, ao menos que ganhe algum dinheiro com isso. Numa taberna onde parava conhece um cavalheiro letrado, muito mais velho que ela e que lhe dá conhecer os enciclopedistas. É apadrinhada por uma velha que quando deixou de se ter idade para se prostituir começou a curar doenças venéreas e outras através das ervas. Chamavam bruxa à velha, e aprendiz de bruxa à miúda. Terá sido o amigo e cliente cavalheiro que a levou para a casa dos Commerson. Já tinha mais de vinte anos e não queria ser puta o resto da sua vida, sabia ler, escrever e tratar doenças através profundo conhecimento sobre plantas e mezinhas. O cavalheiro que a levou, contou um historia triste de uma moça de boas famílias que sabia ler e escrever e que tinha ficado sem ninguém no mundo. Fica a trabalhar como criada e ama nessa casa de pequeno-burgueses. A patroa era irmã do padre e todos gostavam muito da Jeanne. O seu dinamismo e inteligência, aliada a gravidez complicada e um certo feito contemplativo da dona da casa, empurram Jeanne. Em pouco tempo passou de criada e ama a governanta. Em 1762 a patroa morre num complicado parto e a partir daí a Jeanne assume definitivamente as rédeas da casa. O seu trabalho, vai muito alem de gerir a contabilidade doméstica, garantir as refeições a horas e educar a criança que não chegou a nascer. Planta um jardim de ervas e organiza um herbário. trata dos nervos de uma tia velha e da depressão da viuvez do notário. Para a velha usa ervas, para o patrão terá usado de outros truques de magia. Dois anos depois da gravidez mortal da dona da casa, é a Jeanne quem engravida. O escândalo é proporcional ao tamanho da vila e à dimensão pequeno-burguesa da família do padre. A Jeann convence o patrão a mudarem-se para Paris onde os escândalos se dissolvem nas luzes e no perfume das ruas. Continuou no papel de sua governanta e sempre que pode foge para as bibliotecas onde lê tudo sobre plantas. O filho, nasceu morto em Dezembro de 1764. É nesse ano de 1764 que o rei Luis XV nomeou para dirigir uma expedição de circunagevação, o navegador, herói de guerra e mosqueteiro, Louis Antoine de Bougainville. Em 1765, Commerson foi convidado a participar da expedição de Bougainville como contabilista e notário. Homem fraco física e emocionalmente, dependia da assistencial permanente da Jeanne. Decidiu recusar o convite. O dinheiro dava jeito mas não era tudo. Não se sentia com capacidade de se afastar da sua Jeanne. E as mulheres eram proibidas a bordo... Mas a Jeanne não partilhava da opinião do patrão e teve a tal ideia que a cuspiria definitivamente no pergaminho da história do machismo náutico. -- Vais sim, e eu vou contigo! Vou vestida de homem, e levas-me como criado. Não foi difícil de convencer o patrão. Não era difícil para ela convencer quem quer que fosse. Persuadiu-o a ir na viagem, e a redigir um testamento. O testamento garantia, no caso da morte de Commerson", um montante fixo de 600 libras, juntamente com os salários atrasados e os móveis do meu apartamento em Paris.” Jeanne e Commerson juntam-se à expedição de Bougainville no porto de Rochefort nos últimos dias de 1766. Seguem no Étoile . O frágil Commerson esteve doente a viagem quase toda. Primeiro enjoo depois uma ferida na perna que ulcerou. A Jeanne a cuidar dele. Foi neste trabalho como “enfermeiro” que teve contacto com o botânico a bordo. O especialista em plantas percebeu que o imberbe criado do notário sabia muito sobre plantas. Sabia mais ainda do que ele próprio que era botânico diplomado... Quando chegaram ao continente americano, era a Jaenne com o nome de Baret quem saia a recolher plantas e a catalogar os exemplares recolhidos. No Rio de Janeiro que na altura era um local muito mais perigoso, o padre abordo de Étoile foi assassinado. O vírus do medo contaminou todos na expedição. Commerson foi oficial e convenientemente confinado ao navio enquanto sua perna curava. Jeanne era imune ao medo, e por isso, no seu papel de Baret continuou a sair diariamente para recolher plantas. Segundo o diário de bordo, foi ai, no Rio que Baret recolheu, uma espécimes de trepadeira desconhecida, a que chamou de buganvília em homenagem ao capitão Bougainville. Mas já se sabe que num navio não há segredos. A coisa descobriu-se e foi tema de todas as conversas. Mata, esfola, enforca ou atirem ao tubarões, gritava-se nos trópicos. Protegidos pelo capitão Bouganville, Commerson e a sua “governanta” saem nas ilhas Mauricias evitando complicações para a marinha. Deambulam pelas Mauricias e vão até ao Taiti onde Commerson acaba por morrer, deixando a Jeanne numa situação financeira complicada. Mas a Jaenne tinha feito amigos na Marinha francesa que oficialmente reconheceu seu excelente trabalho como botânica e lhe arranjou uma pensão. Com o dinheiro da sua pensão, voltou às Mauricias e abriu uma taberna, pensão e bordel e em Port Luis, a capital. Depois, encantou-se por um marinheiro misterioso e voltou a casar. Voltou para Paris com o seu novo marido onde recolheu a herança do testamento do Commerson. Viveu para contar a sua história que mostrou ao mundo a beleza indomável das buganvilias e a força de uma mulher.

Madame Laveu -- Dona da Cidade

“Andava pelas ruas de New Orleans, como se fosse a dona da cidade”. Assim escreveram sobre ela. E era. Marie Laveau, Madame Laveu era a dona da cidade. Este foi o seu maior crime. Foi o seu pecado definitivo e a secreta justificação para tudo o que foi dito sobre ela desde o preciso instante em que fechou definitivamente aqueles olhos escuros que derramavam olhar incendiado. Nasceu livre, viveu livre e morreu livre. Filha de gente livre. O pai, era um negociante mestiço, bem sucedido, filho de uma negra e de um branco. A mãe, também ela livre, era filha e neta de sacerdotisas. A avó terá vindo escravizada da Nigéria por volta de 1740 e mal chegou, com o seu trabalho de feitiçaria comprou a sua liberdade. A partir daí os seus descendentes nasceram todos eles livres. A jovem Marie cresceu assim num ambiente de uma certa prosperidade económica entre os negócios de tecidos do pai e os trabalhos de magia da mãe e da avó. Era uma menina inteligente e rebelde. Fez-se mulher depressa. Já vos falei dos olhos, que incendiavam quando olhavam, tinha também um palminho de cara e um corpinho que não repelia. Casou-se antes dos vinte e viveu três anos com um rapaz igualmente bem de vida e mestiço como ela. Viveram juntos, depois a Marie enviuvou com um património confortável. Tinha pouco mais de vinte anos e por onde passava já pisava como dona de si. Envolveu-se então com o jovem Cristophe Glapion , cavalheiro francês de fina figura... recém chegado e como todos os franceses que iam para New Orleans no século dezanove dizia que era nobre... O cavalheiro tinha um nome sonante, beleza europeia e o charme de falar sempre em francês de França. A Marie, conhecia a cidade, tinha dinheiro e sabia quem era quem. Coabitam juntos alguns anos para escândalo da burguesia branca e conservadora. O casal vivia na casa da Marie, que se recusava a sair de onde estavam os altares herdados da sua avó sacerdotisa. O Cristophe, não se importava de partilhar a casa com os espíritos africanos, desde que pudesse partilhar a cama e a mesa com a Marie. Quando a Marie se cansou do francês, arranjou-lhe um casamento com uma branca anglo-saxonica, bonita, loura e sardenta que alem de ser herdeira de uma considerada fortuna, precisava de casar rapidamente por razões que não interessam aqui. A Marie cozinhou o casamento e abençoou a união. Ficou amiga dos dois até ao fim da vida de ambos. Nos seus trinta e muitos, a Marie passou a viver sozinha. Oficialmente era cabeleireira. Ia a casa das famílias poderosas da cidade, famílias, brancas, mestiças e negras. Ia pretensamente para pentear os cabelos das senhoras. Se calhar até sabia alguma coisa de cabelos, mas ganhava a vida, e ganhava bem a sua vida, lendo cartas e fazendo feitiços. Fazia previsões, ajudava em casos de amores. Receitava ervas para as senhoras não engravidarem e ajudava as adolescentes reconquistar fama de virgens recatadas. Também fazia trabalhos mágicos para ajudar os cavalheiros nos negócios. E convocava espíritos para decidir causas em tribunal. Políticos, banqueiros, e donas de casa, todos recorriam aos seus serviços. Tal como carroceiros, prostitutas e trabalhadores indiferenciados. A todos atendia. A todos cobrava conforme a bolsa. Na sua casa celebrava cerimónias de referencia aos espíritos da natureza e aos ancestrais tal como aprendera com a sua avó. Cultuava os voduns. Apesar de toda a cidade ser sua cliente das previsões e dos feitiços, apenas os negros, mulatos e brancos marginalizados participavam nas suas cerimónias que foram crescendo e derivando públicas. Dançavam, rezavam, comiam e bebiam celebrando. A parte branca da cidade, nunca aprovou nem aceitou, as festas religiosas na zona da Praça do Congo onde a Marie morava... Os padres católicos, pastores protestantes e jornalistas, lançaram algumas campanhas contra “A rainha do Vodu”... Madame Laveu sorria, e dizia que o vento que soprava quando ela pedia. Que o vento levava todos aqueles nomes para o fundo do mar ou para o escuro das matas. E continuou a celebrar a vida, os antepassados e a natureza. E continuou a cantar, a dançar, a comer e a beber pelas ruas da cidade que era sua. A sua inteligência superior, não precisava de artes mágicas, para esmagar opositores por mais poderosos que fossem. Quando alguns jornais locais tentaram calunia-la, ela organizou-se e fez um hospital para as vitimas da epidemia de febre amarela que matava em todo o estado. Calaram-se os jornais. Quando os padres católicos se associaram aos protestantes para proibirem o vodu nas ruas, a Marie com o apoio de juízes seus clientes em segredo, criou uma liga que visitava as prisões dava conforto a todos os presos... Os padres passaram a participar da obra de caridade organizada pela Madame Laveu. Morreu com mais de oitenta anos. Em 1881. Morreu cansada e feliz depois de uma festa rija que acabou de manha. Adormeceu pela hora de almoço e não voltou a acordar. O povo da cidade, fez-lhe a devida homenagem tocando, cantando e dançando no cortejo fúnebre. As elites brancas passaram a chamar-lhe bruxa. Os cronistas da cidade escreveram o pior que conseguiram sobre ela. Que tinha uma cobra como animal de estimação. Que escolhia os amantes por capricho, sem se preocupar se eram casados ou solteiros, novos ou velhos, brancos, mestiços ou pretos. Que matava com alfinetes espetados em bonecos. Que fazia abortos às prostitutas. Que enfeitiçava maridos. Que desencaminhava meninas causadoras para o caminho do pecado. Escreveram tudo o que sabiam, ouviram dizer, inventaram, desejavam e temiam. Também eles contribuíram para que nunca mais fosse esquecida a Marie Laveu. Ainda hoje, o jazigo onde descansa a Madame Laveu é motivo de peregrinação. Não há americana branca, negra ou mestiça que quando visita New Orleans não vá ver a Marie. Chegam vestidas de turistas com colares ao pescoço, riem nervosas, fingindo não acreditar. Tiram fotografias e deixam flores e pedidos de amor, amassados naquela mistura de esperança e medo que fertiliza as fantasias mágicas e os sonhos. A resposta da Madame Laveu é incerta, certo, certinho é que passados estes quase cento e cinquenta anos depois da sua morte, na cidade que a Marie pisava como se fosse dona, ainda hoje, todos a temem! Vejam lá o medo que mete uma mulher livre.